.Doc sobre Cícero Dias refina as tintas de um mestre do Real

.Doc sobre Cícero Dias refina as tintas de um mestre do Real

Rodrigo Fonseca

31 de outubro de 2016 | 14h45

Filme descortina a arte moderna no Brasil

Filme descortina a arte moderna no Brasil

RODRIGO FONSECA
Laureado com os prêmios de melhor direção e melhor roteiro na disputa pelo Troféu da Câmara Legislativa do Festival de Brasília, o metafísico Cícero Dias, o Compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho, enfim tem data para estrear: quinta-feira agora, em circuito nacional. Nele, o octogenário diretor paraibano, reconhecido como um poeta da investigação – com uma obra mais calcada na força da palavra, expressa por meio de entrevistas, arquivos e pesquisas – agora surpreende as plateias ao passar para um outro e mais elevado (e enlevado) patamar: o de poeta da imagem. Desde o mítico O País de São Saruê (1971), Carvalho não construía um discurso visual tão requintado, seja no arranjo da montagem, seja (sobretudo) no âmbito dos enquadramentos. Talvez a matéria-prima mais indireta do longa – a pintura de Cícero – tenha inspirado um arranjo narrativo de maior potência em termos de dramaturgia de plano do que o material visto nos docs anteriores dele, como O Engenho de Zé Lins (2006) e Rock Brasília (2011), no qual a musculatura investigativa chamava mais atenção do que sua epiderme fotográfica.

Cícero Dias e seu compadre espanhol

Cícero Dias e seu compadre espanhol

Aqui, vemos uma estrutura cíclica, na qual o porto de partida e o de chegada é o mesmo: uma lápide em Paris onde se lê “Eu vi o mundo… ele começava do Recife”. Dali pra frente, Vladimir exuma o corpo ali enterrado, mais preocupado em fazer uma história afetiva do Modernismo – e suas vertentes distintas – no mundo do que em formatar uma cinebiografia clássica. Entre arquivos e depoimentos, numa colcha de memórias, a câmera se abre e se fecha em túneis do Rio Sena, no colorido de telas, no branco de recordações em processo de despedaçamento. Sobram, intactos, a jornada de criação de um intelectual das tensões brasileiras e um périplo sobre as linguagens modernas alinhavadas no esperanto de uma pincelada.

Cotação: Ótimo

Tendências: