De prosa com João, sobre o Real

De prosa com João, sobre o Real

Rodrigo Fonseca

23 de julho de 2020 | 15h36

Rodrigo Fonseca
Dono de uma das obras mais admiradas e estudadas do cinema brasileiro, João Moreira Salles apresentou a pedra fundamental que transforma estética em ética no que promete ser um dos maios fóruns da estética documental das Américas em 2020: o seminário online Na Real_Vitual. Sucesso de audiência na web, o simpósio organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos e pelo cineasta Bebeto Abrantes recebeu o realizador de “Entreatos” (2004) e “Nelson Freire” (2003) na quarta-feira.
“Gosto da definição do Frederick Wiseman (documentarista americano) sobre o que é filme. Acontece em algum lugar em a tela e a plateia. Tá no meio do caminho. Dessa alquimia nasce um filme único”, disse João em seu colóquio. “No cinema, a imagem ganha originalidade enquanto você a filma. Por isso, pra mim, é essencial montar com alguém sem nenhuma relação com a imagem que eu rodei”.
Agendado até 14 de agosto, às segundas, quartas e sextas, o Na Real_Vitual vai mobilizar os documentaristas Belisario Franca, Cao Guimarães, Carlos Nader, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, Joel Pizzini, Marcelo Gomes, Maria Augusta Ramos (a primeira a falar, na última segunda-feira), Petra Costa, Rodrigo Siqueira e Walter Carvalho. Para conhecer a joia teórica o que Mattos e Bebeto lapidaram, basta acessar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020.
Cada longa que ancora o Na Real_Virtual aborda uma vertente distinta da linguagem documental em voga hoje no Brasil. Os debates passam tanto pela experimentação plástica a partir do registro de um ator em ensaios (“Iran”, de Walter Carvalho) até uma investigação sobre laços afetivos e ausência no âmbito familiar (o cult “Elena”, de Petra Costa). No longa “No Intenso Agora”, João resgata imagens de uma viagem de sua mãe pela China nos anos 1960. A passagem dela pela Ásia teve uma confluência com o turbilhão político de maio de 1968. Com o filme, o diretor carioca encerrou um hiato de dez anos sem lançar filmes, iniciado após “Santiago” (2007). Passou todo esse período dedicado à produção e ao trabalho à frente da revista “Piauí”. Em seu retorno às telas, ele apresenta uma produção narrada em primeira pessoa, calcaada numa reflexão sobre o que revelam quatro conjuntos de imagens. Estão no filme: os registros da revolta estudantil francesa em maio de 68; os vídeos feitos por amadores durante a invasão da extinta Tchecoslováquia em agosto do mesmo ano, quando as forças lideradas pela União Soviética puseram fim à Primavera de Praga; as filmagens do enterro de estudantes, operários e policiais mortos durante os eventos de 68 nas cidades de Paris, Lyon, Praga e Rio de Janeiro; e as cenas que uma turista – a mãe do diretor – filmou na China em 1966, ano em que se implantou no país a Grande Revolução Cultural Proletária.
“Em algum momento, você acredita que a imagem é aquilo que você fez e não aquilo que ela é. Ao torná-la pública, interpretações variadas são possíveis”, diz Salles.

Cena de “No Intenso Agora”

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 24/7 – A poética do simples – Cao Guimarães. Filme: A Alma do Osso
Dia 27/7 – O tempo como matéria – Carlos Nader. Filme: Homem Comum
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

Em 2019, Mattos encabeçou a Ocupação Eduardo Coutinho, em SP, e lançou um livro seminal sobre estratégias de documentar, dedicado à obra e à vida do realizador de “Edifício Master” (2002). Sua pesquisa sobre Coutinho é primorosa e seu texto, uma aula de concisão e de argumentação, sem esturricar palavras nem se besuntar em advérbios. Já Bebeto – atualmente envolvido no projeto documental “Me Cuidem-se”, com Cavi Borges – tem no currículo poemas em forma de filme como “Caminho do Mar” (2018).

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