‘Dolemite’: rasante de Eddie Murphy à vista

‘Dolemite’: rasante de Eddie Murphy à vista

Rodrigo Fonseca

13 de agosto de 2019 | 10h33

Eddie Murphy nas roupas de Dolemite, cafetão encarnado por Rudy Ray Moore nos cinemas

Rodrigo Fonseca
Selecionado para o Festival de Toronto, de olho na força midiática da Netflix, o biopic cômico “My name is Dolemite”, sobre o multiartista Rudy Ray Moore (1927-2008) e sua colaboração para o movimento blaxploitation nas telas, pode colocar Eddie Murphy na mira do Oscar. O trailer do longa-metragem pilotado por Craig Brewer (de “Ritmo de um sonho”) bombou na web e atraiu holofotes que o eterno Tira da Pesada, hoje com 58 anos, havia perdido há tempos. Aliás, desde que o elenco de “Pantera Negra” (2018) confessou ter usado “Um príncipe em Nova York” (1988) como inspiração, o bom e velho Axel Foley anda em alta, cogitando até uma continuação do sucesso real mencionado aí acima. Os planos para se fazer a parte dois de “Um príncipe em Nova York” estão cada vez mais fortes, tendo Brewer como diretor. A estreia está prevista para 2020, com James Earl Jones, aos 88 anos, de volta ao papel do rei de Zamunda. Na trama de  “Dolemite”, ele recria os passos de Moore nos cinemas, assumindo a imagem de um cafetão que tornou seu codinome célebre nas telas, na década de 1970, sob a direção do também ator D’Urville Martin. Este é vivido pelo sempre surpreendente Wesley Snipes no longa da Netflix. O dilema de Murphy agora é não esbarrar com nenhuma barreira de correção política que possa fazer descarrilhar sua trajetória rumo à consagração nos braços da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Aconteceu algo assim com ele em 2016, quando tinha um filme com cheiro de estatueta dourada nas mãos: “Mr. Church”.

Inédita até hoje no Brasil, esta produção de US$ 8 milhões foi uma das atrações do Tribeca Film Festival 2016, em Nova York, tendo como chamariz não apenas o fato de Murphy estar fazendo drama, mas a grife do cineasta australiano Bruce Beresford. São dele “A Força do Carinho” (1983), pelo qual Robert Duvall foi oscarizado, e “Conduzindo Miss Daisy” (1989), melhor filme pela Academia em 1990.  Não se fala em racismo em “Mr. Church” porque não existem conflitos sociais ou étnicos nele, apenas discussões sobre carência e sobre o enfrentamento de perdas. Com sua fleuma à inglesa, Natascha McElhone abre o filme no papel de Marie, mãe solteira de uma garotinha ranzinza. Portadora de um câncer no seio terminal, ela teve um amante rico que, como prova de amor eterno, contrata um cozinheiro profissional para trabalhar para sua ex-amada como um faz-tudo. O chef em questão é Henry Church (Murphy), um fã de jazz, pianista dos bons e leitor contumaz de clássicos da Literatura. Caberá a ele dar cabo da educação formal e sentimental da filhinha de Marie, Charlie, que, ao crescer, ganha como intérprete a talentosa Britt Robertson.

Nas raias do melodrama, dos mais açucarados, a relação entre Charlie e Church tem algo de pai e filha, galvanizada pelos segredos que ele carrega sobre seu passado e sobre sua predileção por um específico clube de jazz. Não espere muito desses segredos. Não se trata de um filme de viradas, nem de revelações. É apenas um filme sobre uma ave rara chamada amizade, tirando Murphy de seu habitat para testar talentos que ele poucas vezes – fora “Dreamgirls”, pelo qual ele ganhou o Globo de Ouro, em 2007 – expôs ter. Mas ele exercita aqui uma persona mais séria com uma competência invejável.

Vale lembrar que, no Brasil, Murphy será eternamente lembrado pela voz de Mario Jorge, um dos maiores dubladores do país.  

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