Doc sobre Neville D’Almeida põe + Brasil na MUBI

Doc sobre Neville D’Almeida põe + Brasil na MUBI

Rodrigo Fonseca

08 de janeiro de 2022 | 11h05

Aos 80 anos, Neville D’Almeida prepara um projeto documental chamado “Bye Bye, Amazônia”

RODRIGO FONSECA
Aos 80 anos, Neville D’Almeida enfim levou sua voz autoral, inquieta, à streaminguesfera, num alcance internacional. É só clicar a URL www.mubi.com. A primeira imagem que aparece, em resposta ao clique, na plataforma multinacional, famosa por uma curadoria humanizada pautada por expressões da mais fina autoralidade, é a face do cineasta mineiro, que levou cerca de 6,5 milhões de pagantes às salas exibidoras com “A Dama do Lotação” (1978). Sua face gloriosa aparece no .doc “Neville d’Almeida: Cronista da Beleza e do Caos”, lançado originalmente em janeiro de 2018, em solo estrangeiro, no Festival de Roterdã, na Holanda, sob uma erupção de elogios dos europeus. Dirigido por Mario Abbade, o longa-metragem agora está na MUBI. Sua estreia por lá é uma vitória para o cinema brasileiro de invenção, por alcançar uma vitrine de respeito para suas experimentações mais inquietas e por atrair holofotes para um transgressor profissional. Neville é sinônimo de ruptura moral, de ousadia, em seus 55 anos de cinema. Em 2020, ele entrou na Amazon Prime, mas como ator, em uma participação na comédia “Os Espetaculares”. Mas, agora, é sua verve cineasta que eclode, em um estudo delicado sobre a condição desviante de um artista avesso a normas e castrações.
“Demorou muito pr’eu chegar nesse lugar, mas, enfim, a MUBI veio e abriu as portas pra mim e pro meu desejo de desafiar o moralismo dos fariseus”, diz Neville, exultante de alegria, ao P de Pop, contando que está correndo a pleno vapor pra levantar um novo projeto de longa. “Minha prioridade nº1 se chama ‘Bye Bye, Amazônia’, uma experiência investigativa de linguagem, de rastro documental, para denunciar a violência ecológica, as mortes de animais, o perigo que corremos. Tenho muitos projetos para filmar, mas esse avança pela necessidade de mostrar pro mundo um manifesto, investindo em sequências originais. O cinema brasileiro precisa falar da Amazônia. Eu quero abalar o planeta”.

Entusiasmo sempre foi um adjetivo essencial à alma do mineiro Neville Duarte de Almeida, até nos momentos em que a Censura fez dele um proscrito – vetando seus filmes off da Broadway do politicamente correto. Já em sua chegada ao formato longa, com “Jardins de Guerra”, que foi projetado na Quinzena de Cannes, em 1969, ele sentiu a guilhotina dos censores da ditadura. E segue sob patrulha até hoje. Numa entrevista na época de Roterdã, ele disse: “Os fariseus da caretice deram aos editais do cinema uma homilia que desabona os criadores”. Há cerca de cinco anos, ao lançar seu mais recente longa de ficção, o majestoso “A Frente Fria Que a Chuva Traz” (uma produção de 2015), Neville contou sua vida a Mario Abbade. Crítico de cinema, Abbade também é escritor e cineasta e foi laureado no Festival de Sitges (a maior maratona cinéfila do mundo quando o assunto são filmes de fantasia, horror e sci-fi) com o prêmio de melhor documentário, em 2020, por “Ivan, o TerrirVel”. Atrás de uma câmera ligada, ele conseguiu fazer Neville abrir seu coração… como nunca. O veterano diretor falou de filmes, dos ácidos que tomou, da amizade com Robert De Niro e das preces que faz desde menino, educado sob o credo protestante, frequentando cultos até hoje, sabendo versículos da Bíblia de cor e salteado. E falou, sobretudo, de toda a violência que sofreu ao ser censurado.
“Eu sempre atraí perseguições pela minha aposta na liberdade, em meu olhar para a imagem. Liberdade sem talento não passa de uma tola manifestação de insatisfação, um voo de galinha. Comigo, a liberdade é um voo de águia”, diz o cineasta, que arrebatou a Holanda quando ele e Abbade exibiram “Neville d’Almeida: Cronista da Beleza e do Caos” em Roterdã, levando para o evento um cinema brasileiro sem medo de polêmicas e sem medo de ser popular. “A MUBI é uma vitrine de suma importância pro cinema de autor, que vem crescendo e evoluindo. É uma alegria fazer parte dessa história, sobretudo agora que preciso mobilizar o cinema acerca da urgência de ‘Bye Bye, Amazônia’ como um gesto de reação, de denúncia. É preciso agirmos para defender a floresta”.

Neville em imagem de arquivo retratando seu sucesso nos anos 1970

p.s.: Se você assina Globoplay, delicie-se com “À Meia Noite Levarei Sua Alma” (1964), de José Mojica Marins (1936-2020). É bacana ver o streaming brasileiro, da Globo, abrir frentes para o maior mestre do terror da América Latina, sobretudo agora que Elijah Wood está prestes a assumir a capa preta de Coffin Joe, o Zé do Caixão, numa releitura americana das aventuras horripilantes do coveiro Josefel Zanatas. O personagem foi criado por Mojica após um sonho. Em busca da mulher perfeita, capaz de lhe gerar um filho de uma casta humana superior – um projeto machista e eugenista -, Zanatas aproveitava-se de sua força física acima da média para espalhar o medo pelo interior do país. Seus filmes mobilizaram milhares de espectadores e encantaram parte da crítica, sobretudo no exterior, encantada pela maneira como Mojica driblava a precariedade de recursos que tinha. “Já vi muita coisa aterrorizante na vida, sobretudo a ditadura militar, mas, hoje, nada me assusta mais do que a crise. O medo, no Brasil, é medido pela fome”, disse o cineasta, em 2016, ao ser homenageado com um troféu honorário no Festival de Gramado. Antes, em 2002, o Festival de Sundance, nos EUA, aplaudiu sua obra, complementada por “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1966), “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968), “Exorcismo Negro” (1974) e “Encarnação do Demônio” (2008) – que lhe rendeu o prêmio de melhor filme no hoje extinto Festival de Paulínia. Este primeiro longa das peripécias de Zanatas aborda uma vingança de uma mulher vítima do Zé do Caixão.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.