Documentário brasileiro é + Na Real_Virtual

Documentário brasileiro é + Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

12 de julho de 2020 | 11h33

Montagem especial para o P de Pop com os curadores do Na Real-Virtual: o cineasta Bebeto Abrantes e o crítico e escritor Carlos Alberto Mattos: Para mais informações sobre os diretores e os filmes, programação detalhada e inscrições, acesse: https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020

Rodrigo Fonseca
Nas veredas da ficção, o cinema mundial atravessa penosamente este 2020 de pandemia com poucas vitórias de timbre social – como a vitória da joia iraniana “There Is No Evil” na disputa pelo Urso de Ouro de Berlim -, um único blockbuster com B maiúsculo – “Bad Boys Para Sempre” – e muita espera pelo novo experimento autoral de Christopher Nolan: “Tenet”. Na seara documental, entretanto, os maiores festivais do setor conseguiram se reinventar online, como é o caso do Visions du Réel. Este mobilizou a web numa homenagem à diretora francesa Claire Denis (“Minha Terra África”). Já o DocLisboa promete brilhar no fim do ano, engatilhando um tributo ao cinema da Geórgia, de 22 de Outubro a 1 de Novembro, na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. Por aqui, o É Tudo Verdade realizou, via www.spcineplay.com.br, uma mostra de dez cults de mulheres documentaristas – um dos eventos mais relevantes do primeiro semestre para a cinefilia nacional. Este mês, as múltiplas estéticas de apreensão, representação e invenção da realidade ganha um reforço a mais – e de peso – com o obrigatório seminário Na Real_Virtual. Organizado sob a curadoria (e a mediação) do crítico Carlos Alberto Mattos e do cineasta Bebeto Abrantes, o simpósio, produzido por Marcio Blanco, vai ocorrer online, de 20 de julho a 14 de agosto, às segundas, quartas e sextas. Participarão os documentaristas Belisario Franca, Cao Guimarães, Carlos Nader, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, João Moreira Salles, Joel Pizzini, Marcelo Gomes, Maria Augusta Ramos, Petra Costa, Rodrigo Siqueira e Walter Carvalho. Para conhecer a joia teórica o que Mattos e Bebeto lapidaram, basta acessar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020.
O cardápio contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 20/7 – Observar o mundo – Maria Augusta Ramos. Filme: Seca
Dia 22/7 – A imagem questionada – João Moreira Salles. Filme: No Intenso Agora
Dia 24/7 – A poética do simples – Cao Guimarães. Filme: A Alma do Osso
Dia 27/7 – O tempo como matéria – Carlos Nader. Filme: Homem Comum
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

Cena de “Seca”, da diretora Maria Augusta Ramos

Em 2019, Mattos encabeçou a Ocupação Eduardo Coutinho, em SP, e lançou um livro seminal sobre estratégias de documentar, dedicado à obra e à vida do realizador de “Edifício Master” (2002). Sua pesquisa sobre Coutinho é primorosa e seu texto, uma aula de concisão e de argumentação, sem esturricar palavras nem se besuntar em advérbios. Já Bebeto – atualmente envolvido no projeto documental “Me Cuidem-se”, com Cavi Borges – tem no currículo poemas em forma de filme como “Caminho do Mar” (2018). Os dois conversaram com o P de Pop sobre o Na Real-Virtual e sobre a cartografia das narrativas documentais no Brasil e no mundo.

Que imagem de Brasil esses 12 filmes selecionados apresentam… ou criam? Que Brasil ainda está fora de quadro em nosso documentário? E o quanto o quadro hoje existente nas telas modifica a nossa realidade?
Bebeto Abrantes:
Esses 12 filmes apresentam e (re)criam a imagem da diversidade, da complexidade e da desigualdade histórica de nossa formação social. Um filme como SECA, de Maria Augusta Ramos, reinterpreta o secular problema nordestino da falta de acesso à água. MENINO 23, de Belisario Franca, revela um dos infindáveis episódios de apagamento, ou esquecimento histórico, tão característicos e reveladores da perversa condição Brasil. Ao mesmo tempo, o conjunto de filmes do seminário nos informa sobre as enormes potencialidades do Brasil e sua gente. É o que nos traz IRAN, de Walter Carvalho, diretor dedicado a destacar perfis de grandes artistas, como o ator Irandhir Santos. Ou mesmo A ALMA DO OSSO, de Cao Guimarães, e HOMEM COMUM, de Carlos Nader, que revelam a grandeza e o encantamento de pessoas comuns, cidadãos com uma trajetória de vida simples mas marcante. Muitos Brasis ainda estão fora de quadro. Quando entramos e observamos a vida para além de nossa condição, para além de nossa bolha sociocultural, surpreendemo-nos com a riqueza de modos de vida existentes. O grande lance é acreditarmos e nos interessarmos pelos OUTROS, pelos nossos fora-de-quadros. Esse talvez seja o grande mérito do filme FAVELA É MODA, de Emílio Domingos e de sua trilogia voltada para a vida nas comunidades periféricas cariocas. Ou mesmo, o filme-ensaio 500 ALMAS, de Joel Pizzini, sobre a história e a cultura dos Guató, etnia que vive na região do Pantanal, no Mato Grosso do Sul. Parodiando Paulo Freire: o cinema não modifica a realidade, o cinema modifica as pessoas, e estas, sim, modificam a realidade. Sim, esses 12 filmes do documentário contemporâneo brasileiro, junto com outros tantos produzidos ao longo dos últimos 20 anos, têm enriquecido e modificado muita gente, difundido novos valores e novas percepções de nossa história. Em consequência, têm ajudado a se pensar e construir um Brasil melhor e mais crítico. Esse inclusive é um dos motivos pelos quais o cinema brasileiro, o nosso audiovisual, tem sido atacado e desmontado de forma virulenta por esse (des)governo. Mas não conseguirão. Experiências históricas anteriores e nossa vontade inquebrantável de continuar fazendo, como o próprio NA REAL_VIRTUAL, comprovam nossa afirmação.

Maria Augusta Ramos é uma cineasta de prestígio mundial, tendo sido premiada na Berlinale, em 2018, com “O Processo”. O que “Seca” aponta em sua obra?
Carlos Alberto Mattos:
Maria Augusta tem aplicado o seu método do cinema observacional a diferentes tipos de realidade. Se em BRASÍLIA – UM DIA EM FEVEREIRO, seu primeiro filme, ela revelou com sutileza a dinâmica das classes sociais no cotidiano da capital do país, em JUSTIÇA e JUÍZO descortinou o aspecto teatral da Justiça em seus recintos formais. Já em O PROCESSO, a diretora flagrou uma ação definidora para os destinos do país, assim concretizando o ideal do cinema direto, que é acompanhar o desenrolar de uma crise em tempo real e sem intervenções. SECA leva esse procedimento a um cenário muito distinto do que se via nos filmes anteriores da cineasta. Esse road-doc comprova a versatilidade do cinema de observação, adequando-se ao ritmo da vida no sertão. No entanto, Maria Augusta segue fiel ao seu estilo, marcado pelo rigor formal, a câmera quase sempre fixa, o enquadramento preciso e a exploração inteligente dos espaços filmados.
Que gêneros e subgêneros do documentário passam pelo seminário e que filões o Brasil hoje mais persegue nas telas?
Bebeto Abrantes:
Essa primeira edição do NA REAL_VIRTUAL – fazemos votos que a próxima seja presencial – apresentam apenas algumas das estratégias de abordagem e construção do real do documentário contemporâneo brasileiro. Observar o mundo, esse é o lema que Maria Augusta Ramos tem seguido em seus filmes. Trata-se de uma das poucas diretoras e diretores que seguem os princípios do Cinema Direto em nosso país. Já Petra Costa, com seu belíssimo ELENA, nos traz a subjetividade individual e familiar para as telas. Seu filme representa bem essa faixa do documentário brasileiro, na qual o EU filmado é matéria prima para o filme documental. Nem sempre foi assim. Se olharmos, por exemplo, a produção do Cinema Novo, constataremos que seu foco eram as classes e grupos socials. Aos poucos, o interesse dos cineastas pelas individualidades foi crescendo. Hoje, mais do que isso, as subjetividades dos próprios diretores ganharam status de tema para filmes. Enfim, NA REAL_VIRTUAL levanta e debate um amplo painel de gêneros e estilos da produção documental brasileira. Persegue-se antes de tudo a diversidade de olhar e estratégias de apreensão do real.
Carlos Alberto Mattos: A riqueza do documentário brasileiro nos últimos 25 anos tem sido um dos orgulhos do nosso cinema. As formas de abordagem, os dispositivos e as estratégias se diversificaram, especialmente na década de 2000, que considero a primavera do documentário entre nós. Hoje as correntes mais interessantes são aquelas que herdaram vínculos com a videoarte, o experimentalismo, o filme-ensaio e o diálogo com a ficção. Nesse sentido, vale destacar a presença no seminário de realizadores como Cao Guimarães, um artista visual múltiplo que traz para o documentário uma “poética do simples”, burilada na sua videoarte; João Moreira Salles e Joel Pizzini, ensaístas sofisticados sempre em busca de novos formatos; Rodrigo Siqueira, que vem experimentando diferentes interfaces entre documentário e ficção; ou ainda Marcelo Gomes, que, junto com Karim Aïnouz, acoplou os dois registros de forma tão inusitada em VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO.

Filmes de prestígio como o mineiro “Arábia” deixam visível o contágio do real em nossa ficção. Mas o quanto de ficção contagia os filmes dessa seleção e onde a fábula suplanta o fato?
Carlos Alberto Mattos:
Existe um pouco de ficção em todo documentário a partir do momento em que este também é uma construção dramatúrgica, só que a partir desse difuso material a que chamamos de realidade. Na programação do seminário temos, por exemplo, HOMEM COMUM, de Carlos Nader, que é uma meditação sobre o tempo e o próprio estatuto do documentário, acrescido de uma camada ficcional que dialoga com Carl Dreyer. VIAJO POR QUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO é um típico caso em que acontece a superação do fato pela fábula, na medida em que as imagens feitas anteriormente para um documentário são ressignificadas no âmbito de uma história romântica e subjetiva inventada pelos diretores. Por sua vez, ORESTES, de Rodrigo Siqueira, funde os registros da ficção, do psicodrama e do documentário numa obra que explora o melhor de cada registro. Esse trânsito entre o real e o imaginado é um tesouro do documentário contemporâneo, e o Brasil tem sido fértil em desenterrá-lo.

p.s.: Falando em cinema brasileiro, nesta madrugada, à 1h50, a TV Globo exibe “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca, com Murilo Benício no papel de Maiquel, sujeito de sorte rala que vê sua vida mudar ao matar um desafeto de seu bairro, tornando-se um dos mais temidos assassinos da Baixada Fluminense. O longa foi premiado no Festival de San Sebastián, em 2003. Rubem Fonseca escreveu seu roteiro a quatro mãos com Patrícia Melo, cujo romance “O Matador” inspirou a narrativa. Breno Silveira assina a fotografia.

p.s. 2: Às 16h deste domingão, rola cinema nacional também na TV Brasil, com sessão de “Billi Pig” (2012), de José Eduardo Belmonte, no qual Grazi Massafera afirma seu talento cômico no papel da aspirante a atriz Marialva.

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