Dia de ‘Joaquim’, o ‘Game of Thrones’ das Gerais

Dia de ‘Joaquim’, o ‘Game of Thrones’ das Gerais

Rodrigo Fonseca

21 de abril de 2021 | 08h32

Julio Machado é Joaquim José da Silva Xavier no longa de Marcelo Gomes, exibido na Berlinale, em 2017, no páreo pelo Urso de Ouro

Rodrigo Fonseca
Garimpando a streaminguesfera neste 21 de abril, a mineração nos leva até o belo “Joaquim”, do pernambucano Marcelo Gomes, encrustado nas jazidas da Looke e perfeito para a efeméride desta dia. Candidato brasileiro ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, em fevereiro de 2017, o longa-metragem carrega um teor de provocação política muito maior do que as polêmicas fabricadas costumeiramente na produção audiovisual de nossas terras. E o talento mastodôntico do ator Julio Machado no papel central é um convite ao júbilo para o espectador, sempre.
Tudo nesse surpreendente thriller político de época começa numa cabeça, metonímia de um corpo dilacerado após um enforcamento. E não é qualquer corpo: estamos diante de restos mortais de uma das poucas figuras de nossa História a quem a palavra herói se gruda como adjetivo de maneira inquestionável: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Na tela, o recorte de sua trajetória pelas Gerais do século XVIII adotado pelo diretor Marcelo Gomes (do precioso “Cinema, Aspirinas e Urubus”) é o do militarismo. Sob a farda de alferes, ele se submete a uma série de aventuras em nome de um estado corrupto, que enxerga nele uma potência rebelde encasulada, um ovo de serpente. E dessa percepção institucional choca-se um rebelde entre feitos representados no filme como perseguições, fugas e combates de uma precisão plástica e de um ritmo atípicos para o padrão brasileiro de produção.
Pai da brasilidade em nosso audiovisual, o cineasta mineiro Humberto Mauro defendia que “o cinema não deveria dar aulas de História e sim converter História em prática” – uma tese que ganha corpo nos solavancos de minas percorridas pelo alferes Joaquim, abrindo uma veia latina americano onde o sangue ético é dos mais espessos. O debate que ele abre fala da doença da apropriação indevida, legitimada pelo governo. Com um domínio pleno da cartilha da aventura, Gomes construiu – com base nas memórias simbólicas sobre Tiradentes – um “Game of Thrones” árcade. Menos épico e mais subterrâneo, o arranjo narrativo criado pelo cineasta pernambucano é o de uma conspiração pelo Poder. Em seu filmaço, vemos tratadores de joias incumbidos pela Corte lusa de fechar os olhos para deslizes pontuais do Brasil Colônia desde que embolsem uma pedra preciosa como um cala a boca. Tudo se compra. Tudo é carnaval na realidade de Minas Gerais ali retratada, que serve como um berço de herói para o lado revolucionário de Joaquim José da Silva Xavier. Beira o sublime a forma como Julio Machado esculpe o casulo no qual a centelha heróica inflamada pelos abusos da Coroa vai entrando em combustão. Sua atuação é de um requinte paradoxal, ao usar a delicadeza para expor brutalidade e fúria. A interpretação dele merece estar no mesmo panteão onde nossa cinematografia imortalizou Zé Pequeno, Capitão Nascimento e Antonio das Mortes.

Marcelo Gomes (de óculos) dirige Isabél Zuaa

Existe, no longa, um visual de cores esmaecidas, quase enlameado, como os rios onde cascalhos são lavados em busca de tesouros naturais. É uma marca da fotografia de Pierre de Kerchove, eleita a melhor de 2017, pela crítica brasileira, na votação anual do Sesc. Tudo é pardo, pois não se trata de um filme de explosões e sim de implosões. É no silêncio que as revoluções – as humanitárias, altruístas – nascem no Brasil. E a deste filme que se candidata à eternidade em nosso planisfério latino é uma revolução alimentada pelo desejo e pela paixão, expressos no querer de Joaquim pela escravizada chamada Preta (Isabél Zuaa, precisa em cena), personagem que se empenha de modo visceral para alimentar o instinto libertário dos quilombolas. No fundo, liberdade é a palavra que o Brasil prostituiu em suas viradas de governo, indo para Império e República. Mas, ali, naquele contesto, “liberdade” ainda é algo imbuído de poesia.
Gomes voltou à Berlinale em 2019 com “Estou Me Guardando Pra Quando O Carnaval Chegar”, um .doc sobre a cidade de Toritama, a capital nacional do jeans. Seu novo longa é “Paloma”, sobre uma mulher trans que sonha em se casar na igreja.

p.s.: Nesta quinta-feira, às 19h, o realizador do aclamado “Branco Sai, Preto Fica” (2014), Adirley Queirós, vai ser batinado online no Cinema Falado, a nova série do projeto É Nóis na Fita que promove conversas ao vivo com profissionais renomados do audiovisual brasileiro. Inscrições estão abertas, via https://bit.ly/3af60jq.

p.s.2: Às 23h10 desta quarta-feira, a Globo acolhe Liam Neeson, dublado pelo genial Armando Tiraboschi. O filme da noite é “O Passageiro” (“The Commuter”, 2018), dirigido pelo catalão Jaume Collet-Serra, com quem o astro trabalhou em três feéricos thrillers: “Desconhecido” (2011), “Sem Escalas” (2014) e “Noite Sem Fim” (2015). O cineasta agora dirige Dwayne The Rock Johnson em “Adão Negro”. Na trama da atração global desta noite, Neeson é um vendedor de seguros que entra em um jogo perigoso ao ser abordado por uma estranha (Vera Farmiga) durante uma viagem de trem. Raquel Marinho dubla Vera na versão brasileira.

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