Dennis Pinheiro leva Locarno na garupa da bike

Dennis Pinheiro leva Locarno na garupa da bike

Rodrigo Fonseca

02 de agosto de 2021 | 12h44

Dennis Pinheiro é um entregador de comida que pedala nos quebra-molas da pandemia em “Fantasma Neon”

Rodrigo Fonseca
Entregadores de comida, centauros de bike ou de motoca, passaram a ocupar cada vez mais espaço em nossa sociedade com as quarentenas e lockdowns impostos pela pandemia, dando uma dimensão sobre rodas à geografia humana do presente, em rotas que, por vezes, quicam no quebra-molas da tragédia e, ora, no quebra-molas do musical, como é o caso de “Fantasma Neon”, um dos filmes brasileiros que disputarão prêmios no 74º Festival de Locarno. A Suíça é a sede do evento, que vai ser aberto pelo thriller “Beckett”, do diretor milanês Ferdinando Cito Filomarino, com John David Washington a enfrentar perigo na Grécia, numa trama produzida pelo carioca Rodrigo Teixeira (de “A Vida Invisível”), com lançamento já assegurado via Netflix. Nela, entre os longas-metragens, concorrem sci-fis sobre UFOs (o espanhol “Espíritu sagrado”), comédias contra homofobia (“Cop Secret”), melodramas familiares (“Petite Solange”, de Axelle Ropert), suspenses sobre conspirações (“Zero and Ones”, de Abel Ferrara) e fantasias, caso do esperadíssimo “Paradis sale”, de Bertrand Mandico, diretor francês que virou queridinho da revista “Cahiers du Cinéma” com “Os Garotos Selvagens” (2017). O Brasil entra em campo, em concurso, só com curtas. Tem “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis, curador da Mostra de Tiradentes, e tem o “Fantasma…”, que é dirigido por Leonardo Martinelli, e tem em seu elenco um jovem talento em ascensão: Dennis Pinheiro. Mineiro de Aimorés, o ator de 32 anos é um dos destaques da atual trupe de astros de musicais do teatro nacional, que, agora, sai dos palcos para experimentar o sabor do protagonismo na telona. E, ao lado dele, está Silvero Pereira, o Lunga de “Bacurau” (2019).
“O fato do curta ser musical, tendo a história que tem, já é fantasmagórico por si só. O filme é uma tragédia fictícia, cantada e dançada. A vida está aí, seguindo firme e cruel pra nos lembrar que não basta só sonhar e que existem N fatores que determinam um final feliz ou não”, diz Dennis, que chamou a atenção dos críticos teatrais em sua participação em “Yank!”, de 2017, sobre a presença LGBTQ+ nas Forças Armadas dos EUA durante a II Guerra. “O espetáculo ‘S’imbora, O Musical – A história de Wilson Simonal’ foi meu primeiro trabalho profissional, quando me mudei de Aimorés pro Rio, em meados dos anos 2000. Eu era um recém-chegado à cidade também, e passei nas audições. Como era de se esperar, eu era muito cru em vários sentidos. Dei trabalho pro Pedro Brício, que era o diretor do musical… Depois do ‘Simonal’, eu tive a oportunidade de trabalhar com muita gente incrível, gente que faz parte da história do teatro nacional, e, em conjunto com minha formação profissional, eu pude amadurecer bastante. De lá pra cá foram várias audições, audições internacionais, muito ‘Não!’ na cara, alguns ‘Sim!’, alguns convites, um curta que chega a Locarno… Isso vai nos fortalecendo”.

Orgulhosa (com toda a razão) de ser a primeira escola pública de Teatro do país, a Martins Penna, no Centro do Rio, teve Dennis como aluno. Na sequência, ele formou-se pela Faculdade da CAL. Em meio a essa graduação, ele foi parar na Casa da Maceió, um polo de estudo em São Cristóvão, conduzido pela enfermeira Janayna Lázaro e o percussionista e modelo Alexandre Fão, que acolhe jovens atrizes e atores de todo o país. Lá, artistas de prestígio como a cantora trans Blackyva, as atrizes Simone Kalil e Jéssica Freitas e o ator e diretor Daniel Chagas trocam suas experiências com jovens talentos, sempre celebrando a diversidade cultural e religiosa de origem africana. Ali, em confluência com talentos do Brasil todo, sob os ensinamentos de Janayna da representação das mitologias d’África, ele afiou seu talento, testado e aprovado em 13 pelas, como “Merlin e Arthur” e “Elizeth, a Divina”.
“Ainda vivemos numa sociedade racista, com um racismo estrutural muito enraizado, e isso se reflete no audiovisual. Eu fiz uma oficina com o Lázaro Ramos, só com artistas negros, e uma questão levantada entre nós, oficineiros, foi que, quando um roteiro chega pra ser gravado, provavelmente nele terá a indicação: família rica do Leblon. Porque o casting automaticamente escala só atores e atrizes brancos pra representar essa família? Qual seria o estranhamento em ver uma família negra e rica numa novela, por exemplo? Então sim, ainda existe muito preconceito na forma como o ator e a atriz negros são escalados pra um trabalho”, reclama Dennis, que encarna o ciclista João em “Fantasma Neon”. “Meu maior desafio nesse filme, com certeza, foi a linguagem cinematográfica, pois eu entendo tanto de atuação para cinema quanto de Física Nuclear. Minha formação e experiência é com palco. Eu canto há mais tempo do que sou ator, e a dança entrou aos poucos, com a necessidade para trabalhar com musicais. Já com câmera, não tinha experiencia. Fiz algumas participações em novelas da Globo e só. Quando começamos a rodar o filme, o Leo queria me mostrar as cenas recém-gravadas, e eu falei que não queria assistir, pois eu ia começar a achar tudo ruim, péssimo, canastrão, e com certeza isso iria me atrapalhar no restante do filme. Então eu falei com ele: ‘Confio no que você falar: se tiver bom pra você, tá bom pra mim’. E deu certo. Nós estamos em Locarno”.

Cena de “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis, outra presença brasileira no festival suíço

Realizador do curtas “O Prazer de Matar Insetos”, que será exibido nesta quinta na Première Brasil do Festival do Rio, Leonardo Martinelli imprime em “Fantasma Neon” uma elegância que evoca “Os Guarda-Chuvas do Amor” (1964), de Jacques Demy, que reinventou a estética dos musicais, dando ao gênero uma tônica social. “O cinema, em especial o cinema musical, é uma arte essencialmente multidisciplinar”, explica o diretor. “Protagonizar um filme como ‘Fantasma Neon’ seria um desafio pra qualquer ator, pois exige não só uma delicadeza na dramaturgia, mas também uma sensibilidade para expressar essa dramaturgia através do canto e da dança simultaneamente. Tudo isso com uma mochila de entregador nas costas. Dessa forma, a potência do Dennis vai além da atuação, e entra no espaço de um artista multidisciplinar. O seu alcance cênico permitiu explorarmos diversos caminhos que só a linguagem do musical, com o ator certo, poderia nos trazer”.

Quando a turnê de “Merlin e Arthur” foi cancelada, por conta da pandemia, Dennis ficou com um tempo ocioso e resolveu fazer o curso de musicais da CAL, pra poder dar uma reciclada em alguns fundamentos da linguagem. Martinelli foi assistir à apresentação final de curso dele e se encantou por seu trabalho. “Em meio ao processo do curta, eu aprendi que dar cinco estrelas pra alguém que trabalha de entregador é o mínimo”, diz Dennis. “Essa galera trabalha de sol a sol, de segunda a segunda, em jornadas de trabalho desumanas, sob condições absurdas, correndo risco de vida o tempo todo. Enquanto uma boa parte da população ficou em casa, de quarentena, eles estavam nas ruas expostos ao vírus, expondo seus familiares. Cada vez que nós pedimos uma comida, toda bonitinha e quentinha, tem alguém na rua pra trazer o prato pra gente. E, muitas vezes, esse alguém é esculachado porque não veio o molho tártaro, e a culpa não é nem de quem entrega, é do restaurante. Eu sempre tive muita empatia por todo tipo de trabalhador, mas conhecer de perto essa galera, fez com que eu visse o quanto o buraco social é muito mais embaixo”.
“Fantasma Neon” e “A Máquina Infernal” vão ser avaliados em Locarno por um júri composto pelo diretor palestino Kamal Aljafari, a produtora francesa Marie-Pierre Macia e a artista plástica e cineasta romena Adina Pintilie. Já o júri de longas pela diretora americana Eliza Hittman, incluindo os cineastas Kevin Jerome Everson (EUA) e Philippe Lacôte (Costa do Marfim) e as atrizes Leonor Silveira (Portugal) e Isabella Ferrari. Fora das seções competitivas, a Piazza Grande, a praça principal de Locarno, como “Free Guy”, com Ryan Reynolds (o Deadpool) num mundo de videogame; o thriller “Ida Red”, de John Swab, com Melissa Leo controlando uma organização criminosa da prisão; e “Respect”, de Liesl Tommy, com Jennifer Hudson vivendo a cantora Aretha Franklin. O festival vai até o dia 14.

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