Dick Vigarista renasce no gogó de Márcio Simões

Dick Vigarista renasce no gogó de Márcio Simões

Rodrigo Fonseca

02 de agosto de 2020 | 11h33

Márcio Simões, aos 58 anos de vida e 34 de carreira, é um dos mais aclamados dubladores do país

Rodrigo Fonseca
Zapeando a grade da TV aberta deste domingo, dois filmes dublados por Márcio Simões saltam aos olhos e, sobretudo, aos ouvidos, onde ele tem morada nobre desde 1986, quando iniciou uma das mais prolíficas (e inspiradas) carreiras entre os atores da voz do Brasil. Às, 14h, na TV Globo, ele faz os grunhidos de Rocksteady em “As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras” (2016) e, às 22h40, põe o gogó a serviço de Samuel L. Jackson, no “Domingo Maior”. O eterno Jules Winnfield (de “Pulp Fiction”) tem em Simões seu intérprete mais recorrente nas versões brasileiras de seus filmes. “xXx: Reativado” (2017) é a atração deste fim de noite no plim-plim. Todo dia, o timbre metálico do dublador carioca de 58 anos – considerado um dos mais ágeis do setor – se espalha pela televisão, chegando também ao VoD, terreno onde ele vai estar, a partir de quinta-feira, 6 de agosto, cedendo seu talento inestimável às vilanias de Dick Vigarista em “Scooby! O Filme”, de Tony Cervone. Centrada na origem dos personagens Scooby-Doo e Salsicha, e na arrancada da Máquina do Mistério, o longa-metragem vai ser lançada pela Warner Bros. em plataformas digitais de Video on Demand como SKY Play, VIVO Play, Google Play, Apple TV, Microsoft Store, Play Station Store, Uol Play, WatchTV, TMWPix, Brisanet e Veroplay.
“Eu assistia ao Dick Vigarista quando era novinho e achava divertido ver o cara mau se dar mal. E gostava muito da dublagem do Domício Costa. Agora, no ‘Scooby!’, é o Jason Isaacs quem interpreta o Vigarista e ele tem uma voz mais grave. Na versão, eu procurei seguir a linha do Domício, mas sem imitá-lo”, explica Simões, que ao longo de 34 anos de carreira já dublou Will Simth, Bill Murray, Danny Glover, Robin Williams (até no Gênio de “Aladdin”), Alec Baldwin e até o Coringa de Heath Ledger (1979-2008), uma atuação laureada com um Oscar póstumo. “Quando o Pádua Moreira, que dirigia aquela dublagem, veio me escalar, eu senti que aquele papel não tinha nada a ver com a minha voz. Era uma voz muito jovem. Mas aí ele me falou: ‘Márcio, ouve o personagem que ele criou’. Ali eu encontrei… Desafio é o que me move’.

Criado em setembro de 1968, na “Corrida Maluca”, de William Hanna e Jospeh Barbera, o crudelíssimo Richard “Dick” Milhous Dastardly, sempre acompanhado de seu parceiro Muttley, integra o rol de desafios enfrentados por Salsicha e Scooby-Doo no longa de Cervone. Agora, Fernando Mendonça assume o papel de Salsicha, há décadas defendido por Mário Monjardim. Scooby, que foi esculpido por Orlando Drummond no imaginário dos brasileiros, agora vai para outra lenda: Guilherme Briggs. E este é o primeiro a elogiar Simões.
“O Márcio é um dublador extremamente ágil que leva um humor sarcástico para os papéis”, diz Briggs ao P de Pop. “É muito bom trabalhar com alguém que sempre leva bom humor aos ambientes”.

Dick Vigarista em ação

Na trama que a streamingosfera (e a VoDosfera) brasileira vai conferir a partir do dia 6, Scooby-Doo e seus amigos encaram um plano para libertar o cão fantasma Cerberus sobre o mundo. Enquanto eles correm para parar esse chamado “Apocãolipse” global, a turma descobre que o cão mais amado de todos os tempos tem um legado secreto. Figuras como o Falcão Azul, o Capitão Caverna e, claro, o Dick Vigarista de Simões vão cruzar o caminho do herói canino. Por aqui, Fernanda Barone e Flávia Saddy dublam Velma e Daphne, sendo que Fred coube a Felipe Drummond. “Quando eu era pequeno e nem pensava em dublar, já brincava de imitar as vozes dos personagens de desenhos animados, como o Peter Potamus”, conta Simões, que gravou seu trabalho em “Scooby!” de casa, seguindo as normas de segurança para se proteger da Covid-19.

Ao longo de suas três décadas (e meia) de carreira, ele chegou a pegar a dublagem analógica, feita em película, anterior à captação digital da voz. “Eu fui contratado na Herbert Richers como ‘estagiário de ator’, um cargo que não parece fazer sentido. Ficava lá no estúdio à disposição do que aparecesse. Era uma época em que a gente dublava junto, todos numa mesma bancada. Às vezes, eu só tinha uma fala, mas ficava ali olhando feras, como Magalhães Graça (o Sr. Miyagi), dando show”, diz Simões, que arrebata aplausos com seu trabalho dublando Jackson em “Django Livre”, fenômeno de bilheteria dirigido por Quentin Tarantino em 2012. “Samuel ali dá um show de interpretação. Meu trabalho é não aparecer como Márcio Simões e, sim, faz as pessoas pensarem que Samuel fala Português, de tão orgânica que está a voz. O trabalho de um dublador é passar despercebido”.
Ok, Simões, a gente entende, mas quem cresceu seu alfabetizado audiovisualmente por artistas como você não deixam (e não podem deixar) seu trabalho passar sem o carinho merecido. Obrigado por existir.

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