‘Detours’, encouraçado poético do cinema russo

‘Detours’, encouraçado poético do cinema russo

Rodrigo Fonseca

11 de setembro de 2021 | 07h55

Rodrigo Fonseca
Radiografia das entranhas de uma Moscou avessa a clichês, universalíssima, que parece ser São Paulo, aparenta-se como uma Lisboa em dia de sol e assemelha-se com a noção citadina de lar que todos temos (pela pertença ou pela exclusão), “Detours” (“Obkhodniye puti”), da diretora Ekaterina Selenkina, vem reverberando planisfério cinéfilo adentro desde sua exibição inicial do 78º Festival de Veneza, que termina hoje. Suas exibições foram nos dias 8 e 9, na Semana da Crítica veneziana, em competição (ao lado do brasileiro “A Salamandra”, de Alex Carvalho), e lá reverbera desde então. Reverbera pela singular abordagem para o que existe de humano (e de existencialista) na arquitetura de uma metrópole. A maioria das imagens que vemos aqui são exteriores, com exceções raras como a sequência (longa) de um jovem, Denis, em sua banheira. Saberemos mais adiante que ele é o Coelho desse País das Maravilhas tão cinzento: é nele, em sua pressa de viver, que conhecemos a rotina (se é que essa palavra tão inercial se aplica) a pessoas que levam drogas para usuários de maneiras inesperadas. Ele é o que os eurasianos chamam de “Homens do Tesouro”. São pessoas que escondem narcóticos em lugares inusitados para que outros as encontrem. É um tráfico gourmet, que a polícia não sabe rastrear ou prevenir e que se isenta da violência. Por um lado, o longa de Ekaterina, em sua mirada documental, fascina por essa dimensão informativa, de flagrar um processo de circulação do ilícito que não se conhecia. Mas não é a informação que parece fasciná-la e, sim, o painel de um mundo que, sob um aparente silêncio abafado no concreto grita toda uma diversidade de inquietações. No flanar de sua câmera, vemos um grupo de moças num ritual de selfies. Um grupo de homens jogando vôlei. Um casal gay a se esconder da homofobia local, pessoas que entram, pessoas que saem. É um fluxo com lembra Dziga Vertov (1896-1954), o papa do movimento no império soviético, que nos deu “Um Homem Com Uma Câmera” (1929) ao vasculhar um dia numa malha urbana. Ekaterina faz um cinema que é parte da tradição do audiovisual da Rússia, mas vai além dela. Um além que firma uma voz própria, lembrando um pouco o curta “Praça Walt Disney” (2011), de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, em um dispositivo mais próximo da videoarte, da decantação sensorial das artes visuais, do que dos específicos narrativos do cinema.
“Ao retratar como a vida acontece em uma cidade, temos solidão e temos alegria, temos gente que gravita de modo anônimo, sem ninguém saber que é. Há, no meu olhar para essa cidade, uma dimensão do filme ensaio, numa linha como a de Deborah Stratman (cineasta e artista visual de Chicago, responsável por joias como “My Alchemy” e “O’er the Land”), de pensar as paisagens a partir de elementos sociais e estéticos. Tínhamos ao nosso redor uma paisagem, Moscou, que é muito ruidosa, mas tentamos registrar seus sons da melhor forma. Mas alguns elementos foram esmerilhados ou acrescentados na pós-produção, com novas gravações, para criar uma progressão musical”, explica Ekaterina ao Estadão. “É um trabalho documental, mas há um acabamento ficcional, numa certa medida, de pensar uma narrativa que construa um olhar quase teatral sobre essa malha urbana. Um olhar que espelha o quanto o espaço pode influenciar nossa vida”.
Revelada mundialmente com o curta “Storge”, em 2017, Ekaterina chega aos longas com uma potência plástica requintada, amparada por um projeto teórico: “A arquitetura desenha a forma como nos movemos pela cidade, e resguarda nódoas em que a opressão e a resistência caminham juntas”, diz a cineasta ao P de Pop, defendendo um cinema classificado de modo raso como “experimental”, focado na interação entre os seres humanos e o esplendor arquitetônico de um país que nos deu mestres do cinema.

Mas nessa sua “Sinfonia da Metrópole”, bonita como a dirigida por Walter Ruttmann (1887–1941), em 1927, existe um corpo que nos guia… um corpo que cai… e se levanta… o corpo de Denis. Ekaterina registra suas andanças, mostrando como ele corre da Lei, mostrando policiais que revistam seus pertences e o forçam a despir-se sem nenhuma razão, mostrando seu empenho em fugir de normas. Neste vívido “Obkhodniye puti”, sua transgressão é um espasmo de pura desordem no que parece um marasmo de ordem. De uma certa forma, num arranjo apolínio como o que Alberto Barbera montou para Veneza, sem muitos riscos, o filme de Ekaterina é uma centelha de desordem que gera incêndios em nosso olhar.
“Meu parceiro nesse filme, o fotógrafo Alexey Kurbatov, morreu recentemente, de problemas cardíacos. Mas ele me ajudou essencialmente na pesquisa de locações, fotografando espaços, ‘colecionando’ lugares em nossa memória, detectando traços de um passado que, por vezes, atropela o que existe de novo”, diz a diretora. “Tínhamos pessoas vestidas das maneiras mais diversas, no colorido de seus trajes. E tentamos preservar isso. Tentamos entender como o espaço nos influencia”.

Denis, um “Homem do Tesouro”, em revista pela PM de Moscou

Aberto no último dia 1º, com “Madres Paralelas”, do espanhol Pedro Almodóvar, Veneza tem como um de seus favoritos a prêmios “The Card Counter”, de Paul Schrader. Finalizado durante a pandemia, o esperado novo filme do realizador de “First Reformed” (2017) tem Oscar Isaac como um jogador de cartas profissional que tenta controlar um novato (Ty Sheridan). Fala-se muito de “Competencia Oficial”, de Mariano Cohn e Gastón Duprat. O novo filme dos realizadores de “O Cidadão Ilustre” (2016) troca a Argentina natal pela Espanha. Lá, a dupla narra a trama de dois atores de estilos muito diferentes (Antonio Banderas e Oscar Martínez) que entram em conflito durante a preparação de um filme financiado por um milionário ganancioso e realizado por uma cineasta cheia das excentricidades, vivida por Penélope Cruz. Das participações brasileiras, merecem aplausos o tocante “Deserto Particular”, longa de Aly Muritiba sobre um policial (Antonio Saboia, impecável) que se desloca do Paraná até Juazeiro atrás de um amor, e o curta “Ato”, da atriz e cineasta Bárbara Paz.

Depois de seu recente documentário sobre Hector Babenco (1946-2016), Bárbara esbanja maturidade no posto de realizadora, numa condução firme (e elegante), à frente de um ensaio sobre o luto. Ensaio esse que tem Alessandra Maestrini em estado de graça no papel de uma cantora em ritual performático. Sua personagem acode (e acalanta) um homem (Eduardo Moreira) avassalado pela perda. A fotografia de Azul Serra decanta um chiaroscuro que traduz a incerteza entre aquilo que é metafísico (a passagem para o Além) e o que é terreno. Maestrini gravita em excessos (de risos, de canto, de ruídos) com a leveza de uma pluma, firmando-se como uma das atrizes de maior domínio do assombro humano em nosso rol de estrelas inquietas. É um curta que nos devasta, mas dá alento, apoiando-se na placidez de Moreira e da edição de Renato Vallone. Que “Ato” voe.

p.s.: Que filme memorável é “Maligno” (“Malignant”), de James Wan, mistura de “Suspiria” com “Sisters” de Brian De Palma, que se impõe como um dos longas autorais mais arriscados (e de mais esmerada carpintaria) do ano. Com seu olhar vítreo sempre na mira da fotografia saturada de Michael Burgess, sua protagonista, a atriz inglesa Annabelle Wallis, vive Madison Mitchell, que começa a trama abalada pela bestial convivência com um marido agressivo, somando sucessivos abortos em seu plano de ser mãe. Mas o Mal ronda sua alma, mais perto do que ela imagina, de uma maneira intersticial, que ela não pode supor. Esse Mal tem nome: Gabriel, um Jason gourmet, um Jigsaw fashionista.

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