‘Dolemite’ é da pesada

‘Dolemite’ é da pesada

Rodrigo Fonseca

27 de outubro de 2019 | 10h20


RODRIGO FONSECA
Eddie Murphy, hoje encarado como o principal rival de Joaquin Phoenix (por “Coringa”) e de Robert De Niro (por “O Irlandês”) nas previsões acerca do Oscar de 2020, era o nome mais citado nos sets de “Pantera Negra” (2018), um dos maiores marcos de inclusão racial de toda a História, nas filmagens do super-herói de Wakanda, em Atlanta, há dois anos. Falava-se muito de Murphy em referência a “Um príncipe em Nova York” (1988), de John Landis, que ganhará uma tardia, mas bem-vinda sequência no ano que vem: sua representação para uma África de riqueza financeira e de alegrias diversas era fundamenta para a saga inclusiva da Marvel. Isso deu ao eterno “tira da pesada” uma visibilidade extra aos olhos das novíssimas gerações e aos olhos de seus fãs de outrora, o que possibilitou seu regresso aos holofotes. Esse regresso, em fino estilo, chama-se “Meu nome é Dolemite”, uma homenagem dele ao ator e produtor Rudy Ray Moore (1927-2008). O longa, de um tônus de humor e de afeto que trazem enlevo à alma da gente, já está na grade da Netflix, tendo sido exibido nas telonas do Festival de Toronto, em setembro, cercado de elogios. É uma releitura histórica de um momento – a década de 1970 – em que atrizes e atores negros assumiam papéis quase sempre heroicos antes restritos só a estrelas brancas. “Shaft” (1971), “Sweet Sweetback’s Baadasssss song” (1971) e “Foxy Brown” (1974) foram os grandes filmes daquela onda de integração, que abriu espaço para Rudy Ray criar “Dolemite” (1975), baseado na figura de um cafetão cheio de ginga interpretado por ele em shows de stand-up. Sob a direção precisa de Craig Brewer (“Ritmo de um sonho”), Murphy revive a jornada de Rudy Ray para levar seu icônico personagem do palco e das lojas de disco (ele gravou LPs com as peripécias de seu ferrabrás) para as telonas. A transposição para os cinemas de Dolemite foi pilotada (com má vontade) pelo ator D’Urville Martin (1939-1984), a quem Wesley Snipes encarna com um tom afetado contagiante. Snipes é um dos chamarizes de “My name is Dolemite” para a estatueta de Hollywood, assim como Da’Vine Joy Randolph, perfeita no papel de Lady Bee, uma das atrizes reveladas por Rudy Ray. Ela é um sintagma de resistência feminina em um universo de malandragens: a cena em que ela reage à violência do marido é antológica. Inspiradíssimo sobretudo em seus figurinos, assinados por Ruth E. Carter com uma paleta de cores saturada, o longa de Brewer tem múltiplas sequências de comoção à flor da pele, conforme seu protagonista vai lutando para levar um filme que bancou a plateias negras, açoitadas pelo racismo. No Brasil, o desempenho de Mario Jorge dublando Murphy é de um requinte técnico impecável. Se houvesse um Oscar da dublagem, a vitória seria dele.
p.s.: À 1h59 desta madruga tem “Eu, eu mesmo e Irene” (2000), um dos melhores filmes dos irmãos Farrelly, na TV Globo. Jim Carrey tem uma atuação luminosa como um policial com dupla personalidade.

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