‘Desafio Hitchcock’: teatro do suspense

‘Desafio Hitchcock’: teatro do suspense

Rodrigo Fonseca

29 de agosto de 2020 | 14h04

Rodrigo Fonseca
Hitchocock-se pra sobreviver à crise destes tempos de coronavírus: em meio às experiências de artes cências (a)live que surgiram, online, nesta temporada pandêmica, o cineasta André Warwar (do thriller “O Crime da Gávea”) mobilizou uma trupe classe AA de atrizes e atores – além de um diretor de elenco, diretora de arte, diretor de transmissão e um diretor diegético – para construir um espetáculo audiovisual nas franjas do mestre do suspense. o resultado dessa mobilização (com cada um na sua casa, respeitando protocolos de segurança… e de invenção) foi “Desafio Hitchcock”. Esse bicho anfíbio, meio teatral, meio cinematográfico, tem sessão na web esta noite, no YouTube, a partir das 23h (a preparação na www se dá a partir das 22h30). Na trama, com ecos de “Festim Diabólico” (1948), Brenno (Renato Krueger) e Leandro (Pedro Says) decidem realizar uma festa no apartamento onde moram, em meio à pandemia da Covid-19. Essa reunião de pessoas tem objetivos sombrios… até certo ponto, inexplicáveis… uma vez que ocorre no mesmo ambiente onde repousa um baú com um conteúdo misterioso. Nenhum dos convidados sabe o que há, de fato, dentro dele. Mas Rômulo (Alexandre Pontara), um escritor perspicaz, começa a perceber que a tal canastra pode guardar um terrível segredo. Quem mantiver olho vivo e faro fino há de sobreviver a esta rave vestida de “Psicose” (1960) e aguda como “Vertigo” (1958).
“A proposta do ‘Desafio Hitchcock’ surgiu da necessidade que tive de sair dessa inércia de não ter como me expressar artisticamente e quis juntar minhas ideias a essa moda das lives com o teatro. Usei um pouco da minha experiência como realizador, e como diretor de imagem, e acabei criando essa forma inédita de transmissão. A gente não sabia se chamava de teatro ou de cinema. Cada ator fica na sua casa e eu, da minha, e corto o espetáculo como se fosse TV ao vivo, só com algumas diferenças. O próprio ator, opera a sua câmera e eu dirijo a cena, durante o espetáculo. Nos enquadramentos, às vezes, insiro algumas coisas tiradas da interatividade do chat”, disse Warwar, diretor do divertido curta “A Truta” (2000). “Foram várias coisas que descobrimos nesse mergulho, sobretudo como a interatividade pode fazer parte da dramaturgia, sem atrapalhar. Você pode incluir elementos do que é falado no chat durante o espetáculo sem atrapalhar”.

https://www.youtube.com/watch?v=R2GOhztBy1M&feature=youtu.be

Na ficha técnica de “Desafio Hitchcock” aparece uma tropa em plena sinergia:
CRIAÇÃO E DIREÇÃO GERAL DE ANDRÉ WARWAR
DIREÇÃO DE ELENCO DE THIAGO GRECO
DIREÇÃO DIEGÉTICA DE WILLIANS DIAS
DIREÇÃO DE TRANSMISSÃO DE DANIEL WARWAR
ROTEIRO ADAPTADO POR ALEXANDRE PONTARA
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA ROBERTO AMADEO
DIREÇÃO DE ARTE: ELLEN RAMBO
ELENCO: RENATO KRUEGER, PEDRO SAYS, ALEXANDRE PONTARA, LA QUICA, MARCELO PIO, ELLEN RAMBO E GABRIEL MAXIMO.

“A questão do processo ao vivo sempre traz um frescor”, explica Warwar. “Quando você grava, pode editar e pode fazer o ator repetir. Quando faz ao vivo, o que ele faz é o que valeu e, por meio do corte, eu tenho que reconstruir aquela história. É como se eu estivesse criando, todos os dias, um filme novo ou um espetáculo novo. Essa foi a grande descoberta, de como o diretor pode participar ativamente do processo de exibição/transmissão. Isso fomos descobrindo aos poucos. Comecei a falar por necessidade de intervenções técnicas, depois por intervenções artísticas, e comecei incluir questões que lia no chat e colocava na boca dos atores. A grande descoberta desse mergulho foi a possibilidade de ser o oitavo ator ou… numa analogia bacana que fizeram… ser o maestro. Ser aquele que não toca nenhum instrumento, mas rege aquela orquestra. É o que faço todos os sábados, com o elenco maravilho e a gente pode construir um filme diferente. Esse é o grande barato dessa experiência que chamamos de ‘Desafio Hitchcock’”.
Só pela ousadia, “Desafio Hitchcock” já tem o direito de reivindicar pra si uma velha máxima do cinema, que tão bem qualificou o realizador que homenageia: “É a maior diversão”.

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