DocLisboa checa sintomas da pandemia no Real

DocLisboa checa sintomas da pandemia no Real

Rodrigo Fonseca

24 de outubro de 2021 | 14h41

“O Bom Cinema”, de Eugenio Puppo, passa em revista o legado dos diretores da estética marginal

RODRIGO FONSECA
Transbordando Brasil em suas múltiplas telas lusitanas (o Cine São Jorge, o Cine Ideal, a Cinemateca Portuguesa), o DocLisboa, uma das mais prestigiadas vitrines documentais do planeta, investe na estética de Rogério Sganzerla, Carlão Reichenbach e outros gigantes em “O Bom Cinema”, uma pérola de Eugênio Puppo, com sessão nesta quarta, no Cultugest. Tem ainda o potente “Tentehar – Arquitetura do Sensível”, de Paloma Rocha e Luís Abramo, que passa em revista a ressaca das eleições presidenciais brasileiras de 2018, com projeção no dia 29 na telona do Ideal. Na entrevista a seguir, a direção do evento português, representada a uma só voz pelo trio Joana Sousa, Joana Gusmão e Miguel Ribeiro, conversa com o P de Pop do Estadão sobre o recorte que preparam a partir de uma imersão nos atuais sintomas do real, que já constipam a não ficção.

“Tentehar – Arquitetura do Sensível”, de Paloma Rocha e Luís Abramo

De que maneira a pandemia já se reflete nas temáticas e nos modos de narrativa do cinema documental? De que maneira os processos de isolamento do mundo pandêmico transbordam nas temáticas dos filmes?
A pandemia atravessou o cinema de diversas formas, seja através da recalendarização ou no cancelamento de produções, seja pela exposição que fez das condições frágeis em que os profissionais da cultura trabalham. Num grande número de países, Portugal incluído, realizadores e restantes equipas trabalham em contextos de uma grande precariedade. É nesse sentido, mais do que tematicamente, que sentimos que a pandemia se refletiu nos filmes que chegaram até nós porque sabemos que muitos deles foram feitos com grande esforço durante este período. Claro que a pandemia influenciou também certas narrativas, tendo uma presença mais central ou periférica, mas as realidades são múltiplas e as experiências vividas durante esse período também.
De que maneira a seleção de 2021 do Doclisboa traduz todo o impacto que a cultura dos streamings causou nas maneiras de se lidar com a imagem? Digo… De que forma um festival que promove uma singular triagem de estéticas do real lida com uma mudança comportamental em que as plataformas digitais se tornam a vitrine primeira – para muitos – de acesso a filmes?
Quando se pensa nesta questão, é importante também reflectir sobre que tipo de plataformas de streaming estamos a falar, porque existem várias com objectivos e programação bastante díspares, desde grandes plataformas com enormes catálogos até plataformas menores e mais especializadas. De qualquer maneira, seja qualquer tipo de plataforma, acreditamos que elas habitam um lugar diferente dos festivais na experiência do cinema. Estes quase dois anos de pandemia, em que aconteceram diversas experimentações entre a exibição online e em sala, vieram reafirmar essa nossa ideia pois existem definitivamente oportunidades diferentes em ambos os modos de distribuir e ver cinema. Um festival é e continuará a ser um espaço onde um filme não se reduz ao ecrã, onde ele se expande nas partilhas que acontecem antes, durante e depois de cada sessão. E o online é e continuará a ser uma plataforma de acesso mais rápido a um maior número de filmes. Não vemos nenhuma razão para que ambos não possam existir em simultâneo e, inclusive, completarem-se um ao outro. O Doclisboa faz parte da rede internacional de festivais Doc Alliance que, entre outros projectos, construiu um portal de distribuição online de cinema de não-ficção. Plataforma na qual o Doclisboa programa todos os anos uma diversidade de ciclos, dando uma oportunidade aos filmes para serem vistos para além do contexto temporal e local do festival.

De que maneira a questão da memória, tão recorrente nas narrativas documentais, pode ser identificada na seleção deste ano?
A memória que existe na programação desta edição do Doclisboa é, acima de tudo, uma memória em questionamento. A procura de novos testemunhos para colmatar falhas nos relatos oficiais, como em “Constelações do Equador”, de Silas Tiny; a transferência de experiências vividas de um movimento migratório para outro em “Nous sommes vênus”, de José Vieira; os acontecimentos esquecidos e recordados da história de um país como em “Danse Macabre”, de Thunska Pansittivorakul e Phassarawin Kulsomboon. Há confronto entre memórias pessoais e os grandes acontecimentos em “Gorbachev. Heaven”, de Vitaly Mansky, ou os exercícios de biografia sobre Jane Birkin, Lucio Dalla, Lydia Lunch ou Alvin Ailey. E há também a reflexão sobre a recriação, apropriação e reorganização de arquivos, propondo novas perspectivas sobre passado, presente e futuro, a partir de filmes de Vika Kirchenbauer, Matthias De Groof, João Vieira Torres ou Kevin Jerome Everson e Claudrena N. Harold, entre outros. Pensamos também a memória em relação ao fim de uma vida, com os filmes de Boris Lehman ou Antoni Collot. E, gesto maior na reconstrução da memória através da exibição de um filme, é a sessão que vamos apresentar de um filme ainda proibido – por lei – de ser exibido em Espanha: “Rocío”, de Fernando Ruiz Vergara. A memória pode ser questionada de muitas formas.

p.s.: Nesta segunda-feira tem “Ato”, Barbara Paz, na 45ª Mostra de Cinema São Paulo, com sessão às 20h40, no Cine Marquise – Sala Globoplay 1. Depois de seu recente documentário sobre Hector Babenco (1946-2016), Bárbara esbanja maturidade no posto de realizadora, numa condução firme (e elegante), à frente de um ensaio sobre o luto. Ensaio esse que tem Alessandra Maestrini em estado de graça no papel de uma cantora em ritual performático. Sua personagem acode (e acalanta) um homem (Eduardo Moreira) avassalado pela perda. A fotografia de Azul Serra decanta um chiaroscuro que traduz a incerteza entre aquilo que é metafísico (a passagem para o Além) e o que é terreno. Maestrini gravita em excessos (de risos, de canto, de ruídos) com a leveza de uma pluma, firmando-se como uma das atrizes de maior domínio do assombro humano em nosso rol de estrelas inquietas. É um curta que nos devasta, mas dá alento, apoiando-se na placidez de Moreira e da edição de Renato Vallone. Que “Ato” voe.

p.s.2: Tem Jason Statham nesta “Tela Quente”: às 23h10, passa o Omega 3 fílmico “Megatubarão” (“Meg”), com Armando Tiraboschi dublando o ator inglês. A trama se passa na fossa mais profunda do Oceano Pacífico, onde a tripulação de um submarino fica presa dentro do local após ser atacada por uma criatura pré-histórica que se achava estar extinta. Trata-se de um tubarão de mais de 20 metros de comprimento, o Megalodon. Para salvá-los, oceanógrafo chinês contrata Jonas Taylor (Statham, num banho de carisma), um mergulhador especializado em resgates em água profundas que já encontrou com a criatura anteriormente.

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