Dez achados de Cannes em 2017

Dez achados de Cannes em 2017

Rodrigo Fonseca

28 Maio 2017 | 13h41

“Los Perros”: iguaria chilena

RODRIGO FONSECA
Directions, de Stephan Komandarev: O cinema da Bulgária mostra toda a sua disposição para ocupar o lugar de “cinematografia surpresa” que, de 2005 até agora, a Romênia conquistou pra si, falando das mobilizações criadas pelo gesto desvairado de um taxista para desafiar a corrupção em seu pátria;

Wind River, de Taylor Sheridan: O roteirista de A Qualquer Custo (2016) tira de Jeremy Renner uma atuação magistral como um caçador em busca da verdade acerca da morte de uma jovem indígena em uma reserva. Prêmio de direção na mostra Un Certain Regard;

Los Perros, de Marcela Said: Sequelas eternas da ditadura de Pinochet transbordam os limites da aristocracia chilena quando uma aspirante a amazona de alta classe média (a beldade Antonia Zegers) se envolve com seu professor de hipismo (o genial ator Alfredo Castro, de O Clube), acusado de ter sido um torturador;

Blade of The Immortal, de Takashi Miike: Definido aqui como uma espécie de Apocalypse Now dos filmes feudais japoneses, a nova produção so prolífico diretor de Escudo de Palha (2013 esbanja brutalidade ao transpor para as telas o mangá homônimo de Hiroaki Samura, um best-seller na Ásia e no Brasil. Takuya Kimura vive Manji, um ás da esgrima amaldiçoado com a eternidade. Na trama, ele precisa ajudar uma jovem, Rin (a hilária Hanna Sugisaki), a cumprir uma vingança.

La Familia, de Gustavo Rondón Córdova: Esta radiografia afetiva da pobreza em Caracas registra a luta de Andrés (Giovanny García) para salvar seu rebento de 12 anos, Pedro (Reggie Reyes), da mira do tráfico. Sua narrativa se desenha a partir de um realismo sufocante, mas não documental (pois há doses fartas de melodrama na narrativa).

The Merciless, de Byun Sung-Hyun: Batizado na Croisette de “A Familia Soprano em versão coreana), este thriller noir narra o périplo de um jovem para se tornar o mais valioso integrante de uma organização mafiosa. Para isso, ele precisa se aproximar de um detento que é o mais respeitado de sua cadeia.

12 Dias, de Raymond Depardon: Um mito do cinema documental, o diretor de Faits Divers (1973) registra o exasperante universo de internos de uma clinica psiquiátrica a partir de um grupo de pessoas que foram hospitalizadas sem o próprio consentimento. A cada depoimento, perante um juiz, o conceito de liberdade vem à baila.

A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho: Experiência estética alguma de Cannes em 2017 foi mais radical ou mais exótica do que esta iguaria portuguesa. São quase três horas de duração, numa mistura de musical, realismo social, documentário, perplexidade e humor. Nele, Pinho narra as peripécias de um grupo de operários se encrespa com a administração de sua indústria (de elevadores) ao perceber que alguém da gerência está roubando máquinas e matérias-primas. Incomodados, eles fazem um levante, que tem um ônus: todos serão obrigados a permanecer em seus postos, sem nada para fazer, enquanto prosseguem as negociações para uma demissão coletiva. No ócio, acontecimentos e ritos nada usuais tomam conta do lugar.

Tehran Taboo, de Ali Soozandeh: Candidata a cult, esta produção germânica tem o Irã em seu DNA e esbanja vitalidade técnica em seu domínio da rotoscopia (vertente da animação a partir da qual cenas com atores reais ganham aspecto de pintura ou ilustração). Sua trama narra a realidade de corrupção e repressão sexual do Irã.

 A Prayer Before Dawn, de Jean-Stéphane Sauvaire: Diretor do cult Johnny Mad Dog (2008), Sauvaire mescla adrenalina e reflexão social neste drama de artes marciais que resgata uma historia real polêmica na Europa: a cruzada de redenção do lutador Billy Moore. Um ex-viciado em drogas da Inglaterra, ele passou uma temporada em uma das mais violentas prisões da Tailândia, onde aprendeu a lutar muay thai, tornando-se um campeão. O ator Joe Cole, das séries The Hours e Skins, brilha no papel de Billy, que faz uma pontinha no filme.