‘Divino amor’: Gabriel Mascaro nas alturas

‘Divino amor’: Gabriel Mascaro nas alturas

Rodrigo Fonseca

26 de junho de 2019 | 16h48

Rodrigo Fonseca
Laureado com o prêmio Feisal, dado pela Federación de Escuelas de Imagen y Sonido de América Latina, no Festival de Guadalajara, a sci-fi “Divino amor” estreia nesta quinta no Brasil após um bem-sucedido périplo por vitrines internacionalmente disputadas como as telas de Sundance e da Berlinale, consagrando o talento do pernambucano Gabriel Mascaro para a provocação. Espécie (crítica) de “THX1138” (o marco zero de George Lucasmeets “Fala que eu te escuto”, programa de evangelização mais popular (e exótico) da TV brasileira, a  ficção científica do diretor de “Boi Neon” (2015) destacou-se no exterior como um estandarte da inquietação de nosso país em relação ao avanço do conservadorismo moral. À frente do longa, Dira Paes botou Park City e Berlim no bolso ao viver uma Joana D’Arc de repartição pública neste trabalho de maturidade de Mascaro, construído como uma reflexão sobre a fricção do corpo com o Estado. Escriturária em um cartório, Joana (Dira) defende Deus sobre todas as coisas num Brasil futurista, de 2027, onde o carnaval deu lugar a uma rave de Cristo. Mas o Espírito Santo há de aprontar com sua fiel.
Na tela, o universo religioso por onde gravitam Joana e seu marido, o florista Danilo (Julio Machado, sempre afiado), também é estilizado. Parece o Festival da Canção de San Remo… ou o Show de Calouros de Silvio Santos, no SBT. Mas essa semelhança é conceitual, pois a direção de arte de Thales Junqueira, potencializada na fotografia de Diego García, deixa nítido que existe ali um pensamento muito filosofado (e bem abrasivo) capaz de usar um colorido eletrônico e lisérgico para aproximar o culto daquele futuro fundamentalista de uma festa Ploc. No roteiro, escrito a oito mãos por Lucas ParaízoMascaro, Rachel Ellis e Esdras Bezerra, marcado por diálogos primorosos, esse mundo é esquadrinhado com espanto.  O elenco reúne ainda Thalita Carauta, Emílio de MeloMariana Nunes (sempre brilhante em cena).

Confira na entrevista a seguir, concedida ao P de Pop em plena Berlinale, os paralelos feitos por Mascaro entre o longa e o Brasil que acolhe sua chegada aos cinemas.

Qual é o universo religioso de “Divino amor”?
Gabriel Mascaro:
É o universo do controle biopolítico da vida, uma relação de propriedade entre corpo e Estado. A religião neopentecostal se apropria da prática neoliberal a fim de radicalizar um projeto superconservador em nome da “família cristã”. Por isso a personagem central deste nosso filme é uma mulher que deseja mais fé no Estado, atrelada a um credo contemporâneo que se aproxima da cultura pop.

Que perigos essa prática de fé revela?
Gabriel Mascaro:
Ela mostra que uma das grandes contradições do conservadorismo é o fato de ele estar sabendo se atualizar de modo perspicaz. Precisava para isso de uma coisa muito difícil, que era ter uma personagem capaz de representar fé e erotismo, ao mesmo tempo. Ao escrever o filme, percebi que só havia uma atriz, a Dira, capaz de representar isso, embora não soubesse se ela poderia aceitar. Mandei o roteiro para ela. Recebi uma ligação dela dizendo: “Gabriel, você não entendeu: esse papel é meu”.

Qual é a relação que o filme estabelece com a ideia de Estado que se desenvolve agora no Brasil?
Gabriel Mascaro:
“Divino amor” tenta fazer a fabulação de um Brasil do futuro, de 2027, onde o carnaval deixou de ser a nossa festa mais popular e deu a uma festa religiosa, evangélica, em forma de rave. Eu tento pensar um Estado no qual a religião tem ainda mais influência sobre o Brasil… como já anda tendo hoje. É também uma discussão do Estado se apropriando do corpo. Fiquei feliz de a Dira Paes ter dado conta dessa ambivalência entre corpo e poder.

O filme discute o fundamentalismo sem jamais caricaturar o evangélico de hoje. Como foi encontrar esse equilíbrio na representação?
Gabriel Mascaro:
Quando fomos pesquisar, encontramos vários textos onde evangélicas e evangélicos reclamavam dessa representação. Os evangélicos são, na prática, um grupo muito heterogêneo, o que torna quase impossível dar conta deles, em toda a sua diversidade. O que eu tentei foi fazer uma projeção para um 2027 em que esse grupo se apropria da cultura pop, se apropriando de outras manifestações artísticas. A gente traz uma religião muito nova. Uma religião viva. E eu tento olhar pra ela com sua devida complexidade.

Existe alguma conexão de “Divino amor” com “Doméstica”, seu primeiro longa?
Gabriel Mascaro:
Ali, havia um filme sobre trabalho que virou um filme existencialista, algo que passava por um mestre do documentário como Eduardo Coutinho.

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