‘Deserto Particular’: Aly Muritiba alumbra o Lido

‘Deserto Particular’: Aly Muritiba alumbra o Lido

Rodrigo Fonseca

06 de setembro de 2021 | 10h22

Antonio Saboia, de “Bacurau”, sob a luz do fotógrafo Luis Armando Arteaga no longa de Aly Muritiba

Rodrigo Fonseca
Filme de contágio, capaz de inflamar a percepção dos afetos pelas vias do mistério, “Deserto Particular”, integrante brasileiro da Giornate degli Autori do Festival de Veneza, pavimenta a natureza ultrarromântica que Aly Muritiba persegue (ou pela qual é liricamente acossado) desde “Para Minha Amada Morta” (2015), sua estreia nos longas de ficção. É de sua verve autoral seguir personagens que se deslocam (das ditas normatizações do mundo) em nome de um querer desmedido, sobretudo por corpos ou almas ausentes. São deslocamentos movidos seja por vingança (como visto em seu debute ficcional); por trombadas da adolescência (caso de seu seminal “Ferrugem”); pela devoção a um eu lírico (o cartunesco “Jesus Kid”, delícia de comédia que lhe deu o Kikito de melhor direção, em agosto); ou por uma idealização passional, como é o caso do “filme de amor” (vale a definição, pois o gênero aqui está em erupção) que o leva agora à terra das gôndolas. Nesse trabalho mais recente, talvez seu exercício mais potente na direção de atores, Muritiba garimpa palavras que iluminam noites, como “Levei muito tempo pra saber que felicidade e salvação nem sempre andam juntas”. É uma frase que cabe perigosamente a muitos personagens desse seu inventário sobre as crueldades do mundo, sendo empregada com fundamentalismo por alguns e com lucidez por quem transita pelas concepções brutas do binarismo. Tão bonita quanto ela é o desabafo diante de uma represa: “Um homem, quando quer, consegue até controlar um rio desses”. Beleza maior é só a entrega dos atores (em estado de graça) Antonio Saboia e Pedro Fasanaro a papéis que transbordam, do medo ao delírio.

Pedro Fasanaro e Saboia entre raspas e restos do estrago causado pelos minions do país

Sem entregar muito de uma trama que precisa ter suas surpresas preservadas, podemos dizer que “Deserto Particular” é construído a partir do que os minions do conservadorismo nacional deixaram de mais letal: a intolerância. Muritiba radiografa esse mal indo de Curitiba até os confins de Petrolina, movido por um personagem assombrado por um delito de abuso de poder: o oficial da polícia do Paraná, Daniel. Saboia esculpe-o como um ronin, um samurai sem mestre, que se move por um código de honra explicado por sua carência. Acusado de um crime que jamais é devidamente explicado, mas que envolve excessos de violência (e de fobias) em um treino de recrutas, ele encasqueta com uma mulher chamada Sara, a quem conhece apenas por redes sociais, enxergando nela o ideal de completude. Chega a dizer, quando lhe perguntam o que ela tem demais, algo sobre um estado singular de enlevo, sentindo uma paz singular na troca com a moça. Mas Sara é um corpo etéreo, uma hipótese, uma troca de whatsapps. Isso até os 29 minutos iniciais, quando ele, empenhado em cuidar de seu pai idoso e em buscar bicos de segurança, decide largar tudo e partir para o Nordeste, onde Sara vive. Ali começa um novo e radiante hemisfério pro filme, onde o sol passa a ser um personagem chamado Robson (diamante lapidado a cinzel de ourives no olhar falésia de Fasanaro). Cena a cena, Robson vai se desvelando para nós. Deixa que o filme te conta onde e como ele e Daniel se cruzam. É um cruzamento devastador, que desafia o nosso entendimento dos códigos da masculinidade e, sobretudo, da aliança, extraindo tudo o que a direção de arte de Fabíola Bonofiglio e Marcos Pedroso tem de mais precioso. Num universo de educação pela pedra, em que verdades brotam em papos cercados de cactos ou de pedra, cabem cortinas de plástico, fotos de paisagem, tons de vermelho, camisetas purpurinadas. São frestas de delicadeza em uma atmosfera de aspereza. Atmosfera de ódios e brutalidades de onde Muritiba vem tirando documentários sobre assombros (caso de “O Caso Evandro”, no Globoplay) e tira ficções sobre errâncias (como o curta “Brazil”, de 2014) que convulsionam nossas expectativas. É um cinema vivo, de uma brasilidade incontinente, que hoje flui pelos canais de Veneza.

Vale lembrar que tem “È Stata La Mano Di Dio”, o “Amarcord” do cineasta Paolo Sorrentino, lá no Lido também. E o filme acaba de ser convidado para o Festival de San Sebastián (agendado de 17 a 25 de setembro), onde o diretor italiano vai ministrar uma masterclass, no dia 22. Um dos mais fortes candidatos ao Leão de Ouro deste ano, que será entregue neste sábado, o novo longa do diretor de “A Grande Beleza” (2013) reconstitui a década de 1980, quando o jovem Fabietto Schisa, de 17 anos, é visto como um estranho entre os demais adolescentes, por seu jeitão particular. Mas o rapaz encontra alegria em uma família craque em celebrar a vida. Um par de eventos alteram tudo em seu dia a dia. Um deles é a chegada triunfante a Nápoles de uma lenda do esporte da época: seu ídolo, o jogador de futebol Maradona. O outro é um acidente que pode condenar seu futuro. Salvo das agruras do dia a dia pelo culto a Maradona, ele será tocado pelo acaso (ou pela mão de Deus) e engata uma luta contra a inexorabilidade do destino.

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