‘Dona Flor’ festeja seus 45 anos no Festival do Rio

‘Dona Flor’ festeja seus 45 anos no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

15 de dezembro de 2021 | 14h33

Florípedes (Sonia Braga) e Valdomiro (José Wilker) num amor sobrenatural

Rodrigo Fonseca
Adorado por seus ardidos beijos de cebola crua, Valdomiro Santos Guimarães, o Vadinho, há de baixar no Cinépolis Lagoon 3, esta noite, às 21h30, quando seu nome for evocado numa celebração dos 45 anos de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, preparada pelo 23º Festival do Rio, em parceria com a plataforma MUBI. A projeção, em 4K, festeja ainda os 55 anos da publicação do livro homônimo de Jorge Amado (1912-2001), no qual foi baseado. Com um resultado de bilheteria épico, a produção cinematográfica decalcada da bem temperada prosa de Amado vendeu 10.735.524 ingressos no Brasil a partir de sua estreia, em 22 de novembro de 1976. Cultuado como Midas do documentário no país, Eduardo Coutinho (1933-2014) trabalhou no roteiro do filme, ao lado de Leopoldo Serran (1942-2008). Exibida no Paris Theatre de Nova York, em 1978, a love story metafísica produzida pela LC Barreto foi lançada na França em 03.08.1977, ocupando, de cara, dez salas exibidoras de Paris. Em 1979, uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa assegurou prestígio hollywoodiano a Bruno Barreto, que conquistou o Kikito de melhor direção em seu desempenho por trás das câmeras. Chegou a engatar uma carreira lá fora, assim como sua estrela, Sonia Braga. O gênio José Wilker (1946-2014), que partiu deste mundo cedo demais, também deu o ar de sua graça para a indústria hollywoodiana ao aparecer em “O Curandeiro da Selva” (1992).
Fazer um o ‘Dona Flor’ era um projeto que eu tinha com o Glauber Rocha”, lembra Luiz Carlos Barreto, o produtor do fenômeno comercial que entrou para a streaminguesfera na grade da www.mubi.com. “Encontramos o Jorge Amado num restaurante e o Glauber falou pra ele que queria transformar o livro num musical. Jorge duvidou de que essa conversão funcionasse. No que voltamos para o Brasil, fiquei em cima do Glauber, mas ele me disse: ‘Barreto, eu sou um porra-loca. Falei pro Jorge, mas não sei fazer musical’. Depois que ouvi aquilo, comecei a correr atrás de um diretor que pudesse filmar o romance. Era uma época em que nós, do Cinema Novo, decidimos em investir em projetos menos herméticos, que conversassem bem com as plateias, como o ‘Xica da Silva do Cacá Diegues. Tentei o Anselmo Duarte, tentei o Joaquim Pedro… Nada! Aí o Glauber, que tinha visto um filme do meu filho Bruno Barreto, ‘Tati, a Garota’, falou: ‘Com um diretor desses em casa, Barreto, pra que você vai atrás de cineasta fora?’. Resolvi dar uma chance ao Bruno. Assim que vimos os primeiros copiões das filmagens, o Wilker me disse: ‘O menino sabe fazer’. Eu comecei a suspeitar de que a gente podia estar fazendo um marco. E estávamos”.

Vale lembrar, no elenco desse marco popular do nosso cinema, da atuação em estado de graça de Mauro Mendonça, encarnando o apolíneo Dr. Teodoro. Agora, com as projeções no streaming dessa dramédia de amor, é possível avaliar detalhes de excelência da fotografia dionisíaca de Murilo Salles. Na trilha sonora, “O Que Será”, de Chico Buarque, na voz de Simone, tornou aquela paixão de Flor e Vadinho ainda mais envolvente e sinestésica.
Aclamada mundialmente, a trama de “Dona Flor…” se passa na madruga de domingo de Carnaval em 1943, em Salvador, quando um grupo de foliões está sentado na calçada de um bar cantando e bebendo. Um deles cai morto no chão: é Vadinho. Após o enterro, Flor, a viúva, relembra seu casamento. Desde o início do matrimônio, Vadinho se mostra um aspirante a Zé Pilintra, com compulsão pelo jogo. Sai todos os dias com amigos para jogar e beber, e quase sempre chega em casa bêbado na manhã seguinte. Algumas vezes, Flor o encontra jogado na calçada. Pede dinheiro emprestado para todo mundo e adquire muitas dívidas. Chega a bater em Flor pelo fato de ela se negar a lhe emprestar algum. Além disso tem muitas amantes. Apesar de não ser um marido exemplar, Flor gosta muito dele e sente muito sua falta quando ele morre. Para ela, Vadinho era um ótimo amante. Com o tempo, Flor vai deixando o sofrimento de lado e vai retomando a sua rotina, começa a se vestir melhor e a sair mais de casa. Um dia recebe uma carta e acaba descobrindo que o farmacêutico, dr. Teodoro, está apaixonado por ela. Decide se casar com ele. Ela vive bem ao lado do marido, mas algumas vezes se sente agoniada. Um dia começa a receber visitas do fantasma de Vadinho que se insinua para ela. No início, Flor resiste e até decide recorrer a um pai-de-santo para mandar Vadinho embora, mas ela se arrepende logo em seguida e o chama de volta desesperada. A partir daí Vadinho passa a dividir as atenções de sua viúva com dr. Teodoro, criando um trisal.
A gente conseguiu fazer um cinema popular sem ser popularesco”, celebra Barretão. “A gente estourou nos EUA. Ficamos uns seis meses em cartaz no Paris Theatre. Coloqueis uns seis ou sete outros filmes brasileiros no mercado estrangeiro na cola do sucesso do ‘Dona Flor’”.
Em 1998, o livro foi adaptado para a TV, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini. Nas telonas, houve uma recente nova versão, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum. Em 2019, a Televisa lançou no México uma minissérie baseada no livro de Amado, dirigida por Benjamín Cann e estrelada por Ana Serradilla. Vale lembrar ainda de uma versão da narrativa de Amado made in USA com direção de Robert Mulligan (1925–2008) e um elenco reunindo Sally Field, James Caan (genial) e Jeff Bridges, aqui batizada de “Meu Adorável Fantasma” e lá chamada de “Kiss Me Goodbye”.

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