Desde 1961, uma mulher não ganha o prêmio de direção em Cannes: Sofia Coppola quebrou a maldição

Desde 1961, uma mulher não ganha o prêmio de direção em Cannes: Sofia Coppola quebrou a maldição

Rodrigo Fonseca

28 Maio 2017 | 16h14

Sofia Coppola ganha o prêmio de melhor direção na Croisette por “O Estranho Que Nós Amamos”

RODRIGO FONSECA
Conquista épica circunda o prêmio de melhor direção dado a Sofia Coppola neste domingo em Cannes, com a consagração de seu O Estranho Que Nós Amamos: desde 1961, uma mulher não era laureada nessa categoria no evento, que, em 70 anos, deu a Palma apenas a uma diretora, Jane Campion, por O Piano. Antes de Sofia, a russa Yuliya Solntseva conquistou o mesmo troféu por A Epopeia dos Anos de Fogo. Agora é a vez da realizadora americana, consagrada em 2010 com o Leão de Ouro de Veneza por Somewhere (Um Lugar Qualquer), que ainda viu a Croisette outorgar uma laurea fora do normal, o Prix du 70ième Festival (uma honraria especial para os 70 anos do evento) à sua estrela, a atriz australiana Nicole Kidman, pelo conjunto de sua carreira.

“Sempre admirei Nicole e queria que ela fizesse parte de meu universo de colaboradoras. Não sei se eu tenho a consciência da dimensão existencial dos meus filmes. Apenas tento que eles tenham uma natureza convidativa para o espectador, a fim de abrir um dialogo e estimular reflexão”, disse Sofia ao P de Pop.

Baseado em romance homônimo de Thomas Cullinan sobre os bastidores (e as sequelas morais) da Guerra de Secessão nos EUA do século XIX, O Estranho Que Nós Amamos tem como força motriz o soldado ianque McBurney (vivido por um Colin Farrell no limite da excelência). Ferido em combate, ele é acolhido num colégio para moças. Mas ele pode ser uma ameaça às alunas e professoras da escola para moças onde foi acolhido, inclusive para sua reitora, Sra. Martha (Nicole, em seu melhor trabalho em anos). Ele é perigoso não por ser da facção rival, nem por ser homem – como fica sugerido de início -, mas sim por ser uma figura de caráter dúbio, interessado em capitalizar o melhor que puder na situação.

E outra diretora de estética autoral foi consagrada em Cannes: a escocesa Lynne Ramsay, ganhadora do prêmio de roteiro por You Were Never Really Here. Embora encarado como uma xerox de Taxi Driver por seus antipatizantes, o filme de Lynne ainda rendeu ainda o prêmio de melhor atuação masculina a Joaquin Phoenix, em sua performance como um vigilante taciturno, qua usa um martelo como arma para detonar abusadores de meninas. “Essa é a forma de o personagem deixar sua marca pessoal”, disse o astro, que esbanja melancolia sob o comando de Lynne.

Atribuído por um júri à parte, comandado pelo cineasta romeno Cristian Mungiu, o prêmio de melhor curta-metragem ficou com Une Nuit Douce, de Xiao Cheng Er Ye, da China. Coube à atriz Sandrine Kiberlain comandar o time de jurados incumbido de atribuir a Caméra d’Or, troféu dedicado a estreantes: ganhou Jeune Femme, de Léonor Serraille.