Dea Kulumbegashvili preside júri de Donostia

Dea Kulumbegashvili preside júri de Donostia

Rodrigo Fonseca

05 de setembro de 2021 | 10h19

Dea Kulumbegashvili em San Sebastián, em 2021, na estreia de “Beginning” (“Dasatskisi”), em clique de @Alex Abril

RODRIGO FONSECA
Cerca de um ano depois de ter levado para a Geórgia uma das mais prestigiadas honrarias do cinema mundial, a Concha de Ouro de San Sebastián, pelo arrebatador drama “Beginning” (“Dasatskisi”), a diretora Dea Kulumbegashvili, de 35 anos, vai regressar ao festival espanhol para presidir o júri de sua 69ª edição, agendada de 17 a 25 de setembro. Integram o corpo de jurados a diretora chilena Maite Alberdi; a roteirista e diretora franco-libanesa Audrey Diwan; a atriz espanhola Susi Sánchez; e o produtor americano Ted Hope. Integrante do G7 dos grandes festivais, ao lado de Roterdã, Berlim, Cannes, Locrano, Toronto e Veneza, Donostia (o nome da cidade de San Sebastián em Euskara, o ancestral idioma local, falada ao lado da língua espanhola) terá “One Second”, do chinês Zhang Yimou, como longa-metragem de abertura, em competição pela Concha de Ouro de 2021. Integram a seleção competitiva montada por José Luis Rebordinos, o diretor artístico do evento, um time de realizadoras e realizadores classe, incluindo o ganhador da Palma dourada de 2008, o francês Laurent Cantet, e a ganhadora do Urso dourado de 2009, Claudia Llosa. Ele volta à luta com “Arthur Rambo”, sobre um poeta e escritor obrigado a lidar com as consequências de uma mensagem de ódio nas redes sociais. Ela regressa com “Distancia de Rescate”, uma releitura da literatura de Samanta Schweblin, mesclando narrativas de fantasmas à história do calvário de uma mulher. Ao lado deles, há o veteraníssimo Terence Davies, que concorre agora com “Benediction”, sobre um poeta antibelicista. Estão ainda em concurso: “Maixabel”, de Iciar Bollaín (sobre os conflitos com o terrorismo do ETA); “El buen patrón”, uma nova reflexão marxista de Fernando León de Aranoa (de “Segundas-feiras ao Sol”), com Javier Bardem; o terror “La Abuela”, do mestre do assombro Paco Plaza; e “Quién lo impede”, de Jonás Trueba, que traz uma reflexão sobre a juventude europeia hoje.
“Estamos vivendo um processo de mudança histórica no cinema, que foi acelerado depois da pandemia, com a migração das vitrines principais para os streamings, mas ainda buscamos ver nossos filmes na dimensão agigantada de uma tela como a do Kursaal, em San Sebastián, onde eu pude ver ‘Beginning’ projetado e perceber camadas estéticas novas nele, na troca com o público”, disse Dea ao Estadão, em entrevista via Zoom, quando lançou seu filmaço na MUBI.

Chancelado com o selo de Cannes e tratado como obra-prima em sua passagem pelos festivais de Toronto – onde recebeu o Prêmio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica – e de San Sebastián – do qual saiu com a Concha de Ouro e os troféus de melhor direção e de melhor roteiro -, “Beginning” transformou a estreante em longas em uma sensação na seara autoral do cinema. Não por acaso, a plataforma digital que mais aposta em narrativas de risco estético, o www.mubi.com – pautada por uma curadoria coalhada de títulos experimentais, indo de Agnès Varda a Jia Zhangke -, resolveu apostar na potência desse estudo sobre resiliência feminina, e lança-lo, via web, com exclusividade. A Geórgia, seu lar, é reconhecida no audiovisual por ter cineastas autorais como Mikhail Kalatozov, ganhador da Palma de Ouro, em 1958, por “Quando Voam as Cegonhas”; e Serguei Paradjanov, do premiado “A Lenda da Fortaleza Suram”. Tendo só curtas em seu currículo como realizadora, ela recebeu o prêmio máximo de San Sebastián por seu exótico estudo da luta de uma mulher para não ser esmagada pela vaidade e pela libido dos homens. Presidente do júri do evento espanhol, o cineasta italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”) definiu o drama pilotado por ela – cujo foco é uma comunidade de Testemunhas de Jeová – como sendo “uma revelação, uma experiência cinemática das mais autênticas”. As vitórias levaram a realizadora a integrar o júri da versão pocket de Cannes, realizada em outubro, onde só premiaram curtas.
“Queria falar da opressão feminina sem necessariamente estetizar uma comunidade religiosa, até porque, durante o regime comunista, a situação dos evangélicos em terras eslavas era a de um perfil estranho ao regime. Eu queria retratar uma pessoa que ficou rotulada em sua sociedade como ‘a esposa do pastor’, e nada mais. Perceber que as mulheres possam ser esnobadas assim me traz raiva e me abre a necessidade de querer retratar essa pessoa por um prisma não convencional. Queria entender seus conflitos, buscar sua voz”, disse Dea, numa referência à sua protagonista, Yana, papel que deu mais um prêmio a “Beginning”, na Espanha: o troféu de melhor atriz, confiado a Ia Sukhitashvili. “A vida em sociedade, tal qual ela deveria ser, para alcançar alguma harmonia, pressupõe que olhemos para o próximo. O que eu tento nesse filme é levar a plateia a olhar pra Yana e entender quem ela é”.

Na trama escrita por Dea e Rati Oneli, coproduzida pelo realizador mexicano Carlos Reygadas (de “Luz Silenciosa”), Yana é uma atriz que não teve sucesso em sua carreira nos palcos – ou não teve chances de apostar no teatro, com a liberdade necessária. Longe do teatro, ela casou com um sacerdote e teve um filho, que está à beira de adolescer. O templo deles, na cidade de Lagodekhi, é incendiado por coquetéis Molotov nos primeiros minutos de “Beginning”, em um dos planos longuíssimos onde a câmera pouco se mexe, deixando personagens importantes fora de quadro, para entender as reações de Yana à brutalidade que lhe imposta por múltiplos homens, alheios a seus sentimentos. “Não queria uma noção corriqueira de Bem e de Mal para entrar nesse mundo. Cada personagem tem uma dor interna, mesmo aqueles que explicitamente associamos a uma ideia de maldade”, diz Dea, que conversou com Reygadas, vencedor do prêmio de direção em Cannes, em 2012, por “Post Tenebras Lux”, acerca de suas escolhas narrativas, consideradas radicais. “Carlos me fez ver que o ponto central do filme não é a forma, nem a estilização, mas, sim, a atenção à condição humana”.

Situada na Eurásia, na região do Cáucaso, com 69.700 km² e 3,7 milhões de habitantes, a Geórgia viu, em seus dias de integrante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), uma outra mulher cineasta atrair as atenções da cinefilia global: Nutsa Gogoberidze (1902-1966), conhecida por longas como “Bulba” (1930). Dea não se vê como parte dessa tradição, não por desdém ao passado, mas por enxergar que o cinema de sua pátria goza de pluralidade. Conhecida em festivais pelos curtas-metragens “Invisible Spaces” (2014) e “Léthé” (2016), ela diz que seus conterrâneos têm autonomia política e meios para expressarem suas ideias com absoluta liberdade. O desafio da cineasta agora é fazer uma triagem das liberdades tomadas e lapidadas pelas vozes que estão em disputa pela Concha de Donostia.

Cena do templo incendiado em “Dasatskisi”, hoje na MUBI

p.s.: Ganhador do Leopardo de Ouro de melhor curta em Locarno, “Fantasma Neon”, musical de Leonardo Martinelli, sobre a rotina dos entregadores de comida no Rio de Janeiro, vai estar em concurso em San Sebastián. No longa, João (Dennis Pinheiro, em devastadora atuação) vai lutar por sua sobrevivência sobre o selim de sua bicicleta.

p.s.2: O projeto Niterói em Cena RESISTE!, que tem o objetivo de fomentar a produção artística na pandemia e pós-pandemia, lança o Programa de Capacitação em Teatro Virtual, que terá inscrições abertas a profissionais de teatro de todo o país de 6 a 22 de setembro. O curso, que vai apresentar possibilidades artísticas e ferramentas do teatro online durante quatro meses, contará com aula dos diretores Juracy de Oliveira, Miwa Yanagizawa, Rodolfo García Vázquez e da atriz e publicitária Letícia Leiva. Serão oferecidas 30 vagas, sendo 10 para residentes de Niterói e 20 para moradores das demais cidades do Brasil, com bolsas equivalentes a 340 euros (valor total) por aluno. No fim do período, obras criadas pelos alunos farão parte de um festival de teatro virtual, em janeiro de 2022. Serão realizadas três lives no canal do Youtube do Niterói em Cena (dias 06, 14 e 21/09, às 20h) para mais informações. O regulamento completo e o resultado serão publicados em www.niteroiemcena.com.br. O projeto é patrocinado com recursos do Fundo Internacional de Ajuda para Organizações de Cultura e Educação 2021 do Ministério das Relações Exteriores da República Federal da Alemanha, do Goethe-Institut e de outros parceiros (www.goethe.de/hilfsfonds). “O Niterói em Cena tem em seu DNA a preocupação com o desenvolvimento artístico de atores, novos diretores e técnicos teatrais. Esta nova experiência de formação vai fazer com que ampliemos nossos esforços na capacitação de artistas mais sensíveis e atuantes. Para isso, escolhemos profissionais gabaritados, com experiências bem-sucedidas no teatro virtual”, observa o diretor do projeto, Fabio Fortes, que também assina a direção do Festival Niterói em Cena.

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