Debate sobre conexões latinas agita o streaming

Debate sobre conexões latinas agita o streaming

Rodrigo Fonseca

13 de novembro de 2021 | 12h24

RODRIGO FONSECA
Lotado de diretores autores das mais variadas nacionalidades (Alice Rohrwacher, Spike Lee, Bong Joon Ho) e bem resolvido com indústrias europeias, com séries como “Lupin”, “Borgen”, “Marselha” e a lusitana “Glória”, a Netflix vem fazendo um esforço louvável para ressaltar a potência das produções latinas, a reboque de sucessos de atrações locais, seja na forma de filmes (como o nosso “Tudo Bem No Natal Que Vem”, com Leandro Hassum) e seriados (“Bom Dia, Verônica”). No último dia 3, a plataforma desenvolveu um painel dedicado a latinidades mobilizando três talentos de nosso continente. Entraram no debate a cineasta peruana Claudia Llosa (em cartaz na streaminguesfera com “O Fio Invisível”), o diretor brasileiro Alexandre Moratto – que lançou esta semana o memorável “7 Prisioneiros”, aclamado em Veneza, sobretudo pelo desempenho de Rodrigo Santoro – e o também realizador Alonso Ruizpalacios, do México, laureado com o Prêmio de Melhor Contribuição Artística, na última Berlinale, em março, pela montagem de seu documentário “Um Filme De Policiais”. Esse último é o único exemplar da não ficção desse evento online, que abordou discussões nevrálgicas da Pangeia íbero-hispânica.
“Queria fazer um filme que tivesse impacto social e que mostrasse a realidade do México. É um documentário que começamos a fazer há cerca de quatro anos. Eu tinha que fazer algo que me fizesse ou que me desse a ilusão de ser útil. Nas pesquisas, sobre a polícia, nós encontramos dois personagens que são tão complexos e tão… tão mexicanos”, disse Ruizpalacios no painel, referindo-se à escalação da atriz Mónica Del Carmen e do ator Raúl Briones para traduzirem a rotina da formação e da prática policial.
Apoiado no talento dessa dupla, Ruizpalacios promove uma triagem da luta pela justiça em um país marcado pela corrupção, numa estrutura dramatúrgica cartográfica premiada, na última Berlinale, em março, com o troféu de Melhor Contribuição Artística na fase 1 de Berlim, dado ao trabalho de montagem de Yibrán Asuad. Trabalho esse que conversa com tendências continentais.

“Um filme de policiais”: prêmio de melhor montagem na Berlinale

Há um recorrente interesse no cinema latino-americano documental por filmes sobre vocações profissionais, ou seja, os interesses que levam uma pessoa a escolher uma carreira e fazer dela o eixo de sua vida. Foi o que se viu em “El Brigadista” (1968), de Octavio Cortázar, ao falar de alfabetizadores; em “O Chamado de Deus” (2001), de José Joffily, sobre seminaristas; “PQD” (2007), de Guilherme Coelho, sobre a brigada paraquedista; e “A Gente” (2013), de Aly Muritiba, sobre carcereiros. São longas que colhem vivências sobre o dia a dia de um ofício que, para alguns, são atividades corriqueiras funcionais de uma cidade (grande ou pequena), e, para outros, são um ganha-pão nas margens do risco. Essa última palavra serve como bússola pra investigação trabalhista feita por Ruizpalacios em “Uma Película de Policias” (título original do projeto, também chamado de “A Cop Movie”). Não há um segundo só em que a edição feita por Asuad perca o ritmo, surpreendendo o espectador no engenho formal de trançar realidade, encenação, depoimento e triagem da geografia onde se instaura. É um engenho narrativo coerente com a conexão histórica que Ruizpalacios estabelece com vários docs. vocacionais de seu continente ao vasculhar o universo de policiais.
Ao utilizar Mónica Del Carmen e Raúl, a fim de poder simular a rotina de quem ganha a vida patrulhando as ruas da Cidade do México, “Um Filme De Policiais” se aproxima de um formato que a TV, na seara do reality show, explorou bem em “Steven Seagal: Lawman”. Era uma série dos anos 2000 que aproveitava o astro de “Nico” (1988) para testemunhar (na pele) o ônus de se usar uma farda e um distintivo numa instância onde tiros não são de festim, como em Hollywood. Logo, não há originalidade na longa de Ruizpalacios, não apenas no plano temático como no plano formal, em seu dispositivo. O procedimento adotado por ele, do relato, vem sendo usado nas telas latinas com recorrência e refinamento pelo já citado José Joffily, em “Vocação do Poder” (de 2005, feito em duo com Eduardo Escorel), sobre vereadores, e em “Soldado Estrangeiro” (de 2019, codirigido por Pedro Rossi), sobre legionários. Joffily não chega a encenar os desabafos e os dados que colhe. Mas sempre promove uma radiografia afetiva de seus “personagens”. Ruizpalacios faz o mesmo: quer as vísceras emocionais da quem opta pela polícia, ciente de que ela não tem o charme que os filmes hollywoodianos sugerem.
“Adoro ver filmes na tela grande. Acabamos de estrear meu filme em São Francisco e é uma enorme diferença ver um filme na tela grande, pois é um ritual, no qual você investe tempo e energia, e é também uma experiência compartilhada”, disse Ruizpalacios em uma reflexão compartilhada por Claudia e Moratto sobre a experiência de imersão nos streamings, como a Netflix. “Acho que essa vivência nunca vai desaparecer, mas, ao mesmo tempo, sinto que o streaming também pode ser uma bênção, por permitir que muita gente possa assistir ao seu filme ao mesmo tempo. Às vezes cometemos o erro de pensar que o streaming vai matar o cinema e não acho que seja esse o caso”.

Ruizpalacios surpreendeu Berlim, em 2018, com “Museu”

Em 2018, Ruizpalacios despertou atenções e arrancou elogios do planisfério cinéfilo ao exibir “Museu”, na Berlinale, saindo da capital alemã com o prêmio de melhor roteiro por uma trama protagonizada por Gael García Bernal. O astro vive jovem Juan, funcionário do Museu Nacional de Antropologia, na Cidade do México, que na noite de Natal de 1985, resolve roubar artefatos raros de civilizações ameríndias para vendê-los no mercado negro, em Acapulco. Mas não há maldade nem real cobiça em suas ações, apenas vazio existencial. Só que o crime entrou para os anais policiais da América Latina.
“O aspecto mais espantoso e, de certa forma frustrante, da história deste roubo, é que foi uma aventura de dois jovens sem a menor noção do que estavam fazendo e não um elaborado plano de uma quadrilha armada”, explicou Ruizpalacios ao Estadão, em Berlim, explicando como evocou a memória do cinema B do México e da TV de seu país em uma discussão sobre valores nacionais capaz de incluir até menção ao programa humorístico Chaves. “Como os parentes dos envolvidos no roubo não quiseram se envolver no filme, tivemos licença para criar Juan com total liberdade e, a partir de suas crenças sobre os valores típicos de sua pátria, inclusive as estaturas ameríndias, ele nos abre precedente para debater identidade nacional”.

Esse painel da Netflix ajudou a catapultar “O Fio Invisível” para a consagração. De uma tensão crescente, o longa de Llosa, chamado de “Distancia de Rescate” em espanhol, assim como o romance homônimo de Samanta Schweblin do qual é derivado, fala da relação que se estabelece entre duas mulheres, Amanda (María) e Carola (Dolores, em sublime composição da perplexidade). As suas são mães, têm relações com homens de rala presença e se embrenham numa região rural em que o uso de pesticidas envenena alimentos do dia a dia. Sem muita explicação, intui-se que um agrotóxico condenou o filho de Carola à morte, mas este acabou salvo em um ritual pagão. Ponha aspas aí nesse “salvo”, pois só temos a casca de seu corpo. Sua alma quer um nosso ser que a hospede. Daí, uma série de situações inusitadas (como brutais atitudes do menino e pesadelos muito realistas) vão acontecendo com as duas.
“Tenho a sensação de que estamos conectados pelo sentimento da experiência da latinidade, que, em parte, inclui a cultura e a política. É a forma como entendemos uma espécie de pensamento mágico nos cerca em nossa vida diária”, disse Claudia Llosa, agraciada com o Urso de Ouro, em 2009, por “A Teta Assustada”.

Revelado em 2018 com “Sócrates” (um sucesso internacional), Alexandre Moratto imprime brasilidade em cada plano que roda, embora tenha feito sua formação no exterior. Seu tenso “7 Prisioneiros” arrebatou o Festival de Veneza com uma denúncia sobre o trabalho escravo no Brasil contemporâneo, que faz de um ferro-velho de São Paulo um microcosmos para a submissão. Rodrigo Santoro esbanja talento no papel de Luca, o gerente desse espaço para onde vão jovens cheios de sonhos de prosperidade, como Mateus (Christian Malheiros), um alvo dessa máquina de moer esperanças.
“Gosto de ver filmes brasileiros no exterior. Por viver entre o Brasil e os EUA, eu me vejo como um diretor internacional”, disse Moratto, que arranca de Santoro sua mais vibrante atuação desde “Abril Despedaçado” (2001). “Acho que o aspecto social do cinema latino-americano está presente na cultura e acho que é o que dizia o diretor Hector Babenco: ‘só de ligar a câmera você está, imediatamente, capturando algo que você não vê em nenhum outro lugar do mundo’. Eu vejo isso também em outros filmes latino-americanos”.

p.s.: Escrito pela estreante Beatriz Malcher durante as atividades da 6ª turma do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI, o drama “Onde está Liz dos Santos?”, que estreia em 19 de novembro no Teatro Firjan SESI Centro, reflete sobre as relações de poder nas sociedades autoritárias e a memória e força das vítimas nas narrativas históricas. Com direção de Tatiana Tiburcio, o espetáculo se desenrola em uma cidade dominada por um grupo de milicianos, onde a posse de armas está liberada. Maria das Graças busca sua filha, Liz, que desapareceu após ser levada à delegacia local. A busca expõe uma trama de violência que envolve o Estado, a alta burguesia agrária e a igreja. Paralelamente, o pastor da cidade se confronta com o seu papel ambíguo neste cenário. Para escrever a dramaturgia, a autora se inspirou em entrevistas que leu com pessoas que moram em zonas de milícia. No elenco, estão Anderson Guimarães, Clarissa Menezes, Fernanda Dias, João Mabial, Julio Wenceslau e Luciana Lopes. “Li bastante sobre milícia nos últimos meses para construir a trama, mas a peça parte de um ambiente dominado por esse grupo para refletir sobre as posturas autoritárias, violentas e fascistas que fazem parte da história do Brasil e do mundo. De tempos em tempos, essas posturas ficam mais afloradas”, avalia Beatriz.

p.s.2: No dia 31 de dezembro, a Cinemateca Francesa vai projetar o thriller “Stallone Cobra” (1986), em 70mm, consagrando o legado do diretor greco-italiano George Pan Cosmatos (1941-2005).

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