Doce entardecer no Mercado da Berlinale

Doce entardecer no Mercado da Berlinale

Rodrigo Fonseca

20 de fevereiro de 2020 | 13h02

Rodrigo Fonseca
Aberto nesta quinta com uma comovente declaração do presidente do júri do Urso de Ouro de 2020, o ator inglês Jeremy Irons, sobre a necessidade de se manter os olhos abertos para as “miríades”, ou seja, “filmes com coração”, o 70º Festival de Berlim começou na medida da doçura, de carona no gracioso “My Salinger Year”, de Philippe Falardeau, que cimentou o caminho não apenas para diferentes mostras, como para uma ala de mercado. Nela, uma produção que chegou da Polônia, também com DNA italiano nas veias, vem despertando atenções: “Dolce Fine Giornata” (“Doce Entardecer na Toscana”). Esse erotizado drama amoleceu miocárdios em sua passagem pelo Festival do Rio, há uns dois meses, e pinta agora no circuito europeu, buscando angariar espectadores. Daí o interesse do European Film Market (EFM) da Berlinale por ele.

Fumam-se opiácios dos mais diversos em “Dolce Fine Giornata”, o que se traduz numa aposta plástica em uma sensorialidade esfumaçada, de caleidoscópio, quase sempre saturada entre o amarelo e o marrom. Seus personagens, estrangeiros enfurnados na Itália – alguns estão lá de forma legal; a maioria, não -, apelam para narcóticos e para doses fartas de sexo e de lirismo a fim de entorpecerem o desalento que os cerca. Mesmo tendo uma vida financeira confortável, paga pela literatura, a poetiza Maria Linde (Krystyna Janda) trata a vida como se esta fosse sua devedora, no filme dirigido por Jacek Borcuch. Na Alemanha, o nome de Krystyna é sempre bem lembrado por seu desempenho em “Doce Perfume”, de Andrzej Wajda, lançado em 2009.

Revelado mundialmente há uma década com “Tudo o que eu amo” (2009), Borcuch mistura em “Doce Enterdecer…” cultura de sua nação com a da Itália num ensaio sobre insatisfações e ódios engasgados, fazendo de Linde uma heroína com olhos de cigana oblíqua. O papel deu a Krystyna o prêmio de melhor atriz na competição de Sundance, em janeiro. Tão poderoso quanto a atuação dela é o trabalho do fotógrafo Michal Dymek, em seu empenho para traduzir um clima de decadência familiar pelas lentes da desordem – e do pleno excesso.

Politicamente incorreta até a medula, Linde, uma aclamada autora de poemas, cujos pais, judeus, sofreram no Holocausto, solta sua voz na defesa dos refugiados africanos que tentam a sorte na Itália – atual lar dela. Seu maior conflito está na maneira como a nação onde vive trata com desdém os refugiados que chegam na região da Lampedusa. Um recente conflito em Roma acende a pólvora que ela mantém no peito, a fogo baixo, curando-se da desmesura nos braços de um amante egípcio algumas décadas mais moço do que ela. Com sua libido em alta, ela desrespeita leis e trata policiais com palavras irônicas e truncadas. A poesia é sua única lei. Mas ao renunciar a uma premiação importante, ela se condena a uma ciranda de polêmicas que respingam sobre seus parentes.

Com um domínio cirúrgico das ferramentas de atuação gestual, Krystyna ajuda a figura de Linde a ganhar vida, sem jamais resvalar no caricato. É um filme provocativo, que ataca com urgência o descaso institucional dos europeus com os povos que se abrigam em suas regiões mais turísticas ou em suas metrópoles mais endinheiradas, atrás de dignidade. É sobre essa palavra que Linde ergue sua guerra de ideias e de palavras bonitas. Essa mesma palavra é a bússola do documentário “Swimming Out Till The Sea Turns Blue”, de Jia Zhangke, incluído na Berlinale Special e exibido para a imprensa esta manhã. Trata-se de um mergulho de Jia num encontro literário em Shanxi. Acompanhamos uma investigação do realizador de “As Montanhas Se Separam” (2015) sobre os escritores de sua pátria, em sua relação com palavras e imagens, dividido em capítulos.
A Berlinale segue até o dia 1º. Nesta sexta, a cidade recebe Chris Pratt e Tom Holland, que encarnam Starlord e o Homem-Aranha, na Marvel. Eles virão para promover a animação da Disney/Pixar “Onward” (aqui “Dois irmãos: Uma Jornada Fantástica”).

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