‘Dois Caras Legais’ revive o molejo da década de 1970

‘Dois Caras Legais’ revive o molejo da década de 1970

Rodrigo Fonseca

19 Julho 2016 | 10h21

“Dois Caras Legais” revive a estética policial dos anos 1970 fundindo ação e humor

RODRIGO FONSECA

América, anos 1970: em paralelo à jornada estética e ética da chamada Easy Rider Generation, houve uma profusão de filmes B, no limite entre a ação e a sensualidade, que oxigenaram a cartilha do policial a partir de um rastreio de (sub)mundinhos sem lei e sem honra, com heróis malandros e bandidos chinfrins. É a chamada exploitation, mais conhecida por sua safra de filmes de militância black, com astros negros de muito talento ocupando papéis antes restritos aos wasps – tipo Shaft, Foxy Brown, Cleópatra Jones -, mas estendido ainda a vigilantes caratecas ou até a vigilantes brancos fora dos padrões habituais de galã. Entre os exemplos tipo varejão – mais pipoca – podem ser citados Corrida Contra o Destino (1971) e Assassino a Preço Fixo (1972), enquanto, numa esfera mais sofisticada, destacam-se joias como Um Lance no Escuro, de Arthur Penn, e Operação Yakuza (1974), de Sydney Pollack. Toda vibração iconoclasta destes longas renasce nas telas em Dois Caras Legais (Two Nice Guys), que estreia aqui nesta quinta-feira, credenciado por quilos de elogios conquistados em sua passagem hors-concours pelo Festival de Cannes.

Shane Black (de boné) nos sets

Shane Black (de boné) no set com Ryan e Crowe

À força das peripécias de um Ryan Gosling com ares de Renato Aragão e de um Russell Crowe metido a palhaço, Dois Caras Legais é uma chanchada policial de ritmo contagiante, que não deixa nem o riso nem a adrenalina se perderem a cada sequência, sob a direção cirúrgica de Shane Black. Seu nome um dia foi sinônimo de “bom roteiro” nos EUA, quando despontou ainda jovem, com o cult pop Máquina Mortífera, em 1987. Com um enredo de investigação ambientado os EUA dos anos 1970, revivido numa sofisticada direção de arte, esta produção de US$ 50 milhões tem como premissa a busca por uma jovem mocinha que desapareceu e de uma atriz pornô que foi encontrada morta. Ambas tinham conexão com um filme X-Rated (inadequado para menores) que pode revelar podres de muita gente importante na cidade. Eis que um detetive particular, Holland March (Gosling, hilariante), e um jagunço de aluguel que quebra narizes por dinheiro, Jackson Healy (Crowe), vão unir forças para desvendar o caso. A partir desse mote, o longa promove uma homenagem eletrizante ao cinema de ação dos anos 1970 (e também os dos anos 80), com ritmo frenético e ginga.

Cannes recebeu Dois Caras Legais calorosamente, numa projeção mergulhada em gargalhadas do começo ao fim, com direito a aplausos a Gosling durante a projeção. Esse sucesso serviu para repaginar o lugar de Shane no panteão dos realizadores de filões de gênero. Sempre acompanhado de um cigarro eletrônico, para sublimar em vapor a tensão de alternar a pena de escritor com a câmera de diretor, ele pagou caro o preço de ter sido o roteirista mais bem pago de Hollywood nos anos 1980 e início de 1990, mas vem dando o troco filmando (e ainda escrevendo) o que bem quer. Beijos e Tiros, de 2005, já mostrara sua potência no comando de um set. Mas galgou mais e melhores patamares depois do fenômeno de bilheteria Homem de Ferro 3, que dirigiu em 2013, cujo faturamento beirou US$ 1,2 bilhão mundo afora. O êxito desta aventura Marvel revelou seu calibre no manuseio de filmes com fôlego de espetáculo. E é isso o que temos nesta saborosa dobradinha entre Gosling e Crowe.