‘Dheepan’, o folhetim armado vai ao streaming

‘Dheepan’, o folhetim armado vai ao streaming

Rodrigo Fonseca

21 de abril de 2020 | 11h21

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Fuçando streamings atrás de pérolas, o P de Pop se depara com um dos mais polêmicos ganhadores de Palma de Ouro da História – “Dheepan – O Refúgio” (2015) – disponível no cardápio da plataforma nacional Globoplay, onde temos ainda uma oferta de joias de Kathryn Bigelow, Anna Muylaert (a aniversariante do dia), Ken Loach e Woody Allen. Mas o thriller social pilotado pelo diretor francês Jacques Audiard merece ser (re)conhecido e (re)visado pela força estética de suas investigações sobre expatriamento, miserabilidade e resisliência. Aliás, o último longa-metragem desse refinado cineasta, o faroeste “Os Irmãos Sisters”, de 2018, segue inédito por aqui.
É da natureza do cinema moderno – primeiro o neorrealismo, depois o cinemanovismo e, na sequência, o boom documental dos anos 1990/2000 – assumir a vitimização como uma ferramenta para o revisionismo sociológico. De “Ladrões de Bicicleta” (1948) a “Vidas Secas” (1963), do marxismo de Ken Loach (“Kes”) ao inconformismo de Walter Salles (em “Linha de Passe”), chegando à Nueva Onda latino-americana da década de 2000, diretores responsáveis por usar a câmera para “escrever” a poética política da exclusão retrataram pobres como vítimas, calcando-se em fatos, mas também num olhar paternal nietzschiano. Mais do que a opressão, a pobreza sugeria um estado de desemparo e imobilidade, calcado em personagens desprotegidos, à mercê da submissão. A imobilidade financeira talvez até não comportasse metáforas, mas por que assumir uma imobilidade existencial nos personagens, como muito se fez? Essa é a questão que “Dheepan” abriu. E se essa lógica de paralelismo entre cordeiros e aves de rapina, entre periferia e centro, pudesse se inverter e, no lugar de um carneiro manso, a “vítima” das hipocrisias do assistencialismo, da indiferença do Estado e da invisibilidade econômica fosse um bárbaro selvagem, com total domínio da artesania da Morte, apto a lutar, atirar, manejar facões? É essa reflexão que Audiard traz, numa estrutura narrativa afinadíssima com os códigos dos filmes de ação e também com a tradição social do Velho Mundo, aqui refinada por uma montagem regada a adrenalina.

Sua coroação com a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2015 foi mais do que honra ao mérito de sua percepção socioantopológica e de seu humanismo, mas também um (merecido) reconhecimento às contribuições de Audiard ao cinema de nosso tempo – em especial o cinema de sua pátria, a França. O cineasta é um campeão de bilheteria com interseções de gêneros como o drama carcerário com alma de filme de gângster “O Profeta” (visto por 1,3 milhão de franceses em 2009) e o melodrama com musculatura de thriller criminal “Ferrugem e Osso” (prestigiado por 1,8 milhão de pagantes na França em 2012). São amostras do chamado “blockbuster de autor”: longas de risco na pesquisa formal que consegue falar com multidões e gerar boca a boca. “Dheepan” arrancou em seu primeiro mês em cartaz chegando à casa dos 548 mil ingressos vendidos no país natal do realizador, sem ter rosto famoso algum no qual se apoiar. Sua grife é sua estética: o folhetim armado. Seu protagonista, Jesuthasan Antonythasan, é um escritor que, dos 16 aos 19 anos, integrou um movimento militante no Sri Lanka.
Com uma retidão assombrosa, Antonythasan interpreta Dheepan, soldado com mais de uma década de mortes nas costas que decide virar as costas para os movimentos armados de seu pais e tentar a sorte na Europa. Por um acordo politico ilegal, ele precisa levar consigo a menina Illayaal (Claudine Vinasithamby) e a jovem Yalini (a indiana Kalieaswari Srinivasan), como se elas fossem sua filha e sua mulher. Ele aceita e inicia uma vida com as duas – sem muitos laços de afeto – na França, trabalhando como vendedor de bugigangas pelas ruas até assumir um serviço de zelador em um conjunto habitacional assolado pelo tráfico de drogas.

Além de impressionar pela conversão de um não-ator em uma força da natureza dramática, “Dheepan – O Refúgio” surpreende – e a surpresa aumenta quando o filme é visto uma segunda ou uma terceira vez – pela habilidade de Audiard em alterar o foco do nosso olhar. Ele converte o que parece ser uma crônica politizada sobre a acomodação de uma massa de desvalidos econômicos em um espetáculo belicista de grudar plateia na poltrona, com ecos de “Cidade de Deus” (2002). Dheepan trocou de pátria e de caminho, optando pelo Bem, mas não deixa morrer o matador que existia dentro dele. E Audiard, mestre absoluto hoje na França em representar confrontos a chumbo quente, cria sequências de combate padrão Stallone, com seu protagonista virando vigilante em nome de uma palavra cada vez mais ausente das relações sociais: o amor. No visual, a fotógrafa Éponine Momenceau (uma colorista de formação, com traquejo na seara documental) nos mostra uma França suburbana suja, poluída de dispersões e revivificada pelo colorido das peles de imigrantes que, como Dheepan, estão para desenhar uma nova realidade. Uma realidade mestiça e amorosa, como num cão que afaga, mas também sabe morder, sem precisar latir para isso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: