Doc ‘H6’ leva a Cannes uma China ‘Sob Pressão’

Doc ‘H6’ leva a Cannes uma China ‘Sob Pressão’

Rodrigo Fonseca

14 de julho de 2021 | 12h10

Médicos e pacientes são documentados no longa de estreia de Ye Ye: “H6”

Rodrigo Fonseca
Estatísticas de 2019, apuradas pré-covid, atestam que Xangai tem cerca de 25 milhões de habitantes, dos quais 12,2 milhões vivem no centro urbano da cidade, o que torna o H6 – Sixth People’s Hospital (o Sexto Hospital do Povo) um dos centros médicos mais disputados de que se tem notícia no planeta. Só a diversidade de pessoas que ilustra a concentração quantitativa de pacientes já tornaria o local um objeto de estudo para qualquer artista interessado no Real e na comédia humana dele proveniente. Mas Ye Ye, uma estreante em longas-metragens que desponta como um dos achados do 74º Festival de Cannes (em andamento até sábado), viu mais do que variedades nos modos de ser e estar em sua China natal. Ela viu – e documentou – um sistema de saúde que é referência, mas que serve de palco para uma série de contradições sociais. No páreo do troféu L’Oeil d’Or, a Palma dos .docs, seu belíssimo filme, chamado “H6”, lembra “Sob Pressão”, a série brasileira da TV Globo – cuja na temporada estreia no dia 12 de agosto, mobilizando os talentos de Lucas Paraízo, Andrucha Waddington, Marjorie Estiano, Julio Andrade, Josie Antello, David Junior e mais uma legião de talentos – ao retratar como uma máquina de saúde tamanho GG opera dia a dia, buscando a democratização da qualidade de vida de um país inchado de pessoas. Por meio de uma série de histórias cruzadas, de vidas enfraquecidas por doenças e acidentes, o filme é um puzzle de uma nação que ocupa lugar estratégico no mundo. Egressa de Harbin, província de Heilongjiang, tendo passado por ciências e pelo design antes de fazer cinema, Ye Ye evoca a tradição de grandes documentaristas asiáticos, como Wang Bing (“Dead Souls” e “A Oeste dos Trilhos”) em seu olhar poético sobre o cotidiano. Essa poesia é parte da conversa a seguir, que ela manteve por email com o P de Pop do Estadão.

No dispositivo narrativo observacional adotado em “H6” o quanto o hospital em si ganha status de personagem, de modo a influenciar os desenhos das histórias pessoais dos médicos e dos pacientes que você documentou?
Ye Ye:
Eu não necessariamente consideraria… ou chamaria… o hospital de personagem. Embora seja um grande organismo vivo, ele é apenas um conjunto à escala da China: enorme, cheio de pessoas, operando 24 horas por dia, sete dias por semana, totalmente animado. Além disso, é importante pra mim esclarecer… e sublinhar… que falar sobre o sistema de saúde na China não foi definido como o assunto principal de “H6”. Acho que eu poderia ter tido a mesma experiência em qualquer hospital na China. Além disso, acredito que seja uma experiência universal. Tenho certeza de que poderia ter feito o mesmo trabalho na França, no Brasil ou nos EUA, pois, meu assunto são pessoas, em sua relação com o sofrer.
De que forma seu filme reflete a realidade social e política da China de hoje?
Ye Ye:
O que pretendo mostrar é uma visão mais íntima da China, pelos olhos de seus habitantes. Acredito realmente que esta é uma das melhores maneiras de entender um país. Esta é a razão pela qual eu estava escolhendo meu “casting” numa mistura de idades e classes sociais. O filme mostra algumas pessoas lutando por sua saúde como se isso fosse a imagem de sua vida diária. Essa diversidade expõe desigualdades. Mas estas existem hoje em dia em toda parte.

Ye Ye: cineasta chinesa estudou Design e Ciências

Seu filme é uma aula de montagem, misturando histórias cotidianas sem exagerar as emoções de tristeza ou sem impor uma linha melodramática. Você pode falar sobre a montagem de “H6”? Como esta edição foi estruturada e quanto tempo demorou?
Ye Ye:
O processo todo durou quatro anos, mas o processo de montagem levou apenas um ano e meio. Graças ao meu conhecimento da organização do hospital, pude vir a filmar somente em momentos importantes, seja em reuniões familiares ou em exames médicos. Mas enquanto eu estava trabalhando em outro projeto completamente diferente, eu ainda estava pensando em “H6”. Foi um processo muito meditativo que me ajudou a ir mais fundo no que eu gostaria de expressar. De vez em quando, eu voltava à sala de edição para aplicar meus pensamentos ao filme. No final, passamos seis meses com o editor Rodolphe Molla para finalizar o longa. Ele realmente foi uma grande ajuda em termos de fazer os ajustes precisos e definir o ritmo certo para o filme.

De que forma seu filme conversa com a tradição do cinema documental chinês?
Ye Ye:
Desde a era digital, tem havido cada vez mais documentários independentes na China. Mas os chineses ainda não estão acostumados a assistir a documentários e apenas poucos chegam realmente à tela grande. Eu adoro documentários porque você aprende muito com eles. Eles me dão muito material… e oportunidades… para entender as pessoas e suas vidas individuais, sob perspectivas diferentes. Esta é uma das razões pelas quais decidi, com o “H6”, oferecer uma visão mais profunda do povo chinês. Eu não diria que fui inspirado por outros cineastas. Eu tentei seguir meu assunto e adaptar a forma ao assunto.

Cannes chega ao fim no dia 17 de julho, com a entrega da Palma de Ouro, pelo júri presidido por Spike Lee, que inclui o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho. Badala-se muito “The Worst Person In The Wolrd”, de Joachim Trier; “Titane”, de Julia Ducournau; e “Tre Piani”, de Nanni Moretti. Na seara documental, o cearense Karim Aïnouz se impõe como um dos principais rivais de Ye Ye com seu “Marinheiro das Montanhas”, centrado em sua viagem afetiva à Argélia onde seu pai nasceu. Igualmente festejados estão os .docs “Cow”, de Andrea Arnold, e “JFK Revisited: Through The Looking Glass”, de Oliver Stone.

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