Diretora da Unifrance festeja os recordes cinéfilos de seu país nas telas

Diretora da Unifrance festeja os recordes cinéfilos de seu país nas telas

Rodrigo Fonseca

16 de janeiro de 2022 | 13h31

Daniela Elstner é a diretora geral da Unifrance, o órgão do Ministério da Cultura da França que promove a circulação mundial do cinema de sua pátria

RODRIGO FONSECA
Corre a pleno vapor a 24ª edição do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, o fórum anual da pátria da Nouvelle Vague concebido como um chamariz de distribuidores, exibidores, críticos e formadores de opinião do mundo todo para promover a diversidade da Europa nas telas. Quer dizer, de um cantinho específico do Velho Mundo, Canto de onde vieram talentos como a atriz Léa Syedoux, o ator André Dussollier e cineastas como Julia Ducournau, Benoît Jacquot e Alice Diop, que passaram o fim de semana proseando, via Zoom, com repórteres do planeta todo, incluindo o P de Pop do Estadão, comentando detalhes de seus novos longas-metragens. Essa festa, realizada originalmente de modo presencial, em Paris, todo mês de janeiro, agora é feita online, à força da pandemia, pela Unifrance. É esse o órgão do Ministério da Cultura da França que se dedica a fazer circular pelo planeta o melhor do que se filma em Nice, Marselha, Lyon, Angoulême, em terras parisienses e arredores. Quem cuida da entidade e de seu Rendez-Vous é a diretora geral, Daniela Elstner, que trabalha em parceria com o presidente da instituição, o crítico Serge Toubiana, para que o mundo veja cada vez mais filmes franceses. Nesse papo com o Estado de S. Paulo, ela faz um balanço geral de 2021 e anuncia os planos para 2022.

No próximo dia 28, “Titane”, o ganhador da Palma de Ouro de 2021, chega ao Brasil, mas não via circuito exibidor. Ele vai entrar na grade da MUBI. Aliás, foi via www.mubi.com que nós vimos “Annette”, musical pelo qual Leos Carax conquistou o prêmio de direção também na Croisette. O que representa para a Unifrance esse novo canal, a streaminguesfera?
Daniela Elstner:
A MUBI é uma exceção nesse modelo nas plataformas, pois tenta sempre dar a alguns filmes que lança em sua plataforma, uma vitrine paralela em alguns cinemas. É fato que o nosso negócio está mudando. A principal questão que nos temos, quando um filme como “Titane” vai para o streaming, é saber como divulgá-lo. É descobrir que estratégias são necessárias para que ele chegue a um público que ainda estamos descobrindo. Há cerca de um ano e meio estamos, na Unifrance, fazendo um esforço para agregar telefilmes. Isso tudo é uma prova de como o cenário está se transformando.

“Titane” levou a Palma no mesmo ano em que “L’Événement”, de Audrey Diwan, rendeu a vocês o Leão de Ouro do Festival de Veneza. Vocês ainda foram premiados na Berlinale e em San Sebastián. Como esses troféus geram impacto na venda internacional dos filmes?
Daniela Elstner
: Ele muda totalmente a sorte de um filme, pois atrai a atenção da mídia. Esse filme da Audrey Diwan foi vendido para 40 territórios e ela recebeu muitos pedidos de entrevista. Há ainda o caso de “Pequena Mamãe”, de Céline Sciamma (que ganhou o prêmio de júri popular em San Sebastián). Ele tem tido uma grande procura em países de língua inglesa. O ponto central dessas últimas vitórias que a França teve é o fato de elas despertarem na nova geração de cineastas a necessidade de se valorizar uma carreira internacional forte para seus projetos.

Este ano, a França tem um blockbuster nato pela frente: “Astérix & Obélix: L’Empire du Milieu”, dirigido e estrelado por Guillaume Canet. O que mais de tamanho GG vocês têm?
Daniela Elstner:
Não se esqueça da nova versão de “Os Três Mosqueteiros” (em duas partes, chamadas “D’Artagnan” e “Milady”, ambas sob a direção de Martin Bourboulon, com Eva Green e Vincent Cassel) e “BigBug” (de Jean-Pierre Jeunet, o mesmo de “Amélie Poulain”). Há algo novo sendo preparado por Luc Besson também. Ou seja, é um ano de muitas produções de grande orçamento, que chegam com poder de fogo para atrair olhares de multidões, além de despertar o interesse dos jovens espectadores. Fora isso, temos muitas mulheres diretoras filmando. E temos cineastas premiados fazendo coisas novas, como Robin Campillo (de volta com “École de l’Air” após o sucesso de “120 Batimentos Por Minuto”). A oferta é ampla.

“Peter von Kant”, de François Ozon

Fechamos a semana passada com a notícia de que a França vai abrir o 72º Festival de Berlim. François Ozon não apenas inaugura a Berlinale com seu “Peter von Kant”, como estará na disputa pelo Urso de Ouro. O que vocês têm preparado para a maratona cinéfila alemã, onde, anualmente, a Unifrance sempre promovia um evento?
Daniela Elstner:
Ficamos chocados com a decisão dele de não mais fazer sua vertente de mercado em modo presencial e, sim, online. Mas foi uma decisão do governo alemão, frente à covid-19, e precisamos respeitar escolhas governamentais. Estamos decidindo ainda o que propor. Mas é bom ver um cineasta como Ozon nesse lugar.

Qual foi o impacto da variante Ômicron sobre o circuito francês?
Daniela Elstner:
Apesar do aumento do número de doentes há uma expectativa de que as taxas de infecção diminuam nas próximas semanas, na França. Aqui, essa nova cepa não teve um impacto muito grande, pelo menos agora em 2022, pois os números de frequência popular nas salas exibidoras, em janeiro, costumam ser mais baixos do que a frequência do resto do ano. Nós tivemos, em relação a 2021, uma queda de público de 25% em relação a 2020, mas os números não chegam a ser ruins. A crise impactou muitos territórios, como o Brasil. O que a gente sente, avaliando a situação cultural à nossa volta, é o desejo das pessoas de terem suas vidas sociais de volta.

Qual é a relevância do Brasil, como mercado, para a Unifrance?
Daniela Elstner:
Sempre foi um parceiro forte, e continua a ser, não apenas por seu interesse em nossos filmes, mas pelo fato de vocês terem muitos distribuidores que lançam filmes franceses aí. Cada vez mais, nossa diversidade precisa ser conhecida por vocês. Precisamos voltar a fazer circular atrizes, atores e cineastas pelo Brasil. E faremos isso. Precisamos ter nosso público de volta. O público que diminuiu com a pandemia.

O público que permaneceu respondeu bem à noção de cinema de gênero, pois o filme francês que mais ingressos vendeu na França, em 2021, foi uma fantasia: “Kaamelott – Premier Volet”, de Alexandre Astier. Foram 2.645.727 ingressos vendido. O segundo lugar, “BAC Nord: Sob Pressão”, um thriller de ação, vendeu 2,2 milhões de tíquetes. E, agora em janeiro, “Les Tuche 4”, uma chanchada, chegou à marca de 2.302.974 pagantes. O que isso demonstra acerca da força do chamado “filme de gênero”?
Daniela Elstner:
O que mais impressiona é serem gêneros muito diferentes num ano em que tivemos um Leão de Ouro, “L’Événement”, que passa pelo terreno do drama, e que vem sido vem recebido na Europa. Tivemos uma presença forte também na animação e em comédias populares, como “Les Tuche”, que, embora viagem menos, estabelecendo-se mais como um fenômeno local, têm lá sua chance de serem lançadas em outros países europeus. É o caso do novo “Agente OSS-17”, com Jean Dujardin (lá chamado “OSS 117: Alerte Rouge En Afrique Noire”) que teve uma boa receita e está viajando para alguns países.

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