‘Dilili’, de Ocelot, explora as luzes de Paris

‘Dilili’, de Ocelot, explora as luzes de Paris

Rodrigo Fonseca

18 de fevereiro de 2020 | 07h07

Rodrigo Fonseca
Entre as múltiplas atrações do 70º Festival de Berlim, cuja oferta de excelência começa a ser servida nesta quinta-feira, após a projeção de “My Salinger Year”, haverá um painel com a Unifrance, o órgão do governo francês para a difusão interna e externa de seu cinema, que anda sorrindo ao montes com o sucesso global de suas animações, entre elas “Dilili em Paris”, recém-chegada a nossas telas. Encarado como um antropólogo entre os realizadores de sua pátria, graças a exercícios etnográficos como “Kirikou e a feiticeira” (1998), o septuagenário Michel Ocelot é quem dirige essa delícia de reconstituição de época, em cartaz por aqui via Imovision – em cópias dubladas, a fim de ampliar o diálogo das plateias mirins. Nesse divertido longa-metragem, o animador recria a França de 1900, sob a ótica de uma menina negra, egressa de uma aldeia do Pacífico Sul. A pequena Dilili tem a chance de visitar a Cidade Luz no auge da ebulição artística e científica da vira do século XIX para o século XX. Ela cruza com Camille Claudel, Marie Curie, Sarah Bernhardt, Marcel Proust, Louis Pasteur, Gertrude Stein, Toulouse-Lautrec e o brasileiríssimo Santos Dumont (na voz de Nicolas Gonzales) nesta viagem construída a partir de uma estética de colagens.
“Paris por volta do ano 1900 é um fenômeno, que ainda não foi explicado”, conta o diretor em entrevista por e-mail ao P de Pop. “Após a Revolução Francesa, nosso país foi destruído de várias maneiras ao longo de cem anos, culminando em uma derrota humilhante, infligida pelos prussianos, agravada por um tributo grandioso que a França teve que prestar à Alemanha: a criação de um espaço na Galerie des Glaces, em Versalhes. Pela lógica do torvelinho da História, essa França moribunda deveria desaparecer. Mas, em vez disso, Paris converteu-se em uma capital (de troca intelectual e desejo) no Ocidente. Pessoas vieram de todo o mundo pra lá – inclusive do Brasil! – e fizeram maravilhas naquela cidade, em todas as direções da atividade humana e da criatividade. Esse é um mistério para mim. Eu poderia sugerir uma explicação parcial: liberdade de imprensa. Isso nunca havia acontecido antes, na Europa. Se você vê algo de “antropológico” nesse retrato de Paris ele existe porque eu estava em boa posição para fazê-lo: eu gosto de História, gosto de processos civilizatórios e Paris é onde eu vivi toda a minha vida. Sei bem como ela é. E adoro isso!”.

Em paralelo à carreira global de “Dilili”, Ocelot está trabalhando em um novo projeto, que se chama “Three tales for pleasure”. “Há três boas histórias fundidas nele que eu desejo contar”, diz Ocelot. “Uma se passa no Egito, uma na França medieval e uma na Turquia do século XVIII”.
Acerca da triagem da Unifrance acerca da fase de bonança da animação de sua pátria, o colóquio da instituição na Berlinale 70 vai abordar a indicação ao Oscar do misto de desenho e computação gráfica “J’ai perdu mon corps”, de Jérémy Clapin, hoje na grade da Netflix. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ainda garantiu uma indicação ao Oscar de melhor curta animado para “Mémorable”, de Bruno Collet. “O projeto ‘Dilili à Paris’ custou aproximadamente €7 milhões, e não foi fácil, em absoluto, levantar este dinheiro. Alguns empresários têm medo de apostar na cultura, de trata-la como um assunto sério. Mas enquanto parte da minha indústria profissional dizia NÃO ao filme, eu tive o grande prazer de ter Paris a me dizer SIM. Todas as portas de Paris se abriram pra mim durante a feitura do longa. Contei com as portas abertas da Ópera de Paris, dos grandes museus… tive acesso até aos esgotos quando eu queria. E isso porque a indústria francesa de animação vive uma era de ouro”, explica Ocelot. “Há muitas escolas, com estudantes brilhantes, e há uma plenitude de emprego neste campo, pois várias narrativas animadas são produzidas a cada ano. E elas ficam melhores e melhores. Que dure muito!”.

p.s.: Falando de Imovision, a distribuidora de Jean Thomas Bernandini, que lança “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, neste carnaval, acaba de divulgar o trailer de “Mulher”, .doc que dá voz a 2 mil mulheres de 50 países distintos. Foi uma das sensações do Festival de Veneza. A direção é de Anastasia Mikova e de Yann Arthus-Bertrand. https://www.youtube.com/watch?v=u89ZoxdJ2C4&feature=emb_title

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