DocLisboa põe os naipes do Real à mesa

DocLisboa põe os naipes do Real à mesa

Rodrigo Fonseca

17 de outubro de 2019 | 17h14


Rodrigo Fonseca
Estamos em tempos de Mostra de SP no Brasil (esta noite, às 22h10, será exibido “O projecionista”, no Espaço Itaú) e em dias de DocLisboa em Portugal – o maior festival da terrinha em relação ao Real. A maratona documental portuguesa começa nesta quinta-feira e vai até o dia 27 com 303 produções de 48 países. Tem Brasil na competição internacional – “Um Filme de Verão”, de Jo Serfaty – e tem uma seleção em solidariedade ao cinema brasileiro (com Eduardo Coutinho como cereja do bolo) diante das atuais crises políticas do nosso audiovisual. De Cannes, o evento lisboeta, organizado sob a direção de Cintia Gil, trouxe de Cannes o aclamado “Être Vivant et Le Savoir”, de Alain Cavalier, que abre uma delicada reflexão sobre dispositivos de representação. Da França, vem ainda “Ne croyez surtout pas que je hurle”, de Frank Beauvais. Nas seções com a prata de casa, ou seja, o melhor azeite do realismo português, Cintia incluiu uma pérola de José Filipe Costa, vindo de Locarno: “Prazer, Camaradas”. O filme é um misto de .doc, ficção, poesia e lamento pelas feridas que a Revolução dos Cravos nos fez ver, em 1975. José Filipe fez uma radiografia, em forma de jogral, sobre a mítica data de 25 de Abril, dando voz aos estrangeiros que chegaram à Península Ibérica após a agitação revolucionária, a fim de participarem da convulsão política daquela pátria. Mas o machismo, a submissão e múltiplas modalidades de moralismo atrapalharam essa turma de outras terras.

Na entrevista a seguir, a diretora do DocLisboa avalia as pepitas de seu garimpo.
Qual é a utopia possível de país ou de Europa que se desenha hoje no cinema documental português? O que os documentaristas locais em seleção no evento pleiteiam em forma de imagem?
Cintia Gil:
Não sei se poderá falar de utopias dessa forma, tão generalizada… de formas muito diferentes, os filmes portugueses que mostramos sonham, de facto, o mundo, mas cada um à sua maneira. São filmes íntimos – não porque contem histórias íntimas mas porque são construídos a partir de uma intimidade (poética) com o real, com o mundo. São filmes que interpelam o mundo sem o fechar. Filmes livres, nesse sentido. O cinema livre, como é o caso, é um cinema em que cada obra é singular e não pode ser encaixada em generalizações, é um cinema inquieto.
Que estéticas e que assuntos mais saltam aos olhos na seleção estrangeira?
Cintia Gil:
A Competição Internacional é povoada por filmes que nunca são apenas o que aparentam ser: são filmes-experimento, e portanto extremamente generosos no modo como convidam o espectador a entrar. As temáticas são muito variadas, mas o mais fundamental é o modo como elas são apresentadas através de estratégias formais e poéticas muito diversas. Esta competição traz filmes de vários países, da Tailândia à Argentina, do Brasil aos EUA, da França à Catalunha ou à Coreia do Sul, devolvendo-nos um mapa rico e surpreendente do mundo contemporâneo.

O que significa, no atual momento histórico de conflito nas artes brasileiras, ter Eduardo Coutinho (1933-2014), o papa do documentário do Brasil, em destaque no festival?
Cintia Gil:
O programa de homenagem a Eduardo Coutinho foi exactamente construído, no contexto maior de um programa transversal de cinema brasileiro, em resposta ao actual momento político do Brasil – em particular ao ataque ao cinema, às artes, à cultura, à liberdade artística. O Doclisboa é um festival atento e solidário, e temos acompanhado com muita estupefacção notícias de censura, cortes brutais à Ancine… A notícia de um ciclo de cinema militar, as rusgas a escolas, as notícias sobre os ataques às pessoas mais pobres, às comunidades indígenas, às pessoas negras, tudo isto vem na linha de uma caminhada trágica para tempos muito sombrios. Foram estas as razões para programarmos estes filmes, como o filme atravessado pela ditadura “Cabra Marcado Para Morrer”, marco fundamental na história do cinema, mas também outros, como Retratos de Identificação, de Anita Leandro, “Chão”, de Camila Freitas, “Chico: Artista Brasileiro”, de Miguel Faria Jr, ou “O Último Sonho”, de Alberto Álvares. Além de outros, como o de Jo Serfaty, “Um Filme de Verão”, na Competição Internacional. Quisemos dizer ao governo brasileiro que Eduardo Coutinho morreu mas os seus filmes perduram para sempre, livres. Quisemos dizer aos artistas brasileiros, aos cineastas, que o Doclisboa é um espaço seguro, que têm amigos deste lado do oceano, e que o cinema brasileiro livre será sempre celebrado por nós. Quisemos dizer que o povo brasileiro está no coração do Doclisboa – aliás, no coração dos cineastas portugueses, basta ver o belíssimo filme de Teresa Villaverde, “Mangueira”, e a forma como, emocionada, filmou os cânticos apaixonados debaixo da chuva: “Na luta é que a gente se encontra.”
O que um cineasta do naipe de Alain Cavalier traz para o DocLisboa de inquietação?
Cintia Gil
: Alain Cavalier é e foi sempre um cineasta da intimidade, que construiu elos indissociáveis entre o plano íntimo e o político, fazendo um cinema do detalhe, da palavra e do gesto. O Doclisboa apresentou a sua retrospectiva integral em 2013 e, desde aí, acompanhou sempre os seus novos filmes. Este filme que Alain Cavalier vem apresentar, estreado este ano em Cannes, é um comovente filme de amizade, partilha, com a sua amiga a romancista Emmanuèle Bernheim. A perda e a morte, o amor e a amizade, filmados por Alain Cavalier atingem uma dignidade, uma leveza e uma força testemunhal raras.

p.s.: Falando sobre Eduardo Coutinho, vale lembrar que o Itaú Cultural, em SP, promove uma ocupação em tributo ao diretor até 24 de novembro, sobre o auspícios do crítico Carlos Alberto Mattos.

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