Documentário além do rótulo e do obtuso

Documentário além do rótulo e do obtuso

Rodrigo Fonseca

22 de novembro de 2020 | 10h47

Rodrigo Fonseca
Sob o impacto de “American Utopia”, filme mais recente de Spike Lee, em projeção online no festival luso Porto / Post / Doc, baseado no show homônimo de David Byrne na Broadway, o P de Pop do Estadão embarca numa reflexão taxonômica – e existencial – sobre o papel simbólico do documentário nas narrativas, envolvendo também o Varilux, a maratona de cinema francês. Há um único .doc no festival organizado por Emmanuelle Christian Boudier: “O capital no século XXI” (“Le capital au XXIe siècle”), no qual os diretores Justin Pemberton e Thomas Piketty contrapõem a riqueza e o poder de um lado e, do outro, o progresso social e as desigualdades. Nele, vemos uma estrutura investigativa, de pesquisa e auscultação. Já o filmaço de Lee é uma narrativa de observação que responde aos estímulos performáticos de um espetáculo musical. São vertentes distintos de um modelo narrativo que, muitas vezes, é classificado como gênero. Essa é uma classificação obtusa que o seminário Na Real_Virtual – realizado online, às segundas, quartas e sextas, sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos – vem tentando driblar. Nesta segunda, eles vão estudar o que já (se) encena ser um filão (em si) no planisfério da não ficção: o documentário de gênero, sendo a palavra usada aqui em referência a identidades sexuais. Claudia Priscilla e Kiko Goifman estarão no foco da conversa, falando com Abrantes e Mattos sobre a experiência do premiadíssimo “Bixa Travesty” (2018) no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.
“Tratar documentário como mais um gênero cinematográfico é coisa de prateleira de antiga locadora”, explica Mattos, um dos decanos da crítica brasileiro, autor do seminal livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho”. “O doc é uma modalidade de cinema ditada por sua relação com o real. A ficção, o experimental, o filme-ensaio e a animação são outras modalidades. Dentro do doc cabem diversos gêneros. ‘Cabra Marcado para Morrer’, por exemplo, é um drama político. ‘A Música Segundo Tom Jobim’ é um musical. ‘A Marcha dos Pinguins’ é uma aventura. O espanhol ‘Muitos Filhos, um Macaco e um Castelo’ é uma comédia irresistível. Os gêneros são normalmente associados a um determinado grupo de ingredientes usados na composição dos filmes e ao tipo de emoção causado nos espectadores (hilaridade, adrenalina, medo, compaixão, etc). Mas tudo isso pode estar presente tanto na ficção quanto no documentário”.
Vai ter Na Real_Virtual até 2 de dezembro. Os próximos papos, fora o encontro com Claudia e Kiko, serão com com Adirley Queirós, Evaldo Mocarzel, Sandra Werneck e Walter Salles. Esta tarde, às 17h25, o Canal Brasil exibe um longa obrigatória de uma das convidadas do evento: Susanna Lira leva à TV o elétrico “Mussum – Um Filme do Cacildis” (2018), uma biopic documental centrada na memória do genial trapalhão.

p.s.: No papel de Nilton, pai do jovem João Pedro, Silvio Guindane deu ao especial “Falas Negras” momentos de finíssima comoção.

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