‘Dente de Leite’ morde a jugular de Marrakech

‘Dente de Leite’ morde a jugular de Marrakech

Rodrigo Fonseca

01 de dezembro de 2019 | 11h05

RODRIGO FONSECA
Com US$ 3 milhões na mão, o reforço de Ben Mendelsohn (um dos vilões de “Star Wars”, visto em “Rogue One”) e todo o cabedal de preparo de elenco que trouxe do teatro, Shannon Murphy deu ao cinema australiano uma experiência sensorial capaz de entorpecer sentidos e libertar mentes: o soberbo “Babyteeth”. Marrakech caiu de joelhos diante do filme de estreia da jovem cineasta, hoje ligada à série de TV “Killing Eve”. Exibido à imprensa às 8h10 deste domingo, no 18. Festival de Marrakech, o longa-metragem integra a seleção de homenagem aos maiores talentos do audiovisual australiano (como George Miller, Gillian Armstrong e Bruce Beresford), incluindo novas estrelas, como a bem-humorada realizadora que fez o Marrocos chorar. Ela pôs seu filmaço não só no bloco de homenagens a seu país, como na competição oficial da cidade, que tem o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”) como jurado. Há um mês, o longa foi exibido na Mostra de SP (de onde saiu laureado com o prêmio de melhor ficção) sob o título “Dente de leite”. Indicada ao Leão de Ouro, Shannon saiu de Veneza coroada de elogios, carregando para casa o Troféu Marcello Mastroianni de melhor ator iniciante, confiado a Toby Wallace.
“Eu tenho como protagonista deste roteiro que Rita Kalnejais escreveu pra mim uma jovem com câncer que vive num casulo de afeto sufocante erguido por seus pais a fim de resguardar sua sobrevivência. Mas a menina que Milla é está virando mulher, descobrindo seus desejos, e precisa furar os bloqueios”, disse Shannon ao P de Pop, em Marrakech. “Tenho, portanto, uma história dura, triste, que tentei temperar com tiradas cômicas, pois nos momentos de maior sofrimento, somos cercados pelas tiradas mais irônicas que podemos extrair”.

No primeiro plano do longa de Shannon, o tal dente de leite do título é mergulhado num corpo d’água, numa simbologia que alguns enxergam como morte e, outros, como um rito de passagem. “É a metáfora de tudo o que se passa com Milla num mundo de pessoas tomadas pela ansiedade”, diz a diretora, que escalou Mendelsohn para viver o pai de Milla, um dedicado psicanalista cheio de desejo pela vizinha.

Vivida pela atriz Eliza Scanlen em um autodesapego de vaidade assombroso, Milla está no auge de sua doença, fazendo quimioterapia, quando se apaixona por Moses (papel de Toby), um pequeno traficante de drogas. Com o amor, a jovem retoma a vontade de viver, mas, aos poucos, vai deixando de lado os valores tradicionais e a moralidade. Ela começa a mostrar a todos ao seu redor —os pais, Moses, uma vizinha que está grávida, mas que fuma feito chaminé — como é viver sem ter nada a perder. O novo comportamento de Milla poderia ser um desastre para a família. No entanto, em vez disso, ela dá a todos uma lição de como ver graça no caos da vida.

“Não cresci vendo filmes e, sim, assistindo a peças de teatro. Conheço mais o cinema australiano feito nos últimos dez anos do que a tradição, embora tenha visto alguns de nossos clássicos e esteja feliz de estar com os mestres aqui. Mas para fazer “Dente de leite”, eu usei “Ondas do Destino”, de Lars von Trier, como meu referencial, usando a atuação de Emily Watson para forçar a quebra da quarta parede cênica, botando Milla a olhar para a câmera, como se compartilhasse conosco suas vitórias”, diz Shannon, que arrebata nossos sentidos com uma fotografia de saturados tons de azul, amarelo e púrpura. “Cresci em Hong Kong, uma cidade onde o neon é a estética vigente, onde o barulho impera”.

Não por acaso, a engenharia de som o longa valoriza a natureza que cerca o processo de amadurecimento de Milla. “Filmamos em fevereiro, quando Sydney, é assolado pelo calor e os insetos e pássaros estão no pico de seus cantos, zumbidos e trinados”, diz a cineasta. “Captamos o som como se fosse um documentário, ou seja, deixando os ruídos todos vazarem, como um signo de vida”.
Nesta segunda,o evento do dia em Marrakech é a palestra de Harvey Keitel, num papo do octogenário ator nova-iorquino sobre sua trajetória nas telas com Martin Scorsese, coroada agora com o cult “O Irlandês”. Na terça, o temido Jeremy Thomas, produtor de Takashi Miike (“13 Assassinos”, “First Love”), vem a Marrakech falar da esperada versão de “Pinóquio”, capitaneada por Matteo Garrone, prevista para estrear no Natal, com Roberto Benigni (“A vida é bela”) no papel de Gepetto. “Investir em Miike é apostar na artesania, na excelência narrativa em prol de um tipo de entretenimento que ressalta valores culturais. Apostar em outras línguas, na produção, é quebrar barreiras a partir da língua do cinema”, disse Thomas ao P de Pop, em Cannes, onde o mais recente filme de Takashi foi ovacionado com o status de obra-prima.

Nesta sexta, Marrakech confere, na disputa por prêmios, o aclamado “A Febre”, único de seus 14 longas concorrentes a prêmios falado em português, com CEP brasileiro. Revelado em Locarno, este drama de tintas extraordinárias da carioca Maya Da-Rin, que venceu o Festival de Brasília, no sábado, narra o cotidiano de um índio que é vigia do cais do porto de Manaus, Justino. Vivido por Regis Myrupu, ele sofre com um estado febril inexplicável, que lhe acomete em paralelo à aparição de um animal exótico na vizinhança por onde circula. No mesmo dia, 6 de dezembro, Robert Redford vem ao Marrocos receber um troféu honorário pelo conjunto de sua carreira. Sábado, a maratona cinéfila dos marroquinos chega ao fim, com a cerimônia de premiação.

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