Depois do Oscar, ‘Flee’ vai animar Cannes

Depois do Oscar, ‘Flee’ vai animar Cannes

Rodrigo Fonseca

19 de maio de 2022 | 03h23

Indicado a três estatuetas da Academia, “Flee – Nenhum Lugar Para Chamar De Lar” (“Flugt”), da Dinamarca, vai ser exibido no 75º Festival de Cannes, em projeção fora de concurso

RODRIGO FONSECA
À força de sua consagração internacional, “Flee – Nenhum Lugar Para Chamar De Lar” (“Flugt”), da Dinamarca, vai ser exibido no 75º Festival de Cannes, em projeção fora de concurso, nesta quinta e na segunda-feira. Passado o turbilhão do Oscar 2022, com a injusta vitória de “Encanto”, aquele que há de ser o longa-metragem animado de maior reverberação entre os indicados da festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood de 2022, vai brilhar na Croisette. Lançado no Brasil em 21 de abril, essa belíssima produção de US$ 3,4 milhões entrou na briga pelos prêmios de Melhor Longa Documental, Melhor Longa Animado e Melhor Filme Internacional da Meca hollywoodiana. Desde sua primeira exibição em janeiro do ano passado, em Sundance, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri, o documentário animado dirigido por Jonas Poher Rasmussen já foi coroado com 82 láureas. Desde então, ele abriu o É Tudo Verdade, no Brasil; venceu o troféu Cristal (a Palma dourada) do maior festival mundial dos animadores, Annecy, na França; e ainda concorreu ao Globo de Ouro. Em sua delicada, mas doída narrativa, Rasmussen (de “Searching for Bill”) registra um passado de seu amigo de juventude Amin Nawabi. Esse é o pseudônimo de um intelectual altamente graduado que, às vésperas de se casar com seu namorado, luta com segredos dolorosos ligados à sua infância em solo afegão, que manteve escondidos por 20 anos e que ameaçam desestabilizar sua paz e seu futuro. A violência espreita Amin todo o tempo. Parece introjetada nele, mesmo quando ele se encontra seguro. E a sensação de que o preconceito pode devolvê-lo a seu passado de bestialidades torna esse filmaço ainda mais farpado.
“Como a história de um refugiado acaba por polarizar opiniões, esse filme se tornar político, mas ele foi concebido como a história de um amigo, de quem eu cresci bem próximo, a fim de entender como ele chegou no meu país, num êxodo de si mesmo”, disse Rassumussen ao Estadão, via Whatsapp. “Existe uma universalidade que eu busquei aqui na representação de alguém encontrar um lugar para si onde possa se sentir aceito”.

Um dos aspectos que mais impressionam em “Flee – Nenhum Lugar Para Chamar De Lar” é sua sofisticada direção de arte, que – somada a uma abrasiva mirada política e a um ataque à homofobia – fez o longa sair ovacionado de Sundance. Imagens de um jovem Jean-Claude Van Damme, estilizado, em “O Grande Dragão Branco” (1987), dão um toque de exotismo a um .doc que viaja pelo mundo tentando tentar as violências pelas quais Amin e sua família passaram. A referência ao kickboxer belga vem da paixão de Amin por ele, que vai além da cinefilia, passando pela atração sexual que sentia, já garoto, pelo astro. Uma paixão que o cineasta revela com muita delicadeza. Nada é gratuito no filme. Nada devassa a intimidade de Amin. Ao deixar Cabul, seu berço, às pressas, por conta de uma brutalidade contra seu pai, que custa a ser explicada no filme, ele acaba na Rússia, ainda sob jugo soviético, vivendo sob condições sub-humanas, atrás de dignidade. Só depois, chega à Dinamarca. Nesse meio tempo, ao longo de suas andanças, viu Van Damme aqui e ali na TV, assim como Rasmussen, mas sob focos distintos. De um lado, vemos o desabrochar da sexualidade, a luta pelo reconhecimento de um amor LGBTQ+. Do outro, vemos um pacto respeitoso de alteridade. E vemos, ainda, o desabrochar a animação escandinava com um encantamento singular.

“Alma Viva” foi fotografado com as boas maneiras de Rui Poças

Acerca dos filmes já exibidos em Cannes, desde a inauguração do evento, na terça passada, um título nas raias da fantasia, egresso de Portugal e instalado na latitude da Semana da Crítica, vem desconsertando bem o balneário francês: “Alma Viva”, de Cristèle Alves Meira. É uma espécie de filme de fantasma, num flerte com o sobrenatural (ou com a corrente chamada Extraordinário), na qual uma menina (Lua Michel) vira um canal de carne e osso para sua família, abalada por uma perda, sintonizar fenômenos do Além… ou do vazio. É uma narrativa inquieta, de uma elegância notável na fotografia de Rui Poças, gênio da imagem hoje na Europa, conhecido entre nós por “As Boas Maneiras” (2017) e outros trabalhos exemplares.

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