Domingo de Arlequina na TV

Domingo de Arlequina na TV

Rodrigo Fonseca

14 de junho de 2020 | 11h38

Rodrigo Fonseca
Criada nos desenhos animados por Paul Dini e Bruce Timm, em setembro de 1992, para renovar o estoque de desafios do Batman, Arlequina, aka Harleen Francis Quinzel, tornou-se a mais saltitante das vilãs de HQs reveladas nas últimas três décadas, tendo encontrado uma encarnação à altura de sua poesia nos cinemas, no talento de Margot Robbie. Esta noite, o coração do Brasil abre suas portas para a personagem uma vez mais, na exibição dublada de “Esquadrão Suicida” (“Suicide Squad”, 2016) no “Domingo Maior”, às 22h30. Iara Riça dá voz à Quinzel, que roubou pra si os holofotes desta superprodução de US$ 175 milhões, cujo faturamento beirou US$ 747 milhões. David Ayer (de “Bright”) assina a direção do longa-metragem, laureado com o Oscar de melhor maquiagem.

Criado em 1987, nas páginas da revista “Lendas” nº 3, a partir de uma premissa dos anos 1950, de Robert Kanigher e Ross Andru, retrabalhada na década de 1980 por Len Wein, John Byrne e John Ostrander, o Esquadrão Suicida foi uma centelha de incorreção no seio das HQs da DC Comics, uma casa sempre atenta a transgressões, vide “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller. Um time de desvalidos condenados era reunido por uma agente cheia de traumas raciais, Amanda Waller, a fim de formar uma força capaz de enfrentar vilões que saiam dos limites, inimigos do Pentágono e heróis descontrolados. Muitos personagens passaram por suas fileiras, entre participações especiais e presenças vitalícias, com destaque para o assassino bom de mira Pistoleiro (Will Smith) e o ladrão Capitão Bumerangue (Jai Courtney). Numa reencarnação contemporânea, mais pós-moderna, novos integrantes surgiram, sendo a psicótica raposa que Arlequina é. E ela se aninha nos braços do Coringa, vivido por Jared Leto.
Num esforço de resposta ao sucesso de “Guardiões da Galáxia” (2014), da Marvel, no qual um supergrupo classe B atingiu fama, tornando-se um filme de grande sucesso, a Warner Bros. adotou o Esquadrão como sendo sua munição mais abusada. E investiu num filme mais dark e irônico, com heróis sem moral. O problema é que surgiu uma pedra no meio do caminho: “Deadpool” (2016), uma comédia genial, de sucesso comercial para além de qualquer expectativa, tendo um mascarado ligado (indiretamente) aos X-Men como protagonista. A questão é que “Deadpool” nasceu para ser chanchada, sem nunca se levar a sério. O “Esquadrão Suicida” de Ayer, não. Ali havia algo de épico. Com medo de perder, mudanças foram feitas, concessões foram aplicadas, o que arranhou a reputação do longa sob o olhar da crítica e de parte dos fãs. Porém, mesmo assim, ele emplacou no gosto popular. E revisto hoje, à luz do tempo, esbanja belezas estéticas que, antes, não eram reconhecíveis, começando pela fotografia do russo Roman Vasyanov.

E há Viola Davis, impecável, como Amanda Waller. Atriz dos mais fartos recursos dramáticos, ela alcança com facilidade o perfil Dirty Harry da personagem e dá legitimidade ao esforço de empoderamento feminino que a DC sempre buscou nos gibis e vem tentando na telona, isso desde a memorável Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer em “Batman, o Retorno” (1992). É Waller (Márcia Morelli dubla Viola aqui) quem reúne um time de criminosos condenados para impedir que uma força das trevas, a Magia, encarnada no corpo da jovem June Moone (Cara Delevingne, dublada por Carol Crespo), espalhe seus demônios pela Terra.

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