‘Domingo’ no Paraizo

‘Domingo’ no Paraizo

Rodrigo Fonseca

01 de outubro de 2019 | 10h28


RODRIGO FONSECA
Exibido na sessão Venice Days, no Lido, em 2018, e aclamado em sua passagem por festivais em Lima, Havana, Brasília e Rio, onde rendeu o troféu Redentor de melhor atriz a uma afiada Ítala Nandi, “Domingo” chega ao circuito neste fim de semana, destilando fel político, mas com humor, em uma trama com a grife de um dos mais disputados roteiristas do país: Lucas Paraizo. Clara Linhart e Fellipe Gamarano Barbosa (parceiros em “Gabriel e a montanha”) assinam a direção desta bem-humorada crônica sobre as mudanças morais que o Brasil viria a sofrer com a eleição de Lula para presidente. Sinuosa, em seu passeio pelas vaidades de diferentes integrantes de um clã gaúcho abastado, sua narrativa se passa em 1º de janeiro de 2003, um sábado. Enquanto o Brasil celebra a histórica posse de Lula, um churrasco regado a champanhe reúne duas famílias do interior gaúcho cujas máscaras estão prestes a cair. Da sogra que retorna à sua antiga mansão, dilapidada, à filha da empregada de origem não discutida, todas e todos por lá têm seus pecados. No elenco, além de Ítala, como a matriarca cheia de desmandos e de mandos, brilham em cena Camila Morgado, Martha Nowill, Ismael Caneppele, Michael Wahrmann e (um inspiradíssimo) Augusto Madeira. Um dos autores do sucesso da TV “Sob pressão”, premiado pelo roteiro de “Aos teus olhos” (2017), Paraizo fala sobre a arte de escrever textos sobre o abismo de nossas incertezas acerca do Poder. Ele escreveu um livro, “Palavra de Roteirista”, que é bibliografia imprescindível para quem estuda dramaturgia. Parte de seus estudos se faz notar – e inflamar – no filmaço de Clara e de Fellipe.

Lucas Paraizo no lançamento de seu livro sobre a arte do roteiro (foto TV Globo)


Qual é a medida da palavra “política” para a escrita de um roteiro como “Domingo”? O quanto um roteirista tem licença pra imprimir poética política num roteiro?
LUCAS PARAIZO:
Acho que no roteiro do “Domingo” a política passa pelas relações familiares dos personagens e por suas posições sociais. Considero esse um filme político sem ser panfletário. Tudo nele é dramaturgia. Não tem nenhum discurso gratuito. As esferas pública e privadas se cruzam numa espécie de “vaudeville” num dia histórico do Brasil (a posse do Lula em 2003) que culmina com um final que ressignifica a história.
Que dimensão trágica ou cômica de Brasil os personagens de “Domingo” espelham?
LUCAS PARAIZO:
Muitas. O Brasil é trágico e cômico, assim como as famílias dos protagonistas de “Domingo”. Cada um ali tem sua máscara prestes a cair. A intimidade familiar reforça a hipocrisia e coloca os personagens em dilemas éticos e morais. Depois desse sábado com gosto de domingo, esses personagens já não poderão mais voltar atrás, assim como o Brasil — mesmo apesar da (dura) realidade política que vivemos hoje.
Como é o processo de concepção de dramaturgia que a sua experiência na TV traz para um projeto de filme autoral como esse?
LUCAS PARAIZO:
Quando estudei cinema em Cuba, na Escuela Internacional de Cine y Televisión en San Antonio de Los Baños, sempre ouvi que deveria escolher escrever para o cinema OU a TV. Mas sempre fui contra essa divisão. O cinema e a TV se retroalimentam no meu trabalho, com o dinamismo de um e a poesia do outro. Juntos, eles me fazem ser mais criterioso, rigoroso e aproveitar o que cada “formato” me ensina e proporciona.
Quais serão os seus próximos passos no cinema?
LUCAS PARAIZO:
Um projeto novo com a Flávia Castro (diretora de “Deslembro”) que não posso falar muito ainda.

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