Dilili, de Ocelot, anima as telas do Brasil

Dilili, de Ocelot, anima as telas do Brasil

Rodrigo Fonseca

15 de janeiro de 2020 | 11h04

Rodrigo Fonseca
Em meio à comemoração da indicação ao Oscar do misto de desenho e computação gráfica “J’ai perdu mon corps”, de Jérémy Clapin, a animação da França começa uma ofensiva para ocupar espaços, chegando às telas do Brasil, no dia 12 de fevereiro, ainda em tempo das férias escolares, com “Dilili em Paris”, mais recente longa-metragem de um mestre do setor: Michel Ocelot. Espécie de antropólogo da animação, o realizador de “Kirikou e a feiticeira” (1998), hoje com 76 anos, recria a França de 1900, sob a ótica de uma menina negra, egressa de uma aldeia do Pacífico Sul, que tem a chance de visitar Paris no auge da ebulição artística e científica da vira do século XIX para o século XX. Ela cruza com Camille Claudel, Marie Curie, Sarah Bernhardt, Marcel Proust, Louis Pasteur, Gertrude Stein, Toulouse-Lautrec e o brasileiríssimo Santos Dumont (na voz de Nicolas Gonzales) nesta viagem construída a partir de uma estética de colagens. A Imovision lança o filme por aqui em cópias dubladas, a fim de ampliar o diálogo das plateias mirins com Ocelot.
“Eu parto de um período de euforia criativa na França para reviver uma época em que gênias e gênios das mais variadas artes, ciências e artifícios conviviam entre cabarés, galerias e papos acalorados sobre o futuro da Europa no planisfério. É um tempo em que as recém-inauguradas salas de exibição se impõem como um espaço de invenção”, contou Ocelot ao P de Pop em sua passagem pelo Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, fórum de lançamento e de balanço do audiovisual da França.

Seu nome será citado no encontro deste ano, o 22º, que começa nesta quinta-feira, atrás dos holofotes mundiais para a nova safra da França na telona. Toda a vitalidade e a diversidade de gêneros dos franceses em circuito serão celebradas de 16 a 20 de janeiro em solo parisiense. Estima-se a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de veia autoral: entre os quais o mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian (com o inédito “Gloria Mundi” para lançar) e a sensação dos anos 1990 Julie Delpy (que acaba de dirigir o drama “My Zoe”). Ambos vão passar pelo painel de tendências estéticas concentrado no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá será a sede do Rendez-vous, realizado anualmente pela Unifrance. Assim se chama o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, a Unifrance promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções cinematográfica.
Até domingo, emissários de 81 filmes vão passar pelas ruas parisienses, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com cerca de 450 distribuidores e 120 jornalistas de 49 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo. Fala-se muito ainda de “Mama Weed”, de Jean-Paul Salomé, com Isabelle Huppert no papel de uma tradutora de árabe que trabalha, secretamente, como espiã. Esse é um dos títulos esperados para a 70ª Berlinale (20 de fevereiro a 1º de março), assim como “De Gaulle”, com Lambert Wilson sob a farda do estadista que encarou o jugo nazista. Esses dois longas devem estar no Rendez-vous, que tem como atração de abertura uma comédia de costumes, “La bonne épouse”, de Martin Provost, sobre o sexismo nos anos 1960, com Juliette Binoche.
“O governo francês apoia nosso cinema, inegavelmente, mas se destacou, durante a década de 2010, pelo apoio aos longas de animação, dando a artistas do setor meios que resultaram em até seis longas animados em circuito, num período de janeiro a dezembro, sendo que alguns deles tornaram-se sucessos de bilheteria. Isso vem em paralelo a uma política de valorização das BDs, as histórias em quadrinhos. Muitas escolas de artes passaram a investir na animação como meio de expressão”, disse Ocelot, que é cotado para o júri da Berlinale 2020, a ser presidido pelo ator inglês Jeremy Irons.

Este ano, a França emplacou uma indicação ao Oscar ainda na categoria de curta de animação: o concorrente é “Mémorable”, de Brubo Collet, que veio ao Brasil, no semestre passado, para o Animage, no Recife. Rival de Collet, “Sister”, de Siqui Song, tem também aporte francês em meio à sua equipe chinesa de criação. São narrativas curtas universais, mas com um colorido existencial que também se encontra na linha autoral habitual das tramas de Ocelot. Ele ganhou fama ao combinar fábulas de diferentes povos do mundo com toques de fantasia. Mas “Dilili à Paris” quebra essa tendência por abandonar a fabulação e utilizar apenas referências reais.
“Fotografei muitos resquícios patrimoniais referentes à estética da Belle Époque e passeei por construções reminiscentes do período entre 1871 e 1914 para entender uma Paris que ainda alimenta nosso imaginário, por sua aposta no desejo. Usei essas fotos como base para animar a história de Dilili”, disse Ocelot. “Esta é uma narrativa de inclusão, a partir da memória de um país que preserva sua tradição”.

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