Dois filmes brasileiros de risco (e de apreço ao bom diálogo) na Mostra de SP

Dois filmes brasileiros de risco (e de apreço ao bom diálogo) na Mostra de SP

Rodrigo Fonseca

24 Outubro 2015 | 10h43

Sabrina Greve e Brenda Lígia estão em

Sabrina Greve e Brenda Lígia estão em “Todas as Cores da Noite”: longa de estreia de um dos mais criativos curta-metragistas de Pernambuco: Pedro Severien

Numa seleta de 312 títulos de diferentes idiomas, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em sua 39ª edição, botou já na mesa cartas de alto naipe para justificar o vigor da produção nacional de fome autoral. Dois longas-metragens com fragilidades internas estruturais, mas de refinamento sobretudo na engenharia de enquadramento, causaram lá seu barulho na segunda noite do evento. Primeiro veio Todas as Cores da Noite, longa de estreia do curta-metragem Pedro Severien, realizador do obrigatório Canção para Minha Irmã (2012). Depois veio Linha de Fuga 2.0, comédia romântica on the rocks de Alexandre Stokler, diretor teatral que rodou Cama de Gato, treze anos atrás, quando ganhou prêmio do público neste mesmo festival, então na 26ª edição.

Ecos de Lynch no mundo de Íris

Ecos de Lynch no mundo de Íris

Tem cheiro de David Lynch em Todas as Cores da Noite, em sua ritualização para o desespero de uma mulher (e que mulherão é Sabrina Greve!) em luta para não repetir o mesmo destino de uma amiga de infância, num movimento que só lhe gera inércia. Mortos tem compostura silenciosa, mas fantasmas são ruidosos no filme de Severien, capaz de esmiuçar a alma feminina ao largo de sua habilidade de alimentar o suspense. Há um cadáver numa sala e, a partir dele, as três mulheres que se encontram em pé de igualdade, ao largo de suas diferenças de classe, de dinheiro e de pele, botam para fora demônios e muita roupa suja acumulada. Por vezes, a protagonista que traça a narrativa, Íris, vivida por Sabrina com a maestria habitual, perde a chance de crescer para além dos traumas. Algumas vezes, na tentativa de rejeitar a lógica pasteurizada dos enredos de gênero, o roteiro tropeça em si mesmo e confunde o entendimento dos diferentes planos de tempo. Mas, ainda assim, isso é menor do que a vitalidade visual da fotografia de Daniel Aragão e Beto Martins, arredia diante de uma casa à beira-mar. A paisagem litorânea ajuda a contextualizar a opressão em que Íris se isolou. Mas a geografia que interessa mais à câmera é a de seu isolamento no medo e na loucura. E fora, isso, tem um roteiro que valoriza a força da palavra. Avis rara.

Nunca se vê o rosto dos protagonistas de

Nunca se vê o rosto dos protagonistas de “Linha de Fuga 2.0”: é sexo verbal com estilo

O apreço pela palavra também demarca Linha de Fuga 2.0, permitindo que Stokler dê ao sexo verbal o viagra da encenação. Unidos por um chat, seus personagens, Mata Hari e Sherlock ficam no plano da metonímia, da parte pelo todo, do peito para baixo em vez da cabeça que fala ou do rosto que brilha. As vozes de Caco Ciocler e Luciana Caruso norteiam um papo sobre desejos entre estranhos que se cobiçam predatórios, falando de possibilidades anais, transas em aviões e do uso de vinho como esfoliante. Fala-se, fala-se e fala-se por 80 minutos que driblam a monotonia pelo humor e por frases daquelas para se anotar e dizer para a/o gatinha/o cobiçada/o como “A gente chega no ponto de gostar tanto a ponto de querer vestir a pele de alguém amado só para saber como ele sente”. É um parlatório que cria uma instância de love story, ainda que pautada só pela vontade de uma transa, antenada com experiências latinas como En La Cama (2005), do chileno Matias Bize, ou o obrigatório argentino O Incêndio (2015), de Juan Schinitman. Stokler não consegue, contudo, atenuar o tom teatral da entonação do texto entre os atores, sobretudo em Luciana, o que dá um tom de leitura de mesa, um pouco artificial, fragilizando o jogo esboçado entre dois modos de querer. Há um sopro de vida extra quando a câmera vai para a janela ou para o olho mágico, vendo um mundo redor e mostrando como seus protagonistas se encontram apequenados pela comodidade do virtual. É um formato de filme de risco, mas aberto e caloroso. Uma evolução para o cineasta.

Kikito por Um Homem Só: atuação primorosa de Mariana Ximenes numa sci-fi cômica

Kikito por “Um Homem Só”, neste sábado (24) na Mostra: atuação primorosa de Mariana Ximenes numa sci-fi cômica

Neste sábado, 24, a fé no cinema brasileiro se renova com a sessão de O Prefeito, uma comédia política de Bruno Safadi que mostra o quanto ator Nizo Neto pode ultrapassar nossas expectativas quando o assunto é atuar bem. E já que o papo gravitou pelo riso, rola ainda nesta noite de sábado a singeleza de Um Homem Só, de Claudia Jouvin, pelo qual Mariana Ximenes papou um merecido Kikito de melhor atriz em Gramado. Vale destacar ainda que a Mostra projeta neste fim de semana o vencedor do Redentor de melhor documentário do Festival do Rio: Olmo e a Gaivota, de Petra Costa, diretora hoje apelidada de “a musa da verdade”, não apenas pela beleza, mas pelo timbre melífluo de seu olhar sobre a condição feminina, expressa já no sucesso Elena (2012).

 

E a pergunta até agora da Mostra é: será que todo mundo que bateu em Meu Amigo Hindu socou o filme ou agrediu a postura aguerrida e desafiadora de seu realizador, Hector Babenco? A questão maior é: será que as imperfeições apontadas em dois dias de distanciamento após a sessão do longa na abertura do evento não indicaram mais uma necessidade de (auto)transgressão do que um equívoco. Enfim… que a cena de Willem Dafoe jogando xadrez com Selton Mello num eco bergmaniano da finitude não saia das retinas tão cedo. Eu não me recuperei do filme ainda. Estreia em fevereiro.