‘Desafio Hitchock’: fino ‘Teleteatro Tupi’ online

‘Desafio Hitchock’: fino ‘Teleteatro Tupi’ online

Rodrigo Fonseca

30 de agosto de 2020 | 10h00

O diretor André Warwar conduz “Desafio Hitchcock”

Rodrigo Fonseca
Ao mesmo tempo em que o cinema vive sua mais inglória crise, com salas fechadas pelo assassínio do coronavírus, as expressões visuais digitais (a)live experimentam um momento de euforia das mais criativas, como deu pra ser conferido na web brasileira, no sábado, via YouTube, na realização da micareta tecnotebana “Desafio Hitchcock”, concebida pelo cineasta e escritor André Warwar (de “O Crime na Gávea”). O que prometia ser um centauro – meio peça, meio filme – revela-se uma hidra de sete cabeças: é Ágora, é Hollywood, é Rio de Janeiro, é Brian De Palma, é Domingos Oliveira, é videoinstalação, é poema processo. É tanta coisa… das boas. Cabe tanta coisa ali, a começar de um desfile de grandes atuações e de uma afinada direção de arte (de Ellen Rambo), com as quais a gente se relaciona a partir de uma dinâmica de exibição online e de encenação ao vivo. Dinâmica essa que Warwar conduz como se labutasse num switcher de TV aberta, conduzindo um show de variedades. É um “Teleteatro Tupi” versão 2.0.2.0 pra iPhone ou Android, capaz de revisitar o mestre do suspense, hitchockiando-se a partir de um roteiro de Alexandre Pontara. Roteiro que esbanja tiradas pra se anotar no caderninho, tipo “Tá vendo muita Netflix” ou a oracular “Tarja preta não leva ninguém a lugar nenhum”. Mas o que o trabalho tem de mais notório é a habilidade de criar personagens, coisa cada vez mais rara na ficção internacional. E lá, “O” personagem, um dos mais brilhantes desta seca pandêmica que atravessamos, é o Dr. Arthur, um James Stewart da cardiologia, vivido nas raias da empáfia (e num brilhantismo de inundar a cena) por Marcelo Pio.
Fiel à ideia de que “a vida é como um ratinho que sai correndo pela sala”, ele é o rasgo de lucidez numa ratoeira de vaidades que se constrói por um jogo de possessividades, em meio a um convescote no qual os convidados gargarejam o Cepacol da ironia. Uma YouTuber (a já citada Ellen, num uso finíssimo do gestual e numa operacionalização algébrica das palavras) dá o tom do deboche ao usar a palavra “verdade” num castelo de efemeridades, onde a mentira é uma dominatrix sem gozo. Não por acaso, neste “Entre Quatro Paredes” sem muros, onde o inferno não são os outros, mas, sim, a intolerância nossa de cada dia, a única personagem que se afina com o desígnio marxista do proletariado, a empregada Martha (vivida por La Quica num banho de descarrego de carisma), parece olhar praquilo tudo com a lucidez do desdém. Lucidez que, talvez, fareje cheiro de morte.

Marcelo Pio faz de Dr. Arthur um James Stewart da Praça das Nações numa trama na qual os personagens gargarejam o Cepacol do cinismo

Na trama, com ecos de “Festim Diabólico” (1948), tudo parte da relação entre o escritor Breno (Renato Krueger, capaz de destilar frieza com elegância à la Farley Granger) e seu namorado, Leandro (Pedro Says, uma falésia de calmaria que derrama humanidade numa terra de vaidosos). Eles decidem realizar uma festa no apartamento onde moram, em meio à pandemia do COVID-19. Dr. Arthur pinta lá atraído por livros, assim como a dupla de Digital Influencers Rafaela (Ellen) e Diogo (Gabriel Máximo, que habilmente nos conduz a uma reflexão sobre desconexão e falta de lugar no mundo). Essa reunião de pessoas tem objetivos sombrios… até certo ponto, inexplicáveis… uma vez que ocorre no mesmo ambiente onde repousa um baú com um conteúdo desconhecido e perfumado com o Channel do perigo. Nenhum dos convidados sabe o que há, de fato, dentro dele. Mas Rômulo, um psicanalista forense e escritor (vivido por Pontara no diapasão do mistério), começa a perceber que a tal canastra pode guardar um terrível segredo. Quem mantiver olho vivo e faro fino há de sobreviver a esta rave vestida de “Psicose” (1960). Uma rave que fala das corrupções atuais do Brasil, esmaga a cloroquina e faz uma curiosa reinvenção de um mito. Afinal, a Caixa de Pandora – metonímia do Limbo – renasce aqui como um embate entre a sordidez e o tédio. Um embate que valeu a noite de sábado, pode sextar muito bem e merece um lugar de honra nas novas práticas midiáticas do teatro brasileiro.

p.s.: “Cobra Kai” vem contagiando corações desde 2018, quando pintou no YouTube. Mas, agora, de casa nova, na Netflix, o que mais emociona na peleja entre Johnny Lawrence e Daniel San é o encontro de dois titãs da voz na dublagem nacional da série: Mário Jorge empresta o gogó a William Zabka e Nizo Neto cede a garganta a Ralph Macchio. É mais do que um trabalho de “atuação vocal” primoroso. É um resgate de uma memória afetiva da cultura pop nacional que só a arte de dublar proporciona. É lastimável pensar que o monumental trabalho feito por Cleonir dos Santos (Daniel), Magalhães Graça (Sr. Miyagi) e o incomparável Marcos Miranda (como o instrutor Cobra Kai John Kreese) no longa original foi apagado num crime contra o patrimônio artístico deste país… um crime chamado redublagem. Que bom que o seriado dá a Nizo Neto um papel à altura de seu talento e extrai de Jorge mais um desempenho de nos levar às lágrimas. Que alento.

p.s.2: Nesta segunda, às 22h30, num necessária e justíssima homenagem a Chadwick Boseman, morto de câncer na sexta-feira, a Globo vai exibir “Pantera Negra” (“Black Panther”, 2018), de Rya Coogler, no qual o brilhante ator deu vida ao monarca de Wakada. Criado em julho de 1966, nas páginas da HQ Fantastic Four nº 52, o Pantera Negra ganha sob a batuta de Coogler o protagonismo de uma trama que se equilibra entre a futurística nação africana e a Coreia do Sul, palco de uma cena de ação, antecipada já no trailer, idealizada para eletrizar plateias como nunca se viu nos filmes Marvel até agora. A tarefa de T’Challa é manter sua nação coesa, após a dor que se instalou por lá após a morte de seu pai, o antigo rei, numa articulação do Barão Zemo. Mas um vilão interessado nas reservas de vibranium, o Garra Sônica (vivido pelo ator e coreógrafo Andy Serkis, o Gollum de “O Senhor dos Anéis”, amplificado por efeitos em CGI), abalará a paz de T’Challa. Ele ainda precisa ainda deter a vaidade de um conterrâneo vingativo, Erik Killmonger (Michael B. Jordan, ator-assinatura de Coogler). Rodrigo Oliveira dubla Boseman no longa, que faturou US$ 1,3 bilhão, papou três Oscars (os de Trilha Sonora, Figurino e Direção de Arte) e representou uma revolução audiovisual na representatividade das populações negras.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: