‘Distancia de Rescate’: um ‘Carrie’ peruano

‘Distancia de Rescate’: um ‘Carrie’ peruano

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2021 | 20h19

Dolores Fonzi e María Valverde no longa “Fever Dream”, a ser lançado em solo latino como “Distancia de Rescate”

Rodrigo Fonseca
Sem enguiços pessoais com a Netflix, ou qualquer plataforma digital, José Luis Rebordinos, o diretor artístico do Festival de San Sebastián, trouxe a streaminguesfera para perto de sua competição oficial, em 2021, abrindo espaço para uma joia ligada ao terror psicológico lutar por prêmios: “Distancia de Rescate”, da peruana Claudia Llosa. María Valverde e Dolores Fonzi deram à 69ª edição do evento espanhol a melhor atuação feminina, numa composição em duo indissociável, que traduz sororidade… e algo mais. Um algo mais que a realizadora de “A Teta Assustada” (Urso de Ouro de Berlim, em 2009) define como “uma mistura de sedução e de repulsa”, referindo-se à tradição do realismo mágico na América Latina. Mas “magia” não é o que define esse “Carrie, a Estranha” do Peru, calcado numa exuberante fotografia de Oscar Faura, e previsto para estrear no Grande N (www.netflix.com) em outubro.
“Existe uma projeção da realidade entre as protagonistas, em meio a temores naturais que se ligam a uma mitologia latino-americana, num espaço de medos ancestrais”, disse Llosa ao P de Pop, em Donostia, o nome de San Sebastián em Euskara, ou Euskera, idioma local, paralelo ao espanhol).
De uma tensão crescente, “Distancia de Rescate”, chamado de “Fever Dream” em inglês, parte do romance homônimo de Samanta Schweblin e fala da relação que se estabelece entre duas mulheres, Amanda (María) e Carola (Dolores, em sublime composição da perplexidade). As suas são mães, têm relações com homens de rala presença e se embrenham numa região rural em que o uso de pesticidas envenena alimentos do dia a dia. Sem muita explicação, intui-se que um agrotóxico condenou o filho de Carola à morte, mas este acabou salvo em um ritual pagão. Ponha aspas aí nesse “salvo”, pois só temos a casca de seu corpo. Sua alma quer um nosso ser que a hospede. Daí, uma série de situações inusitadas (como brutais atitudes do menino e pesadelos muito realistas) vão acontecendo com as duas, em uma trama que dialoga com a recente onda do “extraordinário”. Esse é o termo da moda, falado desde “Trabalhar Cansa” (2011), para se referir à vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do horror.
“Usaria a palavra ‘estranho’, no sentido de uma ‘estranheza’ para definir um clima de perigo em qualquer parte”, disse a diretora.
Nesta terça, a sessão de “El Buen Patrón”, uma hilária comédia do madrilenho Fernando León de Aronoa, com seu divo Javier Bardem (em atuação colossal, digna de Marcello Mastroianni), deve ofuscar a concorrência local. É um “A Classe Operária Vai ao Paraíso” às avessas. Desde sábado, até a chegada de “Distancia de Rescate”, só se falou em Donostia de “Arthur Rambo”, novo longa-metragem de Laurent Cantet, aclamado por longas-metragens de tônica social como “Entre os Muros da Escola” (Palma de Ouro em Cannes de 2008). Seu novo exercício de autoralidade narra a luta de um escritor das periferias parisienses, de origem argelina, que passa de queridinho da crítica a alvo de linchamentos virtuais depois de tweets preconceituosos, postados em seu passado, vazarem nas redes sociais. Celebra-se uma conterrânea de Cantet também: Lucile Hadzihalilovic. Essa diretora de precisão cirúrgica vem sendo muito elogiada por conta do visual gótico, de silêncio exasperante, de seu “Earwig”, no qual uma menina, criada em um casarão do interior da Europa, é preparada por seu mordomo para ganhar o mundo e amadurecer.
San Sebastián termina neste sábado. Estima-se que o filme surpresa do evento, a ser exibido nesta sexta, vai ser “L’Événement”, de Audrey Diwan, uma reconstituição de um aborto na França dos anos 1960. A produção ganhou o Leão de Ouro de Veneza e Audrey integra o júri da Concha dourada deste ano, que não deveria deixar Llosa sair sem prêmios.

p.s.: Falando de Netflix, que filme sublime é o novo longa de Paolo Sorrentino: “È stata la mano di Dio”, um painel dos delírios da Nápoles dos anos 1980, a partir da chegada de Diego Armando Maradona (1960-2020) ao futebol italiano. Sem medo das patrulhas medievais que hoje castram a cultura, o cineasta por trás de “A Grande Beleza” (2013) filma a nudez sob uma mirada afrodisíaca, recriando o passado sob a ótica de um adolescente, Fabietto (Filippo Scotti), que cresce em meio a delícias e decepções da vida. O Grande Prêmio do Júri dado por Veneza a Sorrentino foi justíssimo. Nesta terça ele passa por San Sebastián para falar de suas estratégias de filmagem.

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