‘Digger’, a surpresa grega da Berlinale

‘Digger’, a surpresa grega da Berlinale

Rodrigo Fonseca

26 de fevereiro de 2020 | 20h56

Rodrigo Fonseca
Faz tempo que o cinema da Grécia não brilha nas telas do mundo, sobretudo depois seu último expoente, Yorgos Lanthimos (revelado em 2009 com “Dente canino”) virou cidadão do mundo. Mas o diretor Georgis Grigorakis marcou um gol a favor de sua pátria nesta Berlinale que está chegando ao fim com “Digger”, uma das produções mais elogiadas da seção Panorama. Num pesaroso tom trágico, vitaminado pela montagem reflexiva de Thodoris Karvelas, este drama sobre a solidez que se desmancha no ar – pela ausência de dialéticas sociais – parte de um deslizamento de terra na região onde fica uma pequena propriedade rural… uma cabaninha. Seu dono, Nikita (Vangelis Mourikis) vive agrilhoado à modorra do Tempo, nesse local de lama, até que seu filgo regressa, depois de 20 anos de ausência, para cobrar a herança materna. Mas a situação já tensa entre os dois há de se agravar com a presença de uma construtora que quer se apossar do local. Nesse enredo, Sófocles dá as mãos a Karl Marx em um estudo sobre a erosão dos afetos.

Com 21 produções no evento (duas séries e 19 exercícios para as telonas), o Brasil emplacou três filmaços na Panorama. O primeiro foi “Cidade Pássaro”, de Matias Mariani, que colou no gosto da Berlinale, sendo elogiado em muitas línguas, sobretudo pela retidão em sua construção de quadros ao contar o périplo de um músico nigeriano para encontrar seu irmão em São Paulo. Na sequência, Karim Aïnouz comprovou mais uma vez a fase de apogeu narrativo em que vive com “Nardjes A.”, falando de uma militante argelina, filmada por celular durante 24 horas. O terceiro achado do país na mostra é o .doc paraense “O Reflexo do Lago”, que, enfim, marca a passagem de um dos maiores curta-metragistas do país, Fernando Segtowick (de “Matinta”) para a seara dos longas. A Berlinale chega ao fim no domingo. “Berlim Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani, e “Sibéria”, obra-prima de Abel Ferrara, são o que se viu de mais potente por aqui, seguido por “The Roads Not Taken”, de Sally Potter, que tem tudo para dar o prêmio de melhor atriz para Elle Fanning.

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