‘Douze Mille’: a medida do realismo

‘Douze Mille’: a medida do realismo

Rodrigo Fonseca

17 de janeiro de 2020 | 17h35

Rodrigo Fonseca
Fora produções badaladas em festivais como Cannes e Veneza, já laçadas em circuito, como “Retrato de uma Jovem em Chamas”, o fórum promocional Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, inaugurado na quinta-feira, em Paris, traz 82 longas-metragens que ainda estão em busca de tela e um drama, de roteiro encantador, que estreia no Velho Mundo neste fim de semana: “Douze Mille”. Na contramão do existencialismo vigente em toda a seleção do evento (promovido pelo governo da França, a fim de atrair os holofotes do mundo para sua produção audiovisual), o belíssimo filme dirigido pela atriz e documentarista Nadège Trebal (de “Bleu Pétrole”) defila pelas telas de braços dados à sociologia, revolvendo feridas econômicas do continente. Respeitada por sua parceria, como roteirista, com a cineasta Claire Simon, Nadège fala aqui de um amor alquebrado por bolsos vazios. E seus doídos fragmentos do discurso amoroso valeram a ela uma indicação ao Leopardo de Ouro de Locarno.

“Existe uma perversa forma de opressão entre nós que vem das relações capitalistas de exploração. Diante de uma prática viciante de busca por dinheiro, que destrói laços de afeto, o maior desafio hoje da Humanidade é proteger o desejo e resguardar uma instância quase instintiva em que o querer se converte em afeto e cria vículos”, disse Nadège ao P de Pop, em LOcarno. “Não gosto dos personagens que estejam no apogeu de suas posses. Não me atraem as figuras armadas, bem-sucedidas, endinheiradas. Gosto de quem só tem o próprio corpo para usar como arma de resistência”.

Pontuado pela sensualidade em seus minutos iniciais, “Douze mille” aborda a atomização de um casal pelo sexismo inerente à afirmação de comando que o dinheiro acredita trazera a quem o detém. Após perder seu trabalho (ilegal), Frank (Arieh Worthalter) sai à cata de um trabalho que lhe garanta uma quantia de 15 mil (de uma moeda não especificada), pelo desejo de ganhar o mesmo que sua mulher, a perseverante Maroussia (papel de Nadège). Mas esta é a primeira a dizer que esse esforço é tolo, e que os soldos dela não passam de 12.000 – daí o título do filme. “Amor é interseção, é parceria, é jogar junto, não uma competição. Porém, frente às desatenções que vivemos hoje, uma vida de casal tem a complexidade finaceira de uma microempresa. Alcançar algum balanço, nos dividendos e nos déficits, de dinheiro e de afeto, é a receita para o equilíbrio de um amor. É a merchandisação do amor. Só que Frank se deixa levar por uma mirada materialista da paixão”, diz a diretora, que investe em cores quentes na fotografia de Jean-Christophe Beauvallet. “Há uma mitologia do proletariado, na qual sobreviver é quase um gesto heroico”.

Uma outra aposta francófona de sucesso para o ano é a animação indigenista “Yakari le film”, dirigida por Toby Genkel e Xavier Giacometti com base na HQ belga homônima centrada nas peripécias de um curumim sioux. O garotinho tem o poder de falar com os animais e ajuda sua tribo a encontrar harmonia com a Natureza em aventuras cheias de humor. Estima-se que vá ser a maior bilheteria da Bélgica em 2020. O Rendez-vous segue até segunda.

p.s.: Cresce em Paris, nas franjas do Rendez-vous, o boato de que “O Sal das Lágrimas” (“Le Sel Des Larmes”), do veteraníssimo Philippe Garrel, vá concorrer ao Urso de Ouro da 70ª Berlinale (de 20 de fevereiro a 1º de março), às vésperas de sua estreia comercial, em abril. O filme segue as angústias de um estudante em meio à paixão por uma imigrante africana e uma reviravolta em sua relação com seu pai.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.