.Doc sobre Chacrinha é a maior diversão

.Doc sobre Chacrinha é a maior diversão

Rodrigo Fonseca

01 de fevereiro de 2021 | 11h50

José Abelardo Barbosa de Medeiros (1917-1988) numa arqueologia de si mesmo, conduzida por Claudio Manoel e Micael Langer

Rodrigo Fonseca
Soa quase pueril, diante do oceano de hipóteses relacionais aberta pela streaminguesfera, dar realce ao pensamento catastrofista dos anos 1960, 70 e 80, anterior à www, que enxergava a televisão como o lobo da Humanidade. Mas há uma lucidez em Jean Baurdillard (1929-2007) que ainda serve de farol. Tipo: “Nunca teria havido sociologia, e nem psicanálise, se tivesse sido milagrosamente possível reduzir o homem a comportamentos racionais”. Eis uma frase capaz de definir, à perfeição, o que se vê ao longo da elétrica hora e meia de duração de “Chacrinha – Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar”, hoje em circuito, tornando ainda mais preciso o subtítulo escolhido por seus realizadores, Claudio Manoel e Micael Langer. Como? O filme responde: não há bases racionais para se encaixotar Chacrinha num rótulo, pois ele existiu – e perdura em nossa saudade – como um analgésico para nossa incapacidade de controlar a força criativa do povo. Na direção, Manoel e Langer dão um banho de descarrego no documentário nacional na triagem das/dos comunidoras/es que capilarizaram as múltiplas noções de “popularidade” (ou seja, do que é ser brasileiro) país adentro, onde quer que houvesse uma antena. Trata-se de um exercício de antropologia cultural a partir da semiótica de um signo de Brasil, seu José Abelardo Barbosa de Medeiros (1917-1988), estruturado numa montagem taquicárdica. Sua edição bebe dos códigos do jornalismo (sendo ligado à Globo News), mas alcança uma outra poesia, sem medo das catarses sensoriais, da música, do choro dos depoentes e de tiradas que fizeram o Espaço Itaú, na Praia de Botafogo, no RJ, sorrir, no domingo, quando o P de Pop foi conferi-lo, de máscara, com todos os distanciamentos válidos. A conexão do longa com o aforismo de Baudrillard aparece na prática investigativa do roteiro (vitaminado pela rica pesquisa de Julia Schnoor) de demonstrar como o Velho Guerreiro transcende os racionalismos da chamada cordialidade brasileira, libertando seus espectadores da caretice e do cabresto da contenção. A libertação vinha da maneira como o apresentador se embrenhava na floresta de possibilidades criativas que era a TV, em sua gênese, usando um ferramental do rádio como facão para desbravar matas simbólicas fechadas, de modo a se comunicar com o público pelo viés da surpresa, do inesperado e do gozo. Mas não se trata de um filme sobre o exotismo do “Cassino do Chacrinha” e, sim, um estudo sobre estratégias de conversação frontal entre um astro midiático e povão, um estudo que titio Herbert Marshall McLuhan (1911-1980), o oráculo dos comunicólogos, aplaudiria. Mas os aplausos a Langer e Manoel merecem ir muito além da riqueza teórica do longa, que consegue se articular com ineditismo (e charme) ao lado de filmes recentes sobre Abelardo, como “Alô, Alô, Terezinha!” (2009), de Nelson Hoineff (preciosíssimo à sua época e ainda necessário) e a ficção dirigida por Andrucha Waddington, em 2018. Dela, os realizadores do .doc hoje já em cartaz trouxeram Stepan Nercessian, ator que troveja carisma ao interpretar Abelardo. É uma estrela falando de outra, de “dentro”, da prática da vivência, o que dá uma carga ainda mais humanizada para um processo semiológico. Mas “o” achado de Manoel e Langer foi a opção por trazer figuras que, dos anos 1980 para cá, animam as tardes e as noites do país, na TV aberta, construindo um imaginário de nação a partir da celebração de suas diferenças. Falam no filme Angélica (trazendo memórias pessoais de uma participação, ainda menina, no programa de Chacrinha); Luciano Huck (numa preciosa digressão sobre o que é apresentar um programa com escassez de recursos e com fartura de recursos); Pedro Bial (autor do musical sobre o Velho Guerreiro, de 2014); Gugu Liberato (saudoso ídolo capaz de iluminar na plateia a percepção sobre a dimensão estética da dramaturgia de variedades); e João Kléber, a presença mais emotiva de todo aquele coletivo de talking heads, lapidando o papel da ironia num veículo de massas. Boni fala no longa também, dando uma visão histórica capaz de quebrar o mito e deixar saltar dele o homem, o homem Abelardo, que, plural em sua arte, era obrigado a ser Chacrinha e tempo integral. Já Rita Cadillac e Elke Maravilha espatifam de vez as cascas midiáticas e apresentam o lado mais paternal de um inventor de bordões e de brincadeiras.

Entram ainda “em cena” (um gaiato) Silvinho Blau-Blau, Tony Bellotto, Michael Sullivan, Aguinaldo Timóteo e Evandro Mesquita reconstituindo os bastidores musicais da vida com Chacrinha. Num processo de arqueologia do” saber ser brasileiro”, o trabalho do montador Rafael Paiva abraça (e reinventa) imagens do passado da televisão, conduzindo nosso olhar por uma viagem no tempo que ressalta a poesia do formato “biopic” perseguido por seus diretores. Neste momento em que o circuito nacional está com poucas ofertas, abalado pela pandemia, as narrativas documentais andam defendendo muito bem o cinema brasileiro, como se vê no recente “Callado”, de Emília Silveira, lançado no dia 21 de janeiro. Essa boa defesa se dá pelo fato de os bons documentários que estão pipocando nas telas carregarem influências de gêneros, como é o “biopic” e, em certa medida, o melodrama, na cartografia dos feitos de “Chacrinha”.

Atentos à iluminação de seus espectadores, Manoel e Langer metem um golaço ao levar para o corte final do filme uma fala de Gugu destruindo a chatice dos novos tempos, realçando o espírito provocador do filme. Mas o ponto onde Antropologia e Sociologia se conjugam no longa aparece quando Bial mostra que, pelo fato de os aparelhos de TV, nos primeiros anos desse media, não serem acessíveis aos menos abastados, a programação era recheada de conteúdo mais próximo das elites do que da base da pirâmide do consumo. Foi a chegada de Chacrinha que mudou isso, levando uma micareta de alegria onde havia uma desinência mais burguesa no verbo assistir. O saldo final de “Chacrinha – Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar” é: a) a percepção de que cinema no cinema é maior diversão, desde que com todos os protocolos de segurança; b) só um país como o Brasil poderia gerar um carnaval humano como Chacrinha; c) como é bom ver a televisão ser tratada como linguagem e como um saber; d) pra quem cresceu com João Kléber, antes do Teste de Fidelidade da Rede TV, é uma satisfação vê-lo exercitar todas as suas muitas proficiências como artista; e e) um filme divertido pacas. Não dá sopa. Veja.

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