Do Protetor a Macbeth, Denzel se renova

Do Protetor a Macbeth, Denzel se renova

Rodrigo Fonseca

17 de maio de 2021 | 11h08

Denzel Washington volta ao papel de Robert McCall, um 007 com senso de altruísmo em alerta máximo

RODRIGO FONSECA
Do pop viestes ao pop voltarás: “The Equalizer”, seriado de sucesso nos anos 1980, criado por Richard Lindheim (1939–2021) e Michael Sloan, com o ator Edward Woodward (1930–2009) no papel de superagente aposentado em fase de vigilantismo, volta à TV e à streaminguesfera com Queen Latiffah como protagonismo. A reinvenção do projeto, traduzido por aqui como “O Justiceiro”, é parte de um esforço da rede CBS para revivificar grifes televisivas de prestígio no passado. Era Robert McCall e virou Robyn, numa escalação de elenco precisa. Mas antes de Queen, quem calçou os sapatos de McCall foi Denzel Hayes Washington Jr. que deverá ser visto no 74º Festival de Cannes (6 a 17 de julho) no papel central do esperado “The Tragedy of Macbeth”, de Joel Coen, ao lado de Frances McDormand. Em cartaz no Brasil no thriller “Os Pequenos Vestígios”, hoje em circuito, Denzel interpretou Robert num par de longas-metragens dirigidos por Antoine Fuqua, aqui chamados de “O Protetor”. O primeiro, de 2014, custou US$ 55 milhões e arrecadou US$ 192 milhões. O segundo, de 2018, custou US$ 62 milhões e faturou US$ 190 milhões, sendo embalado em elogiosas resenhas. Esta parte 2 vai ser a atração da “Tela Quente” desta segunda-feira, em que a Globo projeta “Invictus”, de Clint Eastwood, na “Sessão da Tarde”, e “As Boas Maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra, no “Corujão”. É uma programação de peso para a emissora carioca.
Soturno em sua representação das relações sociais, mas taquicárdico na costura de tiroteios, brigas e perseguições, “O Protetor 2” espelha a maturidade narrativa de Fuqua como cineasta, numa linha evolutiva pela estrada da autoralidade. Tal qual fez no “The Equalizer” original, há sete anos, Denzel injeta carisma na pele de um ex-fuzileiro promovido a espião, mas afastado da ativa por traumas do passado. A química entre ele é Fuqua é precisa. O diretor é famoso por sucessos como “Dia de Treinamento” (2001), pelo qual seu astro (e amigão do peito) Mr. Washington conquistou o Oscar de Melhor Ator. Seu primeiro bom trabalho foi “Assassinos Substitutos”, lançado no Brasil em 1998, com Mira Sorvino e Chow Yun-Fat. Há numerosas falhas de roteiro na “parte dois” das aventuras do ex-agente (hoje motorista de aplicativo) Robert McCall, como a ausência de explicações minimamente convincentes acerca dos infinitos dividendos gastos pelo herói em sua campanha contra o Mal. Ele é quase um Bruce Wayne, com sua conta bancária inesgotável. Mas, no modo azeitado como Fuqua conduz sequências calcadas em violência e adrenalina, os furos do longa-metragem fazem apenas cócegas na Lógica, sem deixar danos mais graves no Prazer… prazer deixado pela marca autoral deste realizador americano.

Piloto de videoclipes com Toni Braxton e Prince, Fuqua dá à figura de McCall, aqui dublado por Guilherme Briggs, um status de James Bond. McCall forjou a própria morte após uma missão equivocada sob as ordens da Casa Branca. Não se explica muito bem o que houve com ele na ocasião, menos ainda se explica sobre como ele consegue viajar o mundo todo ajudando pessoas. No primeiro filme, ele se concentrava em mulheres agredidas e escravas sexuais. Agora, seu escopo ampliou-se, passando a incluir imigrantes vítimas de pichadores e adolescentes aliciados pelo tráfico, como o jovem Miles (Ashton Sanders, do oscarizado “Moonlight”). Mas, entre uma “bondade” e outra, ele luta contra as sequelas de uma conspiração que levou sua melhor amiga e ex-chefe (Melissa Leo) à morte, num assassinato disfarçado de latrocínio. Caberá ao Toshiro Mifune pós-moderno que McCall é vinga-la.

p.s.: As grandes paixões têm o poder de provocar o descontrole, de tirar o sujeito de seu próprio comando. O filósofo Spinoza chama de servidão essa impotência humana para regular e refrear os afetos. Nesse estado de apaixonamento, quem já não se viu tomando atitudes inusitadas ou mesmo nada saudáveis? Até que ponto é possível domar um afeto e tomar a melhor decisão para si mesmo? São esses questionamentos que acompanham “E a Nave vai”, primeira realização audiovisual do Teatro Inominável, que faz uma curta temporada, de 26 a 29 de maio de 2021, às 19h, no canal do YouTube do grupo (https://youtube.com/TeatroInominável). Com dramaturgia e direção de Diogo Liberano, o filme apresenta o apaixonamento entre Mocinho e Gatão, que se conhecem e querem estar juntos, mas não pelos mesmos motivos.

p.s.2: A partir de quinta-feira, um dos principais teóricos de dramaturgia das Américas, José Carvalho, vai analisar os ganhadores do Oscar de 2021 na Roteiraria, uma das mais concorridas escolas de escrita de filmes do país. O primeiro longa a passar pelo crivo do teórico baiano é “Druk – Mais uma Rodada”, de Thomas Vinterberg, vencedor da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Na sequência, serão analisados: “Judas e o Messias Negro” (2020), de Shaka King, no dia 27; “Meu Pai”, de Florian Zeller, no dia 3 de junho; e “Bela Vingança”, de Emerald Fennell, no próximo dia 10. Inscrições no https://www.roteiraria.com.br/curso/como-se-narra-um-filme/.

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