‘Demônio de Neon’ assombra o Estação Barra Point

‘Demônio de Neon’ assombra o Estação Barra Point

Rodrigo Fonseca

28 Dezembro 2016 | 08h51

77 The Neon Demon Demônio de Neon
RODRIGO FONSECA
Houve muita injustiça no cinema 2016: filmes de inquietação estética que exigem reflexão na digestão acabaram esnobados. Uma das vítimas – a mais abusada delas – a se lamentar foi o thriller Demônio de Neon (The Neon Demon), que ganha uma sobrevida a partir do início do Ano Novo, no circuito carioca. Noa dia 3 de janeiro, às 18h, ele será exibido na seleção de repescagens do Estação Net Barra Point.

Artífice do pop e também da polêmica, o dinamarquês Nicolas Winding Refn cultiva o esporte da autoiconoclastia como um meio de se imunizar de rótulos. Da projeção internacional nos anos 1990 com a franquia Pusher até o fenômeno de crítica Drive (2011), pelo qual ele foi eleito melhor diretor no Festival de Cannes, seu empenho em atomizar as certezas em torno de suas escolhas estéticas vem sendo uma bússola a partir da qual ele faz da provocação uma marcar registrada. E “provocar” é um verbo cujo complemento mais direto costuma ser “repúdio” ou “indignação”, dois substantivos que, em forma de vaias, monopolizaram a passagem de seu longa mais recente pela Croisette. A pulsão visual que fez dele uma exceção de talento – mesmo no fértil canteiro escandinavo – está lá em Demônio de Neon, em sua fervura máxima, mas a dramaturgia passa por um ralador (o da arrogância) que banaliza a vitalidade desta reflexão sobre a violência do mundo da moda.

Há necrofilia, canibalismo, litros de sangue e muita – mas muita mesmo – nudez feminina neste puzzle sensorial sobre os infortúnios de uma modelo em um contexto social distinto do seu local de berço. E, como se tratava da tentativa (o melhor seria dizer “esboço”) de fazer um filme de terror, vemos uma aposta radical na estética gore (sangue e tripas), revisitada a partir de um excesso de experimentação formal, na qual sobra um solo impagável para Keanu Reeves, o Neo de Matrix (1999-2003).

Elle Fanning é a modelo acossada pelas tentações e pelos perigos do mundo da moda

Elle Fanning é a modelo acossada pelas tentações e pelos perigos do mundo da moda no longa de Winding Refn

Responsável por espetáculos (reflexivos) de brutalidade como Bronson (2008) e O Guerreiro Silencioso (2009), Refn viu seu cacife na indústria audiovisual crescer com os 73 prêmios conquistados por Drive, assim como cresceu seu rol de antipatizantes por seu desapego às expectativas dos exibidores e às demandas de distribuidores. Seu longa anterior, o brilhante Apenas Deus Perdoa (2013), também foi destroçado pelos críticos, avessos às cartilhas de gênero. De uma certa forma, Demônio de Neon (The Neon Demon) é uma reação dele à vaidade intelectual, encarnada aqui no mundo da moda. Elle Fanning vive Jessie, uma jovem modelo, virgem, de apenas 18 anos, que vai para Los Angeles tentar a sorte profissional nas passarelas. Lá, ela é devorada (em muitos sentidos) por um universo de estranheza.

Mulheres de libidos misteriosas, um fashionita cheio de fogo (Alessandro Nivola, em hilária atuação) e uma vilã para fazer jus aos grandes psicopatas do cinema – Ruby, vivida com esplendor pela sensual Jena Malone – cruzam o caminho de Jessie numa trama alinhada com o suspense gore. Sangrento e erótico, o filme evoca referências de David Lynch (em Mulholand Drive) e Brian De Palma (em Femme Fatale e Dublê de Corpo), fazendo alusão direta ao injustiçado Sob a Pele (2013), com Scarlett Johansson. Reeves tem presença curta, numa cena da qual não se deve falar para evitar spoillers. O charme é inegável. E os personagens têm solidez.