‘Donas da Bola’, o gol do Varilux 2020

‘Donas da Bola’, o gol do Varilux 2020

Rodrigo Fonseca

19 de novembro de 2020 | 01h30

As craques de “Donas da Bola”

Rodrigo Fonseca
Com a elegância habitual de uma maratona cinéfila responsável por trazer o melhor das telas da França ao Brasil, o Festival Varilux cortou, na noite de ontem, no Rio de Janeiro, a faixa inaugural de sua edição 2020, amparado pela sobriedade de seu curador e diretor Christian Boudier (assinando a seleção ao lado da mulher, Emmanuelle) para driblar o queixume dos que protestam contra sua decisão de exibir presencialmente 17 longas-metragens inéditos. “É uma decisão política. Os cinemas estão abertos… e com todos os protocolos de segurança. É importante ocupar as salas, mantendo todo o cuidado com o público”, disse Boudier em uma cerimônia emocionante no Estação Net Gávea, antes da projeção de uma comédia antenada com os pleitos de equidade de gênero: “Donas da Bola” (“Une Belle Équipe”). Sabrina Ouazani e Céline Sallette são as sensações do elenco pilotado por Mohamed Hamidi nos gramados do futebol. No site http://variluxcinefrances.com/2020/cidade tem a programação do evento e os horários deste ensaio sobre empoderamento feminino, que tem projeção às 17h25 desta quinta no Cinestar Laura Alvim. O festival segue até 3 de dezembro, quando celebra os 90 anos de Jean-Luc Godard com uma homenagem a um marco da Nouvelle Vague: “Acossado” (1960).

Astro de fenômenos como “A Riviera Não É Aqui” (2008) e “O Pequeno Nicolau” (2009), Kad Merad entra em cena em “Donas da Bola” como o técnico de um time de futebol do interior da França que está com os dias contados. Uma saída possível é treinar uma seleção de mulheres, o que ele faz com gáudio, extraindo situações de humor, de congraçamento e de combate ao sexismo. A montagem é de uma precisão de relógio suíço. Nas bilheterias de sua pátria, o longa somou 300 mil pagantes.

Roschdy Zem dirige e estrela esta versão nacional de “O Invasor”

Entre as pedidas obrigatórias deste Varilux, privilegie:
“Slalom” (“Slalom”), de Charlène Favier: Com a fotografia mais sofisticada deste Varilux, colecionando tons de azul e vermelho para traduzir os estados de espírito de sua protagonista, este estudo sobre a microfísica do Poder, segundo Foucault, segue os ritos de passagem de uma jovem atleta de esqui na neve (Noée Abita) às voltas com as obsessões e os desrespeitos de seu instrutor, o ex-campeão Fred (Jérémie Renier).
“Sou Francês e Preto” (“Tout Simplement Noir”), de Jean-Pascal Zadi e John Wax: Vista por 800 mil pagantes, esta cartografia de resiliências levou seu país às gargalhadas ao narrar a aventura de um ator (o próprio Zadi, um rapper e cineasta) para organizar uma marcha de contestação aos conflitos raciais. Tem sessão online dele nesta sexta, no Dia da Consciência Negra, às 18h. A exibição será gratuita e seguida de bate-papo, às 19h30m, mediado pelo cineasta e crítico de cinema Clementino Jr., com a participação do cineasta Joel Zito Araújo; da pesquisadora e coordenadora do FICNE (Fórum Itinerante de Cinema Negro) Janaína Oliveira e do ator, diretor e roteirista Alberto Pereira Jr.
“A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília” (“La Fameuse Invasion de La Sicile Par Les Ours”), de Lorenzo Mattotti: Revelado em Cannes, há um ano, em disputa pelo prêmio Un Certain Regard (Um Certo Olhar), dado na seção homônima, paralela à peleja pela Palma de Ouro, esta poesia animada é dirigida pelo quadrinista italiano que desenhou a folia do Brasil no álbum “Carnaval: Cores e movimento” (2006). Com € 66 milhões nas mãos, Mattotti, hoje com 66 anos, transformou em animação um livro do escritor Dino Buzzati (1906-1972): “La famosa invasione degli orsi in Sicilia” (1945). Na trama, o Rei Urso invade uma cidade atrás de seu filhote, que conta com a ajuda de um mágico e de uma jovem para voltar à sua vida na natureza.
“Persona Non Grata”, de Roschdy Zem: O ator e realizador do memorável “Chocolate” (2016) faz neste feérico thriller uma releitura de “O Invasor” (2001), de Beto Brant, assumindo o papel de Anísio (aqui chamado Moïse), celebrizado por Paulo Miklos no original brasileiro. Moïse é um assassino que se livra de um dos sócios dos donos de uma empreiteira, Maxime (Raphaël Personnaz) e Montero (Nicolas Duvauchelle, em brilhante atuação).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.