‘Deserto Particular’, amor nos tempos do Oscar

‘Deserto Particular’, amor nos tempos do Oscar

Rodrigo Fonseca

15 de outubro de 2021 | 14h02

Rodrigo Fonseca
Gesto acertadíssimo de coerência entre risco estético, afinação com expectativas de mercado e atenção aos pleitos éticos contra exclusões, a Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais marcou um golaço em nome da arte ao escolher “Deserto Particular”, um dos filmes latinos mais potentes (e comoventes) do ano como o eleito nacional para conquistar a estatueta dourada hollywoodiana. A produção pode nos dar uma vaga na esperada festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, em 2022. Aclamado na Giornate degli Autori do Festival de Veneza, de onde saiu com um prêmio de júri popular, o longa-metragem do baiano (radicado no Paraná) Aly Muritiba foi escolhido para brigar por um slot na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional. Muritiba tem em seu currículo pérolas como “Para Minha Amada Morta” (indicado ao Festival de Montreal em 2015) e “Ferrugem” (Kikito de melhor filme em Gramado, em 2018). Em reunião virtual realizada nesta manhã, o drama de amor foi o título selecionado pelo Comitê de Seleção presidido pelo produtor Leonardo Edde. Integraram a votação Allan Deberton (produtor, diretor e roteirista), Andrea Barata Ribeiro (produtora), Bárbara Paz (produtora, diretora e atriz), Belisario Franca (produtor e diretor), Cacá Diegues (produtor e diretor), Felipe Lacerda (montador), Gisélia Martins (executiva do cinema), Luiz Zanin (crítico), Paula Barreto (protutora) e Virginia Cavendish (atriz e produtora). A lista completa dos 14 longas inscritos que concorriam com Muritiba – entre eles o precioso “7 Prisioneiros”, de Alexandre Moratto; “Meu Nome É Bagdá”, de Caru Alves de Souza, laureado na Berlinale 2020; e “Medida Provisória”, a estreia de Lázaro Ramos na direção – está no site da Academia: https://academiabrasileiradecinema.com.br/oscar2022/filmes-inscritos.php. A 94ª edição do Oscar® será realizada no dia 27 de março de 2022 sendo que os indicados serão conhecidos no dia 8 de fevereiro. Vale lembrar que a pérola de Muritiba – um “Paris, Texas” brazuca – vai integrar a seleção da 45ª Mostra de São Paulo, que começa na próxima quinta.

Filme de contágio, capaz de inflamar a percepção dos afetos pelas vias do mistério, “Deserto Particular” pavimenta a natureza ultrarromântica que Muritiba persegue (ou pela qual é liricamente acossado) desde o supracitado “Para Minha Amada Morta”, sua estreia nos longas de ficção. É de sua verve autoral seguir personagens que se deslocam (das ditas normatizações do mundo) em nome de um querer desmedido, sobretudo por corpos ou almas ausentes. São deslocamentos movidos seja pela passionalidade da vingança (como foi visto em seu debute ficcional); por trombadas da adolescência (caso de seu seminal “Ferrugem”); pela devoção a um eu lírico (o cartunesco “Jesus Kid”, delícia de comédia que lhe deu o Kikito de melhor direção, em agosto); ou por uma idealização passional, como é o caso do “filme de amor” (vale a definição, pois o gênero aqui está em erupção) que o leva agora à terra das gôndolas. Nesse trabalho mais recente, talvez seu exercício mais potente na direção de atores, Muritiba garimpa palavras que iluminam noites, como “Levei muito tempo pra saber que felicidade e salvação nem sempre andam juntas”. É uma frase que cabe perigosamente a muitos personagens desse seu inventário sobre as crueldades do mundo, sendo empregada com fundamentalismo por alguns e com lucidez por quem transita pelas concepções brutas do binarismo. Tão bonita quanto ela é o desabafo diante de uma represa: “Um homem, quando quer, consegue até controlar um rio desses”. Beleza maior é só a entrega dos atores Antonio Saboia e Pedro Fasanaro a papéis que transbordam, do medo ao delírio.
Sem entregar muito de uma trama que precisa ter suas surpresas preservadas, podemos dizer que “Deserto Particular” é construído a partir do que os minions do conservadorismo nacional deixaram de mais letal: a intolerância. Muritiba radiografa esse mal indo de Curitiba até os confins de Petrolina, movido por um personagem assombrado por um delito de abuso de poder: o oficial da polícia do Paraná, Daniel. Saboia esculpe-o como um ronin, um samurai sem mestre, que se move por um código de honra explicado por sua carência. Acusado de um crime que jamais é devidamente explicado, mas que envolve excessos de violência (e de fobias) em um treino de recrutas, ele encasqueta com uma mulher chamada Sara, a quem conhece apenas por redes sociais, enxergando nela o ideal de completude. Chega a dizer, quando lhe perguntam o que ela tem demais, algo sobre um estado singular de enlevo, sentindo uma paz singular na troca com a moça. Mas Sara é um corpo etéreo, uma hipótese, uma troca de whatsapps. Isso até os 29 minutos iniciais, quando ele, empenhado em cuidar de seu pai idoso e em buscar bicos de segurança, decide largar tudo e partir para o Nordeste, onde Sara vive. Ali começa um novo e radiante hemisfério pro filme, onde o sol passa a ser um personagem chamado Robson (diamante lapidado a cinzel de ourives no olhar falésia de Fasanaro). Cena a cena, Robson vai se desvelando para nós. Deixa que o filme te conta onde e como ele e Daniel se cruzam. É um cruzamento devastador, que desafia o nosso entendimento dos códigos da masculinidade e, sobretudo, da aliança, extraindo tudo o que a direção de arte de Fabíola Bonofiglio e Marcos Pedroso tem de mais precioso.

Sara é a força de empuxo das incontinências passionais do filme

Num universo de educação pela pedra, em que verdades brotam em papos cercados de cactos ou de pedra, cabem cortinas de plástico, fotos de paisagem, tons de vermelho, camisetas purpurinadas. São frestas de delicadeza em uma atmosfera de aspereza. Atmosfera de ódios e brutalidades de onde Muritiba vem tirando documentários sobre assombros (caso de “O Caso Evandro”, no Globoplay) e tira ficções sobre errâncias (como o curta “Brazil”, de 2014) que convulsionam nossas expectativas. É um cinema vivo, de uma brasilidade incontinente. Que o Oscar possa se deleitar com ele.

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