‘Dois Irmãos’: ‘Caverna do Dragão’ na Berlinale

‘Dois Irmãos’: ‘Caverna do Dragão’ na Berlinale

Rodrigo Fonseca

21 de fevereiro de 2020 | 11h30

Ian e Barley ao volante da caminhonete Guinevere

Rodrigo Fonseca
Mesmo estando com a cabeça nas estrelas, transbordada pelo desempenho de Elio Germano em “Volevo Nascondermi”, o primeiro dos 18 concorrentes ao Urso de Ouro a ser exibido, a Berlinale viveu uma manhã de leveza, flanando nos céus da fantasia, de carona em Guinevere, a caminhonete usada pelos elfos Ian e Barley em “Onward”, a ser traduzido no Brasil como “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica”. Corações errepegistas foram às lágrimas diante de toda a precisão do cineasta Dan Scanlon em evocar campanhas de “Dungeons & Dragons”. Se este nome não te diz nada, isso significa que você não prestou muita atenção ao que se passou nas veredas do pop na década de 1990, pelo menos aqui no Brasil quando esse role-playing game (RPG) foi uma febre nacional. Havia ainda uma versão para a TV do universo dos jogos criados nos EUA em 1974, por Gary Gygax e Dave Arneson: a sagrada série “Caverna do Dragão”, o Mestre dos Magos (dublado por Ionei Silva) e o Vingador (na voz do nonagenário Orlando Drummond). Scanlon trouxe o longa-metragem – que estreia em circuito brasileiro no dia 5 de março – fora de concurso, recebendo uma ovação invejável na exibição pra imprensa, confessando a ela não ser um expert em jogar “personificação” (daí o role-playing).
“Como eu trabalho na Pixar, tive a sorte de contar com o apoio de muita gente que conhece esse universo e me deu ideia das situações a serem criadas, nesta história sobre uma busca, que defende a ideia do balanço, do equilíbrio”, disse Scanlon ao P de Pop. “Como eu nasci em um subúrbio em Michigan, tentei reproduzir o ambiente onde cresci para ambientar o lugar onde os personagens vivem”.

Scanlon contou com dois astros associados aos dois últimos tomos da franquia “Vingadores” em seu elenco de vozes: Tom Holland (o atual Peter Parker, aka Homem-Aranha) e Chris Pratt (o Senhor das Estrelas, ou Starlord, dos Guardiões da Gláxia). Holland dá a voz ao franzino Ian, que cresceu sem conhecer o pai, morto quando ele ainda era um bebê. Barleu (Pratt) é um grunge deslocado no tempo que conviveu com seu papai pouquinho. Os dois sentem falta dele, mas vivem cercado de acomodação em uma dimensão mágica na qual criaturas como fadas, trolls e o povo élfico prefere lâmpadas elétricas e ônibus lotado a apelar para feitiços de voo ou de evocação de bolas de fogo. Mas o surgimento de um cajado capaz de devolver os mortos a vida vai mobilizar esses manos radicalmente diferentes, que roncam os motores da Guinevere para singrar as estradas. A mãe deles (dublada por Julia Louis-Dreyfus) fará de tudo pra encontrar seus rebentos antes que eles se metam em uma maldição ligada ao poder do cetro enfeitiçado. E ela vai arrastar uma dona de bar, Manticore (numa hilária atuação de Octavia Spencer), pelo caminho consigo.
“Não é um filme contra a tecnologia, afinal de contas a gente trabalha na Pixar, que usa máquinas para criar arte. A questão é mostrar o quanto a gente deixou de balancear as prioridades”, disse Scanlon, antes conhecido pela direção de “Universidade Monstros” (2013). “Chegamos a pensar em ter figuras humanas, mas era mais romântico ter personagens com feições de criaturas fantásticas”.

Esta noite, na disputa pelo Urso, a Berlinale confere, enfim, o esperado “Le Sel der Larmes” (“O Sal das Lágrimas”), do veterano Philippe Garrel, usando um triângulo amoroso como base para se discutir a importância do acaso, a aposta no querer e a relevância da experiência afetiva no cuidado com o valor (inestimável) de um sorriso. A Berlinale segue até 1º de março.

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