‘Dentro da Minha Pele’ e da nossa cabeça

‘Dentro da Minha Pele’ e da nossa cabeça

Rodrigo Fonseca

23 de agosto de 2020 | 11h14

As filmagens de “Dentro da Minha Pele”

Rodrigo Fonseca
Prestigiado na ficção por sua delicada visita aos movimentos de resistência à ditadura em “Cabra-Cega” (2004) e conhecido pelo timbre analítico de seus documentários (“O Velho”), Toni Venturi é um diretor bom de trabalho em duo, dividindo-se com outras estéticas, sem perder jamais sua identidade de crítico social, como se viu na parceria com Pablo Georgieff, em “Dia de Festa” (2006) e, mais do que nunca, agora, com a socióloga Val Gomes em “Dentro da Minha Pele”, que estreia hoje no streaming. Cereja do bolo de diversidades cinéfilas que o Globoplay vem se tornando, o longa-metragem dirigido por Val e Venturi é de uma vertigem arrebatadora na ciranda de nove vozes – e alguns arejamentos – pra criar uma forma de jogral antirracismo. É cheio de som e de fúria como o assunto demanda, mas esbanja a tal delicadeza que sempre assina Venturi em sua montagem, inflamando na medida certa as pesquisas de Val. É um estudo sobre racismo estrutural a partir das vivências de quem foi vitimado por ele. Este é o sintoma da segregação que gera experiências de dor mas que produz, como reação, sopros de superação, de resistência e de reinvenção. Entre as histórias contadas no projeto estão a do médico Estefânio Neto, da modelo-performer Rosa Rosa, dos estudantes universitários Wellison Freire e Jennifer Andrade, da funcionária pública e ativista trans Neon Cunha, da trabalhadora doméstica Neide de Sousa, da corretora de imóveis Marcia Gazza, e do casal formado pela professora do ensino público Daniela dos Santos e pelo garçom Cleber dos Santos, que estão à espera do primeiro filho.
“Pra mim o filme tem duas forças motrizes: as histórias das pessoas contadas em primeira pessoa e a outra, assim como a discussão sobre racismo que vem tomando corpo no Brasil, é implicarmos a responsabilidade da pessoa branca nesta sociedade perversa e convidá-la à reflexão”, diz Val, que faz em “Dentro da Minha Pele” sua estreia como realizadora de longas. “Nesse processo de trabalho aprendi muito: a analisar quais são as histórias que tem potencial cinematográfica, o que gera imagem. Aprendi a construir imagens a partir das histórias das pessoas. Conversava com os personagens previamente, anotava suas ações cotidianas e acompanhava essa pessoa durante um dia, vendo o local, observando a luz, o que era passível de filmar ou não. Em posse disso, apresentava para o Toni, discutimos e fazíamos o plano de filmagem”.

Ao longo do documentário, seis pensadores negros enriquecem o debate, com reflexões sobre o racismo no Brasil. São eles: a psicóloga Cida Bento, a escritora Cidinha da Silva, a arquiteta Joice Berth, o dramaturgo e pesquisador José Fernando de Azevedo, o historiador e músico Salloma Salomão e a filósofa Sueli Carneiro. Os depoimentos de três cientistas sociais – o sociólogo Jessé Souza, a psicóloga Lia Vainer Schucman e o tenente-coronel da Polícia Militar Adilson Paes – complementam as entrevistas. Os respiros poéticos durante o filme ficam por conta da música negra contemporânea e do slam de jovens periféricos. Em um ateliê de arte e pintura, as cantoras Bia Ferreira e Doralyce interpretam a canção “Cota não é Esmola”; Chico César apresenta uma nova versão de “Respeitem meus cabelos, Brancos”; Luedji Luna aparece cantando “Iodo”; Thaíde traz o rap “Algo Vai Mudar”; Valéria Houston interpreta o samba “Controversa”; e Anicidi Toledo, junto do Batuque de Umbigada, dançam a umbigada “Luís Gama”. Numa favela do Capão Redondo, os jovens slamers Bione e Barth Viera comparecem com a poesia produzida na periferia da cidade.
“Estamos contentes que uma plataforma popular enxergou numa obra autoral a importância social. Vivemos em bolhas e anos atrás, nos tempos analógicos, estávamos mergulhados em bolhas ainda mais profundas, dentro de nosso meio social, seja ele o da classe média, do rico ou do pobre. Ainda hoje, com internet e intercomunicação digital, os muros invisíveis estão aí, separando as pessoas, segregando geograficamente os cidadãos em classes, clãs e castas”, comemora Venturi, que está com uma série documental de 26 episódios de 55 minutos sobre trupes teatrais nacionais, chamada “Cena Inquieta”, no Sesc TV, com exibição sempre às quintas, às 23h. “Fizemos um mergulho profundo na produção teatral de grupos fora do eixo, fora do mainstream do teatro nacional. Entramos nas favelas, nas comunidades, nos bairros mais longínquos das grandes cidades, atrás da expressão legitima da periferia”.

p.s.: Tem Neville d’Almeida na TV aberta neste fim de noite. Lá pelas 23h50, liga na TV Brasil pra conferir o diretor de “A Dama do Lotação” (1978) dar um show de reflexão estética, como já lhe é peculiar. Ele é um dos convidados na atual temporada da série Atos, produção da TV pública em parceria com a Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), que vai ao ar por volta da meia-noite. Sabatinado por um grupo de estudantes de interpretação, mediados pelo apresentador Bruno Barros, o realizador de cults do cinema nacional fala sobre as dissonâncias da indústria audiovisual no país.

p.s.2: Depois do Neville, liga na Globo e confere o trabalho de Ron Howard relendo Dan Brown em “O Código Da Vinci”, filme de abertura do Festival de Cannes de 2006, com Tom Hanks no papel do simbologista Robert Langdon, dublado por Marco Ribeiro.

p.s.3: Só dá “The Batman” em todos os cafundós da internet, apo show que o DC Fandome deu. “Batman não tem superpoderes. Ele é só super focado. Este filme que preparamos é um thriller de detetive sobre corrupção. Tem algo do cinema dos anos 1970, como ‘Chinatown’, ‘Operação França’. E tem ‘Taxi Driver’, por ser um filme que explora uma cidade e uma psique”, diss Matt Reeves, o realizador do longa ao evento online. E que evento foi, senhoras e senhores. Que evento!

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