.Doc mexicano brilha nos festivais internacionais

.Doc mexicano brilha nos festivais internacionais

Rodrigo Fonseca

09 de setembro de 2021 | 10h10

Rodrigo Fonseca
Ecoando entre as gôndolas do Lido, na disputa pelo Leão de Ouro de Veneza com o elogiado “La Caja”, de Lorenzo Vigas, e “Sundown”, de Michel Franco, o cinema mexicano anda fazendo bonito nas mostras internacionais, a julgar pela premiação de “La Civil”, de Teodora Mihai, na seção Un Certain Regard de Cannes, em julho. Muito se espera de “Limbo”, a primeira ficção de Alejandro González Iñárritu desde sua dupla oscarização com “Birdman” (2014) e “O Regresso” (2015), que deve estrear para a Oscar season, até dezembro. Mas esse apogeu do México começou lá na Berlinale, em março, com a consagração de “Una Película de Policías”, de Alonso Ruizpalacios, que vai pra grade da Netflix já já, em 5 de novembro. Essa produção, egressa do México, é um dos longas mais esperados do ano, na seara de não ficção, tendo conquistado o troféu de Melhor Contribuição Artística em Berlim, dado ao trabalho de montagem de Yibrán Asuad. No próximo dia 19, ele vai tentar a sorte nos Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, que começa no dia 17, na Espanha, com “One Second”, de Zhang Yimou. Na mesma seção vai estar o drama brasileiro “Madalena”, de Madiano Marcheti (Brasil). Também nessa seleção, San Sebastián vai conferir o longa de Vigas.

Há um recorrente interesse no cinema latino-americano documental por filmes sobre vocações profissionais, ou seja, os interesses que levam uma pessoa a escolher uma carreira e fazer dela o eixo de sua vida. Foi o que se viu em “El Brigadista” (1968), de Octavio Cortázar, ao falar de alfabetizadores; em “O Chamado de Deus” (2001), de José Joffily, sobre seminaristas; “PQD” (2007), de Guilherme Coelho, sobre a brigada paraquedista; e “A Gente” (2013), de Aly Muritiba, sobre carcereiros. São longas que colhem vivências sobre o dia a dia de um ofício que, para alguns, são atividades corriqueiras funcionais de uma cidade (grande ou pequena), e, para outros, são um ganha-pão nas margens do risco. Essa última palavra serve como bússola pra investigação trabalhista feita por Ruizpalacios em “Uma Película de Policias”. Não há um segundo só em que a edição feita por Asuad perca o ritmo, surpreendendo o espectador no engenho formal de trançar realidade, encenação, depoimento e triagem da geografia onde se instaura. É um engenho narrativo coerente com a conexão histórica que Ruizpalacios (laureado em 2018 em Berlim pelo roteiro de “Museu”) estabelece com vários docs. vocacionais de seu continente ao vasculhar o universo de policiais.

Longa mexicano ganhou o Prêmio de Contribuição Artística da Berlinale por sua montagem

Ao utilizar uma atriz (genial em cena) e um ator – Raúl Briones e Mónica Del Carmen – a fim de poder simular a rotina de quem ganha a vida patrulhando as ruas da Cidade do México, “Una Película de Policias” se aproxima de um formato que a TV, na seara do reality show, explorou bem em “Steven Seagal: Lawman”. Era uma série dos anos 2000 que aproveitava o astro de “Nico” (1988) para testemunhar (na pele) o ônus de se usar uma farda e um distintivo numa instância onde tiros não são de festim, como em Hollywood. Logo, não há originalidade na longa de Ruizpalacios, não apenas no plano temático como no plano formal, em seu dispositivo. O procedimento adotado por ele, do relato, vem sendo usado nas telas latinas com recorrência e refinamento pelo já citado José Joffily, em “Vocação do Poder” (de 2005, feito em duo com Eduardo Escorel), sobre vereadores, e em “Soldado Estrangeiro” (de 2019, codirigido por Pedro Rossi), sobre legionários. Joffily não chega a encenar os desabafos e os dados que colhe. Mas sempre promove uma radiografia afetiva de seus “personagens”. Ruizpalacios faz o mesmo: quer as vísceras emocionais da quem opta pela polícia, ciente de que ela não tem o charme que os filmes hollywoodianos sugerem.

Sobre o supracitado longa nacional “Madalena”: Erigido a partir de uma delicadíssima montagem, esta produção do Centro-Oeste, rodada em Dourados, incorpora o esplendor natural de sua “arena” dramatúrgica desde a primeira sequência, onde a beleza contrasta com a violência: o corpo de uma mulher trans foi encontrado em campos de soja. Mais adiante, o espírito dela parece flanar por aquela geografia verde, numa representação metafísica do horror diante da transfobia. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a narrativa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

Fora dos Horizontes Latinos, a briga pela Concha de Ouro da maratona espanhola deste ano promete um garimpo de preciosidades. Integram a seleção competitiva montada por José Luis Rebordinos, o diretor artístico de San Sebastián, um time de realizadoras e realizadores classe, incluindo o ganhador da Palma dourada de 2008, o francês Laurent Cantet, e a ganhadora do Urso dourado de 2009, Claudia Llosa. Ele volta à luta com “Arthur Rambo”, sobre um poeta e escritor obrigado a lidar com as consequências de uma mensagem de ódio nas redes sociais. Ela regressa com “Distancia de Rescate”, uma releitura da literatura de Samanta Schweblin, mesclando narrativas de fantasmas à história do calvário de uma mulher. Ao lado deles, há o veteraníssimo Terence Davies, que concorre agora com “Benediction”, sobre um poeta antibelicista. Estão ainda em concurso: “Maixabel”, de Iciar Bollaín (sobre os conflitos com o terrorismo do ETA); “El buen patrón”, uma nova reflexão marxista de Fernando León de Aranoa (de “Segundas-feiras ao Sol”), com Javier Bardem; o terror “La Abuela”, do mestre do assombro Paco Plaza; e “Quién lo impede”, de Jonás Trueba, que traz uma reflexão sobre a juventude europeia hoje.

p.s.: Você sempre age de acordo com seus princípios éticos? Ou será que muitas vezes suas ações e comportamentos contradizem o seu discurso? A partir dessa reflexão se desenrola a trama do elogiado espetáculo Era Medeia, que volta ao cartaz em curta temporada, com apresentações no Teatro Firjan SESI Jacarepaguá (18/09) e no Teatro Firjan SESI Centro (24 e 25/09). Com supervisão de Cesar Augusto, texto e direção de Eduardo Hoffmann e argumento de Marina Monteiro, a peça se passa durante os ensaios de uma adaptação da tragédia “Medeia”, de Eurípedes, pano de fundo para uma discussão que passa pelo machismo, o abuso de poder, exposição da vida privada e a importância do processo na criação artística. Em cena, estão os atores Eduardo Hoffmann e Isabelle Nassar. “O diretor está montando Medeia para enaltecer a força dessa mulher que, apesar de tomar atitudes cruéis, rompe com os padrões repressivos. No entanto, o modo como ele lida com a atriz (que já foi mulher dele) é extremamente repressor e abusivo”, explica o ator e diretor Eduardo Hoffmann.

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