‘#dogpoopgirl’ incendeia o Festival de Moscou

‘#dogpoopgirl’ incendeia o Festival de Moscou

Rodrigo Fonseca

25 de abril de 2021 | 10h15

Uma confusão no vagão de um trem torna a vida de uma bancária um inferno na comédia “#dogpoopgirl”, um dos ramos mais vívidos da Primavera Romena

RODRIGO FONSECA
Centrado na praga do linchamento virtual, ao narrar o drama de uma bancária cuja vida é devassada nas redes sociais, a comédia sombria “#dogpoopgirl”, vinda de Bucareste, torna-se o primeiro fenômeno estético (e ético) da 43. edição do Festival de Moscou, que segue até dia 29 na Rússia, regando a polêmicas o solo da Primavera Romena. Há uma torcida para que o troféu eslavo, chamado São Jorge de Ouro, vá parar nas mãos do cineasta romeno Andrei Hutuleac. Tudo vai depender do apreço do júri presidido pelo filipino Brillante Mendoza, diretor de cults como “Serbis” (2008) e “Execução” (2009). Mas a Romênia anda em alta, com chance de sair da festa anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, esta noite, com dois Oscars para a não ficção “Colectiv”: os de melhor filme internacional e de melhor documentário de longa metragem. E o país de Hutuleac ainda conquistou o Urso de Ouro, em março, por “Bad Luck Banging or Loony Porn”, de Radu Jude.
“Não saberia fazer uma genealogia da Romênia nas telas, pois não sou crítico de cinema e, tampouco, um historiador, mas sei que as verbas por lá, para o audiovisual, não são grandes, em especial para quem é um realizador de primeira obra, como eu”, disse Hutuleac ao P de Pop, via Zoom, de Moscou.
Lá, há 14 longas no páreo do São Jorge dourado, entre eles “The Son”, da iraniana Noushin Meraji, e “Him”, da sueca Guto Bruusgaard. Para abrir a programação, o diretor do evento, o cineasta Nikita Mikhalkov, escalou um thriller de guerra com a grife pop de Timur Bekmambetov (de “Procurado”): “Devyataev”, que vai correr o mundo com o título “V2. Escape From Hell”. Mas o irônico (e hilário) longa de Hutuleac periga ser a mais chamativa atração do evento, fazendo jus à linhagem de invenção de sua pátria, a Primavera Romena. Criada em 2007, a expressão se refere a uma modalidade de realismo social, típica da terra de Hutuleac, expressa na forma de investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. Em 2005, “A Morte do Sr. Lazarescu”, de Cristi Puiu, hoje na Netflix, surpreendeu plateias com sua mirada original para os colapsos administrativos de um povo. Seu procedimento básico – assim como o dos filmes seguintes de seus conterrâneos – pressupõe o uso de uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência política (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos, como se viu em “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu, dono da Palma de Ouro de 2017. Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como “Além das montanhas”, que deu a Mungiu o prêmio de melhor roteiro em Cannes em 2012; “California Dreamin’ Nesfarsit” (2007), de Cristian Nemescu; “Instinto Materno” (Urso de Ouro de 2013), de Cãlin Peter Netzer; “O Tesouro” (2015), de Corneliu Porumboiu; e o monumental “Malmkrog” (2020), do já citado Cristi Puiu, presente na MUBI. E, até hoje, essa linhagem gera frutos sofisticados, como demonstra Hutuleac.
“Eu parti do medo… do sentimento de temor em relação ao descontrole que se passa hoje na internet com pessoas exigindo para si o direito de fazer justiça”, diz Hutuleac, antes conhecido por curtas como “Offstage”, de 2017. “A difamação pública virou um caso corriqueiro. Não quero dizer que as pessoas são vítimas, são inocentes ou culpadas. Até porque, quem tem que decidir isso é a Justiça. A questão é como o excesso de informação tornou a vida alheia passível de devassa”.

No longa, a funcionária de um banco conhecido por administrar o dinheiro de seus correntistas sem muito tato é flagrada por câmeras de celular ao se recusar a limpar o vômito de seu cão do vagão de um metrô. O tal cachorro tinha acabado de ser adotado e, muito nervoso, vomitou. Quem filmou esse incidente alegou que a dona do pet não quis limpar as “fezes” do bichinho, distorcendo os fatos até gerar uma onda de violência. “Esse é um fenômeno que vem da nossa ansiedade e que traduz a falta de maturidade da internet”, diz Hutuleac. “Eu parti de um caso real que houve em Seoul, em 2005, quando uma jovem coreana passou pela mesma situação. Ela teve que ameaçar se matar para que a perseguição que sofria parasse. É esse descontrole que eu quero debater com o filme”.
Até quinta, o Festival de Moscou acolhe uma maratona de cineastas do mundo todo buscando novas formas de representar as agruras e os prazeres do mundo.

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