DocLisboa atento ao ‘novo normal’ do mundo

DocLisboa atento ao ‘novo normal’ do mundo

Rodrigo Fonseca

01 de junho de 2020 | 10h13

“Terra de Ninguém”, da diretora portuguesa Salomé Lamas, hoje no MUBI, é um dos achados do DocLisboa, um dos maiores festivais de documentário no planeta

Rodrigo Fonseca
Garimpando streamings é possível encontrar joias documentais de variados quilates como é o caso da gema preciosa lançada agora pelo MUBI, “Terra de Ninguém”, da diretora portuguesa Salomé Lamas (sobre as memórias de um mercernário), que foi fartamente laureado em 2014, no DocLisboa, maratona das estéticas do Real, que se encontra agora em renovação. Há uma semana, seus três atuais curadores – Joana Gusmão, Joana Sousa e Miguel Ribeiro – anunciaram que a 18ª edição do festival vai alterar o formato clássico do evento, a fim de se adaptar a todas as exigências do chamado “novo normal” que nasce após a pandemia. A programação desta vez vai de outubro de 2020 a março de 2010, em diferentes plataformas digitais, mobilizando ainda salas de exibição, fomentando o regresso dos espectadores ao circuito. A primeira fase vai de 22 de outubro a 1º de novembro. Dali pra diante, o DL Vai apresentar atrações diversas durante uma semana por cada um dos cinco meses que se seguem, sempre apostando no debate. Na entrevista a seguir, a equipe curatorial (formada pelas duas Joanas e Miguel) explica, a uma só voz, ao P de Pop do Estadão as tendências que serão exploradas.

Muitos registros do Real foram realizados ao longo da 40ena. De que maneira esses registros já modificaram a estética documental? Já é possível falar de uma nova linhagem estética de filmes documentais resultante do Covid?
Qualquer grande acontecimento influencia a maneira como as pessoas criam. Esta pandemia tem características muito próprias que poderão alterar a maneira como se fará cinema, mas ainda é muito prematuro para perceber que consequências haverá e como é que essas se irão sentir.

Qual é a vocação estética… e mesmo política… de um evento como o DocLisboa nestes tempos de Covid-19? Qual seria a responsabilidade do festival nestes tempos?
Um festival de cinema não é só um espaço onde se exibem filmes, mas é também um lugar de encontro em torno deles, seja entre o público e os autores, ou entre profissionais do cinema. Para nós, é importante que o Doclisboa seja construído consciente dos tempos que vivemos, mas que continue a preservar os nossos valores fundamentais. Continuamos a sentir que é nossa responsabilidade apresentar uma programação engajada e relevante e providenciar um espaço aberto de discussão e partilha de conhecimento. O cinema é uma experiência colectiva e um festival é parte disso.

Joana Souza, Joana Gusmão e Miguel Ribeiro, os curadores do DocLisboa

De que maneira o festival pretende utilizar as plataformas digitais para disponibilizar seus conteúdos? Que medidas de segurança serão utilizadas nas salas em que as exibições vão ocorrer?
A programação desta edição do Doclisboa acontecerá majoritariamente em salas de cinema. Haverá alguns programas em retrospectiva que terão lugar em plataformas digitais parceiras, mas isso é algo que já estávamos a explorar nos anos anteriores. Dada a imprevisibilidade das permissões de viagem, todas as actividades de indústria do festival terão lugar em plataformas digitais. Embora seja importante para nós voltar assim que possível a um ambiente físico, queremos explorar este ano todas as possibilidades que estas ferramentas nos oferecem. Esperamos juntar profissionais do cinema de todo o mundo, mesmo aqueles que antes nunca tinham tido oportunidade de vir ao Doclisboa. As nossas salas parceiras vêem-se agora a braços com diversas medidas de restrição da ocupação e de distanciamento social. Por agora, trabalham com intervalos entre pessoas do público, reservas online ou por telefone da bilheteria caso não tenham espaços físicos para filas e com a limpeza entre sessões dos bancos e outros equipamentos. À data do festival, estarão implementadas todas as medidas que as autoridades sanitárias competentes julgarem necessárias.

Haverá alguma mostra de homenagem ou algum recorte temático específico?
Nesta edição do Doclisboa, sendo a programação mais distendida ao longo do tempo, iremos explorar as possibilidades que este formato nos dá para aprofundarmos propostas conceptuais em cada momento do festival. Em cada mês, haverá uma linha programática distinta que unirá as sessões abrindo caminhos e pondo questões. As exibições de filmes serão acompanhadas com debates e conversas alargadas, expandindo ainda mais as ideias propostas pelos filmes. No primeiro momento do festival, entre 22 de Outubro e 1 de Novembro, será apresentada na Cinemateca Portuguesa uma retrospectiva cuja programação será anunciada brevemente.

Já é possível avaliar o impacto econômico da pandemia nas finanças dos grandes festivais de cinema? O quanto a pandemia impactou nos procedimentos técnicos do DocLisboa?
O impacto desta situação num festival internacional sente-se em várias frentes: a nível da captação de apoios e parcerias, sejam elas públicas ou privadas; no acesso do público aos filmes apresentados e na interacção com uma comunidade internacional de profissionais do cinema que vão desde produtores, programadores, distribuidores a jornalistas. No caso específico de festivais como o Doclisboa, que acontecem não numa altura de confinamento directo (em Portugal, por agora, estão impostas medidas de desconfinamento progressivo) mas continuam a trabalhar com grande incerteza em relação ao futuro, têm de tomar medidas rápidas e eficientes para responderem às expectativas de um evento com determinado papel num ecossistema maior. Isto, ao mesmo tempo que têm de assegurar apoios e parcerias com entidades que vivem também uma crise e redefinem as suas prioridades. Festivais internacionais como o Doclisboa são peças desse ecossistema, sendo espaços não só de exibição de filmes mas também plataformas para o desenvolvimento de projectos, através da organização de laboratórios e na promoção do encontro de profissionais do cinema. Estas actividades são ainda possíveis de organizar através de ferramentas online, mas a espontaneidade dos encontros que um festival ou mercado físicos pode possibilitar não é possível de reproduzir num ambiente digital. A nível da participação do público, prevemos que poderá ainda demorar até as pessoas se sentirem seguras o suficiente para voltarem em pleno às salas de cinema, para além das restrições à ocupação que existem actualmente. E acima, de tudo, organizar um festival agora não é só pensar nesta edição. É pensar também nas próximas, porque um retorno à completa normalidade nos próximos anos não está de todo assegurado. Assim, trabalhamos para assegurar a sustentabilidade do festival a longo prazo, contando com realizadores, produtores e parceiros para a construção deste caminho.

p.s.: Nesta segunda, às 22h10, rola “Guardiões da Galáxia – Volume 2” na “Tela Quente” com uma estonteante participação de Sylvester Stallone como o mercenário Stakar, dublado por Luiz Feier.

p.s.2: De carona nas celebrações dos 90 anos de Clint Eastwood, comemoradas no domingo, o Globoplay promove uma retrospectiva do diretor e ator com “Perseguidor Implacável” (1971); “Os Imperdoáveis” (1992); “Cowboys do Asfalto” (2000); “Sobre Meninos e Lobos” (2003); e “Além da Vida” (2010).

p.s.3: Aos 72 anos, Billy Crystal volta à direção de longas-metragens este ano com “Here today”, comédia romântica na qual ele interpreta um comediante às voltas com a perda de sua lucidez. Mas um encontro inusitado com uma aspirante a cantora, vivida por Tiffany Haddish, vai preservar sua paz.

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