‘Dovlatov’: cinemaço russo em streaming

‘Dovlatov’: cinemaço russo em streaming

Rodrigo Fonseca

12 de abril de 2020 | 10h15

Rodrigo Fonseca
Tá rolando “Dovlatov” no Globoplay, o que é uma grata surpresa, oxigenando o cenário do streaming. Proustiana, em sua busca pela utopia comunista perdida, essa comédia dramática saiu do Festival de Berlim de 2018 com o Prêmio de Contribuição Artística dado à sua direção de arte e figurino pela reconstituição, de tons ocres, dos derradeiros dias de autoestima da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Alexey German Jr. dirige a trama – centrada na peleja pela sobrevivência de um artista sem visibilidade – desviando dos lugares comuns e dos cacoetes inerentes às cinebiografias, mesmo tendo como leme os fatos reais da vida do escritor Sergei Dovlatov (1941-1990). Carisma em pessoa, Milan Maric dá múltiplas dimensões existenciais e morais à figura do autor de livros como “Parque cultural” (1983), tangenciando a fragilidade sem nunca cair na vitimização. No processo de escrita de textos hoje cultuados como “A Mala” (1986), ele passou por uma série de percalços não pela liberdade criativa, mas para conseguir pagar suas contas e sustentar sua filha. Sua luta serve como um signo para os confrontos da classe artística Rússia de hoje com seu atual governante (Vladimir Putin). É um filme doloroso – porém engraçadíssimo – sobre a habilidade de perceber os desacertos de um tempo histórico e inventar estratégias para driblá-los.
“Numa terra de Dostoiévski, lutar contra as adversidades para querer se firmar como um escritor é um sintoma de heroísmo”, disse German Jr. ao P de Pop em Berlim. “Vivemos décadas unidos por um sonho de sociedade ideal e só sobrou a ressaca da falência utópica do projeto soviético. Idealizei ‘Dovlatov’ como um retrato do período onde o porre ideológico acabou e a realidade caiu em nosso colo. Mas o que a Rússia viveu nos anos 1970 tem ecos do que vivemos hoje em relação aos conflitos de nosso país”.
Surpreende também a presença de um dos filmes mais ousados da década, “Holy Motors” (2012), de Leos Carax, no Globoplay, que se despede esta semana de “À Procura de Eric” (“Looking for Eric”, 2009), que deu a Ken Loach o prêmio do Júri Ecumênico em Cannes.
Das boas deste dia de #FiqueEmCasa, fica ligado que tem “E.T. – O Extraterrestre” (1982) na Band esta noite, às 21h30. Aliás, antes, às 19h, pra quem curte São Spielberg, tem “Tubarão” (1975).

p.s.: Qualquer semana que começa com “Como Se Fosse a Primeira Vez”, na TV aberta, vai ser uma semana de bons augúrios. A dublagem antológica reúne Miram Ficher e Adam Sandler. ´Na trama, um biólogo marinho precisa reconquistar TODOS OS DIAS uma professora de Artes que sofre de perda de memória recente. A frase “Nessa luz, você fica tão linda que dá nojo” é digna de anotar.

p.s.2: Tem retrospectiva de Jean-Pierre Melville (1917–1973) no MUBI, com: “O Silêncio do Mar” (1949); “Quando Leres Esta Carta” (1953), “Dois Homens em Manhattan” (1959).

p.s.3: Feliz Páscoa.

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