DiCaprio, o Ben-Hur da floresta (ou ‘O Regresso’ é ‘o’ melhor do Oscar)

DiCaprio, o Ben-Hur da floresta (ou ‘O Regresso’ é ‘o’ melhor do Oscar)

Rodrigo Fonseca

05 de fevereiro de 2016 | 03h45

Hugh Glass (DiCaprio) sangra na mandíbula de um urso

Hugh Glass (DiCaprio) sangra na mandíbula de um urso

Na lógica da kinderovologia em voga na porção amarronzada da imprensa, aquela imprensa para quem cinema é guloseima com surpresa dentro, O Regresso (The Revenant) notabilizou-se pelo fato de fazer um bonitinho que naufragava ao som de Celine Dion virar um ator digno de brilhos, mas, aos olhos da crítica (com “C”), a produção de US$ 135 milhões pilotada pelo mexicano Alejandro González Iñarritu tem mais (e melhores) virtudes. E a atuação de uma visceralidade pancreática de Leonardo DiCaprio é só uma delas. Ele disputa o Oscar de melhor filme deste ano e briga ainda em outras 11 frentes (ator, ator coadjuvante, direção, fotografia, montagem, figurino, maquiagem, mixagem de som, edição de som, efeitos especiais e design de produção). E, de longe, esbanja méritos que o definem como “o” filme deste Oscar, desenhando-se como um espetáculo sinestésico a começar da trilha sonora de Ryuichi Sakamoto.

Sedimentado como um blockbuster mundial graças a um faturamento na ordem de US$ 290 milhões, este western glacial rodado em Calgary, no Canadá, cavalga com uma coragem que desafia os ditames da correção política: um câncer da cultura contemporânea. Primeiro: seu realizador, oscarizado em 2015 por Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância), vai na contracorrente do discurso ecológico – um tabu midiático – ao fazer da Natureza um adversário, com a vilania da irracionalidade animal e a fúria de correntezas e nevascas. Segundo: num tempo de fé no apaziguamento, o cineasta (um dos mais audazes da atualidade) ousa fazer um conto sobre revanchismo, pautado por um ódio irreconciliável entre homens e coisas, no qual Deus, mais que testemunhar, dá sua bênção, numa evocação da Lei de Talião, o velho “olho por olho”. E terceiro: a violência pinga sangue, sem pudor.

Emmanuel Lubezki assina a fotografia deste western xamânico

Emmanuel Lubezki assina a fotografia deste western xamânico, rodado no Canadá por US$ 135 milhões

Só estes três fios desencapados serviriam para incendiar discussões (moralizantes) sobre o que se deve ou não retratar com imagens e sobre a banalidade da agressão. Mas os três se trançam numa ligação direta para fazer arrancar o motor histórico dos épicos sobre vingança, dos quais poucos alcançaram notabilidade igual à de Ben-Hur, sobretudo a versão de 1959, dirigida por William Wyler. Da cartilha dos faroestes, ele bebe no verbete das entradas e bandeiras pela América adentro, narrando a peleja dos homens que desbravaram terrenos indígenas à cata de matéria-prima para enriquecer o processo civilizatório. Mas o código de ética empregado é mais complexo que o da lógica do “um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer”, típico de todo bom bangue-bangue – até dos indigenistas, vide Dança com Lobos (1990) ou Pequeno Grande Homem (1971). Aqui tem Deus no meio, ou melhor, a Divindade, tanto o Todo-Poderoso dos cristãos, quanto as entidades ameríndias, expressas seja em espíritos de amadas mortas, seja em pássaros que saem de peitos feridos. Aliás, tem sempre essa metáfora da revoada nos filmes de Iñarritu, algumas sutis como em 21 Gramas (2003) e em Biutiful (2010), outras explícitas, como o Homem-Águia do obrigatório Birdman.

Em parte, ela é uma forma de catarse (onipresente em seus filmes) da perda de um filho recém-nascido, em 1990, cujo luto ele converteu em cinema. Não por acaso, a trama de O Regresso só ganha velocidade de trem-bala por conta da morte do filho de Hugh Glass, caçador de peles nos EUA de 1820, respeitado como um mateiro, capaz de localizar trilhas e atalhos em meio a matas regadas de neve. DiCaprio é Glass. E ilumina a tela com uma interpretação gutural, de olhares, baba e grunhidos, ao reconstituir.

Na saga de Glass, além da aproximação com o Divino, há um flerte filosófico com o Transcendentalismo (a corrente segundo a qual existe um estado espiritual ideal, que sublima a percepção pela experimentação física e empírica, defendendo o entendimento sensível do mundo e mesmo do que existe de divino por meio de uma sabedoria intuitiva, individual), que evoca em alguns momentos a obra do diretor Terrence Malick e seu A Árvore da Vida, Palma de Ouro em Cannes em 2011. A conexão chega a ser física, expressa no visual de O Regresso, pelo fato de o diretor mexicano usar o mesmo fotógrafo que é xodó do realizador de Amor Pleno (2012): Emmanuel Lubezki, também do México. Mas o misticismo de Iñarritu é menos messiânico e mais xamânico do que o de Malick e, neste caso, mais arraigado também a tradições de Hollywood, entre elas a das narrativas morais sobre acertos de contas.

Tom Hardy é o vilão Fitzgerald: ruindade pura

Tom Hardy é o vilão Fitzgerald: ruindade pura

E aí que O Regresso vira um Ben-Hur silvestre: como no clássico de Wyler (baseado em romance de Lew Walace, filmado em 1907 pelo trio Harry T. Morey, Sidney Olcott e Frank Rose, em 1925 por Fred Niblo e estimado para regressar às telas este ano sob a direção de Timur Bekmambetov), o drama é movido por uma traição entre parceiros de armas. Ben-Hur é enganado pelo amigo Messala. Já Glass é traído pelo também caçador Tom Fitzgerald, numa atuação memorável de Tom Hardy, cuja maldade bate ombro com o ombro do Messala de Stephen Boyd. No momento em que o audiovisual agita a flâmula dos difficult men, ou seja, homens maus de coração bom feito o Walter White de Breaking Bad, Iñarritu transgride de novo e cria um antagonista que abraça o maniqueísmo da ruidade: ele não gera simpatia, só repúdio. É necessário que ele abra mão de qualquer ambivalência em seu alinhamento com o Mal para ser visto sob tons monocromáticos. Fitzgerald é ruim e ponto, pois só assim a plateia pode desviar sua antipatia da Natureza, seja do urso que mastiga parte de Glass, seja dos rios que lhe furtam o ar, ou ainda as árvores onde ele dilacera a pele.

O desenrolar de O Regresso é o caminho da conciliação, algo que filósofos como Martin Heidegger chamavam de “o caminho do campo” ou de “serenidade”, numa evolução da fúria para um gesto de pacto com a Floresta, soberana na geopolítica da sobrevivência. E reside aí a poesia de um filme que eleva Iñarritu ao Panteão, dando prosseguimento ao descarrego das tragédias que fizeram sua fama de Amores Brutos (2000) a Biutiful(2010), iniciado com Birdman. Hoje um darling do mercado exibidor, o chicano que surfou na Nueva Onda latino-americana dos anos 2000 – a corrente que revelou Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; os argentinos El Bonaerense e Nueve Reinas e paulistíssimo O Invasor, de Beto Brant – troca o trágico pelo filosófico, fazendo uma caminhada pela tradição do western com plasticidade e dor raras, mesmo para estes tempos de Os Oito Odiados. Se Tarantino investe no gênero pela palavra, Iñarritu faz voto de silêncio, pois vingar é um verbo a ser conjugado na surdina.

Quem quiser saber mais sobre ambiente dramatúrgico de O Regresso deve ler o livro homônimo de Michael Punke que inspirou o longa e que acaba de ser editado em solo brasileiro pela Intrínseca, em tradução de Maria Carmelita Dias.

Quem quiser ver Leonardo DiCaprio ser laureado com o Oscar de melhor ator deve ficar sintonizado na TV no dia 28 de fevereiro, data da cerimônia deste ano da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que tem O Regresso entre os candidatos ao prêmio de melhor filme. Ele concorre na categoria contra os longas A Grande Aposta, O Quarto de Jack, (o genial) Mad Max: Estrada da Fúria, Perdido em Marte, Brooklyn, Ponte dos Espiões e (o lastimável) Spotlight – Segredos Revelados.

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