De prosa com Stepan no ‘Garimpo de Almas’

De prosa com Stepan no ‘Garimpo de Almas’

Rodrigo Fonseca

26 de fevereiro de 2021 | 11h34

Rodrigo Fonseca
Coroado com o troféu Grande Otelo, nas comemorações de suas cinco décadas de carreira como ator, em 2019, por “Chacrinha: O Velho Guerreiro” (hoje no menu do Globoplay), Stepan Nercessian está em cartaz nas livrarias com o que pode ser descrito como a primeira joia da literatura brasileira a ser descoberta na prosa em 2021: “Garimpo de Almas”. Publicado pela editora Tordesilhas, seu debute no romance é um estudo da erosão da força física e da lucidez da recordação, dando às lembranças um efeito de chuva ácida. Vende-se o livro na web com a seguinte sinopse: “Atravessando a velhice, um homem comum acessa suas memórias – reais e fabricadas – para construir um retrato brutal e sincero sobre a experiência da subjetividade humana. A partir da visita de almas não anunciadas, vozes em busca de alguém que as ouça, constrói-se essa colcha de retalhos narrativa, em que um homem comporta cem”. Mas a melhor forma de se conhecer o diamante bruto que Stepan lapidou é ler seus parágrafos. Tipo:
“Viver me ensinava que a vida é um pedaço de tempo cercado de morte por todos os lados, e eu percebia que o homem era uma ilha cercada de tédio por todos os lados – e eu estava só”.

O ator goiano em “Sob Pressão”

Goiano de Cristalina, nascido lá há 67 anos, Stepan, o Dr. Samuel do seriado global “Sob pressão”, está vivendo uma fase de apogeu, que se consagra agora também nas Letras. Confinado nos últimos anos a papéis secundários, Stepan ganhou notoriedade nas telas em 1969, ao protagonizar o cult “Marcelo Zona Sul”, um libelo sobre a rebeldia juvenil, dirigido por Xavier de Oliveira. Desde então, contabilizou participações em filmes míticos, como “Rainha Diaba” (1974) e “A Gargalhada Final” (1979), tendo sido o Querô, de Plínio Marcos no thriller “Barra Pesada” (1977), de Reginaldo Faria. Mas a mítica pessoal em torno de em sua persona de fanfarrão, fez com que ele custasse a ser reverenciado como um dos grandes atores do cinema brasileiro. Há dez anos, ele iluminou o Festival de Brasília como coadjuvante em “Chega de Saudade”. Depois, em 2012, roubou a cena das neochanchadas em “Os penetras”. Mas chegou a hora dos louros: “Chacrinha” é “O” trabalho de sua carreira, consagrando sua maneira despojada de atuar. Stepan é uma espécie de Peréio versão paz e amor, com um talento raro para simbolizar as angústias e as alegrias do povão. E isso está impresso no sabor de brasilidade em sua escrita. O prefácio de “Garimpo de Almas” é um belíssimo ensaio de Cacá Diegues sobre Stepan em seu devir Hemingway.

p.s.: Neste domingo, dia 28/02, às 11h, será exibida a penúltima conversa do ciclo de palestras Lab Corpo Palavra, agora com a diretora e atriz Ana Kfouri. Artista premiada e professora da PUC-Rio, ela tem uma profunda pesquisa cênica que pensa a palavra e o corpo como campos de forças em tensão e em relação. O evento reúne artistas e pesquisadores da dança, das escritas, das artes cênicas e dos estudos do corpo no canal do Youtube Celeiro Moebius (https://bit.ly/3q9zULp). As palestras ficam disponíveis no canal após o evento.

p.s.2: Com direção de Rafaela Amado, o espetáculo “O Jogo”, premiado texto da autora venezuelana Mariela Romero, ganha temporada virtual, de 06 a 21 de março. Em cena, estão as atrizes Geovana Metzger e Milah Coutinho, numa trama que expõe questões como desigualdade, opressão feminina e relações abusivas. Haverá debate com as atrizes e convidados após as sessões. Os ingressos estarão disponíveis para compra pelo Sympla (www.sympla.com.br/o-jogo__1133300).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.